sexta-feira, 1 de abril de 2011

Egito: Igreja rejeita instituição de partidos de base religiosa

À luz dos recentes acontecimentos que abalaram o Egito e que continuam impondo seu passo renovado aos ritmos de vida egípcios em todos os níveis - social, religioso, nacional e internacional -, a edição em árabe de ZENIT falou com o cardeal Antonios Naguib, patriarca da Igreja Copta Católica e presidente da Conferência Patriarcal e Episcopal e do Egito, para discutir a situação atual e conhecer sua opinião e a da Igreja sobre as questões do presente momento histórico na vida da nação.

Como o senhor vê a atual situação no Egito?

Patriarca Naguib: A situação no Egito não é clara. O resultado do referendo para a reforma constitucional foi afirmativo para a mudança, com uma porcentagem de 77,2%. Todas as forças políticas se comprometerão agora a preparar as eleições parlamentares e presidenciais, na base do projeto constitucional que será apresentado pelo conselho supremo das forças armadas. Após as eleições, será constituída a comissão que preparará a nova constituição da nação. Esta é a situação do ponto de vista político.

Do ponto de vista da vida interior do país, apreciamos muito o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo conselho supremo das forças armadas e do ministério do tráfego, que estão levando adiante a situação, nesta fase de mudança. No entanto, é evidente para todos a delicada situação econômica, administrativa e social que a nação está atravessando. Esperamos, portanto, uma rápida mudança no sentido da estabilidade, emprego, produtividade e segurança.

Há iniciativas eclesiásticas para uma maior conscientização do papel político e cultural que os cristãos podem ter no Egito?

Patriarca Naguib: Sim, existem muitas iniciativas em muitas igrejas, para aumentar a consciência política e cultural entre os cristãos no Egito, e isso acontece em todas as igrejas, paróquias e instituições da Igreja, para incentivar os cristãos a desenvolver o seu papel nacional, para o bem da nossa amada nação. Isso ficou evidente, tanto no espírito que estava ao recolher os títulos de eleitor como na participação ativa no último referendo.

Deve-se notar aqui que a Igreja não desenvolve um trabalho político, pois é uma instituição religiosa. No entanto, os cristãos, ao serem também cidadãos, participam da vida social e trabalham com todos os outros para construir seu país.

A Igreja, em todas as suas confissões, rejeitou a ideia de partidos políticos cristãos. O senhor poderia explicar por quê?

Patriarca Naguib: A Igreja Católica não promove a instituição de partidos de base religiosa, e sim exorta os cristãos a participarem da vida política enquanto cidadãos. Ela os convida a participar de partidos com base nos princípios e programas que garantam os valores humanos, morais e nacionais, os direitos integrais do homem, entre eles a liberdade religiosa, ou seja, a liberdade de culto e o direito de escolher a própria religião - enquanto a instituição de partidos de base religiosa constitui uma confusão entre o que é religioso e o que é político, ou seja, entre o que é absoluto e o que é relativo. Este fato não ajudaria nem a religião nem a política, porque conduziria inevitavelmente à politização da religião e à manipulação religiosa da política. O que realmente importa é que todo cidadão, cristão e muçulmano, cumpra seu dever com positividade e compromisso nacional e livre, um compromisso pelo bem da própria consciência e das próprias convicções, pelo bem comum.

Como membro do Conselho Pontifício para os Migrantes e Itinerantes, o senhor apoia o movimento dos povos de um país para outro em busca de uma vida melhor?

Patriarca Naguib: A liberdade de movimento em busca de uma vida melhor é um dos direitos humanos, protegido pelas constituições internacionais dos direitos do homem, e a Igreja o acolhe sem hesitação. Mas a Igreja sempre quer chamar a atenção de seu povo sobre a necessidade de estudar as causas do deslocamento e das migrações, para conhecer o lado positivo e negativo, para que os imigrantes não sejam surpreendidos por situações difíceis nos países para os quais migram e, não estando preparados, encontrem-se em situações complicadas. A Igreja convida seus filhos a pensarem profundamente, também, no sentido de sua presença em seus países de origem e no significado espiritual de perseverar em seus países, porque permanecer no seu país é melhor, tanto para eles quanto para sua própria nação.

Existe a ideia de fazer uma coletiva de imprensa oficial para esclarecer as diretrizes da Igreja nesta importante fase da história egípcia?

Patriarca Naguib: A ideia é boa e pode ser considerada. Eu acho que é necessário esperar até que se esclareça a perspectiva sobre a situação atual. Acreditamos que existem diferentes realidades que ainda não estão claras.

Chamamos a atenção especialmente sobre o fato de que neste período é necessário priorizar os interesses nacionais sobre os interesses privados, e isso se aplica a todas as partes e a todas as orientações políticas, culturais, sociais e religiosas. O Egito está atravessando um período muito delicado e exige que todo egípcio que se considera um cidadão autêntico coloque em primeiro lugar o bem comum, que pense em como proteger o Egito e ajudar a sair desta situação de transição com a cabeça erguida e mais forte do que antes.

Temos de dedicar a nossa atenção às questões urgentes e delicadas. Isso deve estar na agenda de cada egípcio e nacionalista, seja de um partido ou não, seja cristão ou muçulmano. Nossa pertença nacional deve preceder qualquer outra pertença nesta fase, porque o Egito tem necessidade de seus fiéis filhos.

Fonte: Zenit.

Nenhum comentário:

Postar um comentário