sábado, 4 de setembro de 2010

VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM

Lucas 14, 25-33
“Quem não carrega a sua cruz... não pode ser meu discípulo”

Aprofundando o ensinamento sobre o discipulado, Jesus aqui expõe as condições para um verdadeiro seguimento. À primeira vista, a leitura pode nos chocar! Pode até parecer que Jesus esteja ensinando algo que não condiz muito com os ensinamentos cristãos. Isso especialmente se a tradução da nossa bíblia fala que nós devemos “odiar” os nossos pais e família (uma tradução literalmente correta). Mas aqui - de novo - estamos diante do problema das culturas e das línguas. Pois, esse texto nos traz um “semitismo”, ou seja, uma expressão de uma língua semita (no caso de Jesus, o aramaico) que tem que ser interpretada no contexto da cultura que aquela língua expressa. O aramaico e o hebraico usavam muitas expressões assim, que não tinham a mesma força que têm em português. Realmente o termo traduzido por “odiar” significava “desapegar-se”. Então podemos traduzir em termos inteligíveis portugueses: “Se alguém vem a mim, e não dá preferência mais a mim do que ao seu pai, à sua mãe, à mulher, aos filhos, aos irmãos, às irmãs, e até mesmo à sua própria vida, esse não pode ser meu discípulo” (v. 26).

Jesus quer deixar bem claro - como ele faz muitas vezes “na caminhada” - que a opção pelo Reino necessariamente exige renúncias. Não só renuncia do mal e do pecado, mas renúncia de coisas altamente positivas em si; não renúncia por renunciar, mas em vista de um bem maior - o Reino de Deus, o único bem que pode satisfazer plenamente os anseios mais profundos do coração humano. Por isso, a vinda de Jesus pode ser vista como a crise escatalógica última - pois põe todos nós diante da opção mais fundamental - quais são os valores reais da nossa vida?

No mundo pós-moderno, onde se foge dos compromissos permanentes, onde tudo é relativizado, os desejos individuais são absolutizados, e a subjetividade se confunde com o individualismo, esta proposta soa como contra-cultural. Pois, Jesus nos convida a definir os valores mais profundos da nossa vida - e insiste que nada, por mais valioso que seja, possa ser mais importante do que a dedicação total ao Reino. Claro, ele não obriga - estamos livres para recusar esta exigência - mas então não seremos discípulos d’Ele! Aqui põe em cheque a vivência do cristão que “não é frio nem quente, mas morno”, e por isso mesmo “está para ser vomitado da minha boca” (Ap 3 16).

O tema da cruz reaparece aqui - e de novo lembramos que “carregar a cruz” não é de maneira alguma simplesmente “sofrer”. É a consequência de uma coerência com o projeto e a proposta de vida de Jesus. É condição imprescindível para quem quer ser discípulo d’Ele: “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (v 27). Podemos dizer que, se o trecho que precede este texto (vv 15-24, “Um rei fez um grande banquete”) enfatiza a gratuidade do chamamento da parte de Deus; esses versículos salientam o outro lado da medalha - a resposta incondicional dos discípulos. Todo o Evangelho de Lucas - como também os outros - deixa bem claro que esta resposta é a meta da nossa vida. Ninguém começa a caminhada com total dedicação ao Reino - mesmo que pense que faz! É na caminhada de anos, com as nossas incoerências, tropeços, erros, e traições, que a gente aprende a ser discípulo/a. A experiência de Pedro e dos Doze que nos diga!

As duas parábolas seguintes - a do construtor tolo e do rei que vai à guerra - nos ensinam a necessidade de reflexão antes da ação. Ou seja, aqueles que querem seguir Jesus devem refletir sobre o preço a pagar. A situação triste do construtor falido e do rei derrotado são símbolos da situação do discípulo que desistiu “pelo caminho”.

A reflexão sobre as exigências do discipulado pode nos desanimar diante da realidade das nossas fraquezas, a não ser que reflitamos também sobre a gratuidade de Deus que não nos abandona, mas nos ama como somos, e nos dará forças para a caminhada. Assim foi a experiência do grande discípulo Paulo, que após longos anos de experiência, incluindo as maiores experiências místicas e os maiores sofrimentos, pôde afirmar com toda a sinceridade: “Eu não consigo entender nem mesmo o que faço; pois não faço aquilo que eu quero, mas aquilo que mais detesto... Não faço o bem que quero, e sim o mal que não quero” (Rm 7, 15s). Mas, mesmo assim, reconhecendo os fracassos e falhas na sua caminhada de discípulo, exclama com alegria: “Portanto com muito gosto, prefiro gabar-me das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. É por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte (2Cor 12, 9s).

Pois, se ele fez a experiência das exigências inerentes ao seguimento de Jesus, ele também fez a experiência da graça de Deus: “Para você, basta a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta o seu poder” (2 Cor 12,9).

Não tenhamos medo de assumir o desafio que Jesus hoje nos lança, pois ele nos dará a graça necessária para a caminhada. Basta querer e pedir!

Fonte: Tomas Hughes, SVD.

Evangelho do domingo: seguir Jesus como discípulo

Apresentamos a meditação escrita por Dom Jesús Sanz Montes, OFM, arcebispo de Oviedo, administrador apostólico de Huesca e Jaca, sobre o Evangelho deste domingo (Lucas 14, 25-33), 23º do Tempo Comum.

* * *

O Evangelho diz que "grandes multidões acompanhavam Jesus". A passagem do Senhor, com seus milagres admiráveis, com seu ensinamento surpreendente, com sua pessoa fascinante, ia arrancando "seguidores", com toda a carga de entusiasmo e também de ambiguidade. Ele criticou a miragem de uma euforia massiva, porque a compreensão da sua Mensagem e a adesão à sua Vida não se medem por êxitos estatísticos, mas pela fidelidade do coração que é completamente transformado.

Sim, grandes multidões acompanhavam Jesus, mas nem todos pelo mesmo motivo. Assim, todo um leque de pretensões diante de Jesus: os curiosos que querem ficar por dentro de tudo o que acontece, os zeladores de toda ortodoxia tradicionalista, os proscritos de todos os grupos, os abastados e satisfeitos, os párias e empobrecidos... Ele se volta e diz: por que você me segue?

O seguimento cristão e eclesial de Jesus tem uns claros identificadores:

Seguir Jesus pospondo os afetos, inclusive os mais sagrados: pais, esposos, filhos, nós mesmos. "Post-poner" significa precisamente "colocar depois". Não reprimir, nem sufocar, nem ignorar, mas situá-los depois de Jesus; vivê-los n'Ele e a partir d'Ele. Tudo o que é amável na vida, temos de colocar no Amor que o Senhor é e que nos revelou. Diante de Jesus Cristo, absolutamente todo o resto será sempre menos importante.

Seguir Jesus renunciando a todos os bens, porque ninguém pode servir a dois senhores com um coração partido e dividido; onde está o tesouro de uma pessoa, lá é onde ela coloca seu coração. Inclusive neste nível meramente humano e administrativo dos nossos assuntos, a primazia de Deus nos humaniza, evita que facilmente sejamos vítimas, cúmplices ou gestores de tanta corrupção campeante.

E por último, seguir Jesus em seu próprio caminho, inclusive ir com Ele até a cruz. Ser cirineus não é seguir um ausente ou um inexistente, arrastando de forma masoquista todas as nossas dores e pesares ou os dos outros. Ser cirineus é caminhar com Alguém que é ao mesmo tempo caminho e caminhante. Com todas as consequências, até o final.

Quem se aventura a seguir Jesus, aceitando sua companhia de Mestre e Senhor, comprovará que a vida não se torna sombria e pesada depois de tanta "post-posição", mas, pelo contrário, terá uma alegria que ninguém poderá roubar. Seguir Jesus perdendo tudo é a apaixonante e paradoxal forma de encontrar tudo, porque Jesus não é um rival, a não ser daquilo que perverte, idolatra e desumaniza o coração. Seguimos um Deus vivo que ama a vida e nos ensina a vivê-la.


Fonte: Zenit.

Acordo histórico para restaurar igreja da Natividade em Belém

As Igrejas católica, ortodoxa e armênia chegaram a um acordo histórico: contribuir com a Autoridade Palestina para a restauração do telhado da igreja de Natividade de Jesus, em Belém.

O custódio da Terra Santa, franciscano Pierbattista Pizzaballa, o patriarca grego ortodoxo Theophilos III, e o representante do patriarca armênio, Torkom II Manoogian, firmaram o acordo nessa quinta-feira em Belém.

O acordo foi assinado na presença do primeiro-ministro palestino, M. Salam Fayyad, e do conselheiro do presidente Mahmoud Abbas para Assuntos Cristãos e presidente do Comitê para a renovação da igreja, M. Ziad Al bandak.

O padre Pizzaballa disse que “se trata do início de um novo modo de viver juntos em Belém”. “Esta basílica, muito antiga e necessitada de restauração, foi convertida no símbolo de nossa incapacidade de falar – explicou –. Espero que se transforme em um novo espaço em que as Igrejas podem demonstrar sua capacidade de colaborar.”

De fato, para qualquer restauração da basília da Natividade, como de todos os santuários regidos pelo Status Quo, é necessário o acordo dos três “co-proprietários”.

A insistência do presidente da Autoridade Nacional Palestina foi resultado fundamental para alcançar o acordo.

Em novembro de 2008, Mahmoud Abbas havia convidado as Igrejas a se entenderem. Além disso, a Autoridade Palestina destinou um milhão de dólares para a obra, segundo a agência AFP.

No ato da firma do acordo, estava presente também o chefe do grupo internacional de especialistas em restauração, professor Remigio Rossi. Está previsto que a obra dure 150 dias, e pelo momento a data de início é desconhecida.

Intervenção urgente

O que é evidente é a urgência das obras de restauração do templo. Visitando-o em dias de chuva, podem-se ver possas de água em diferentes pontos do interior.

De fato, não acontece nenhuma obra de restauração do telhado desde 1832, de forma que está notavelmente danificado, motivo pelo qual também ocorre a deterioração de mosaicos e pinturas.

Além de ser um dos lugares santos mais importante do cristianismo, onde segundo a tradição Jesus nasceu, a basílica da Natividade de Belém é uma das igrejas mais antigas do mundo.

Construída no início do século IV pelo imperador Constantino e reconstruída no início do século VI pelo imperador Justiniano, foi salva durante as invasões árabes do século VII pelo fato dos Reis Magos representados no edifício estarem revestidos de hábitos orientais.

O essencial da estrutura atual do telhado remonta a sua maior restauração, feita entre os anos de 1435 e 1479.


Fonte: Zenit.

Papa conta experiências da sua juventude

A guerra e as dificuldades, as próprias dúvidas e o encontro com Jesus são algumas das vivências pessoais que o Papa Bento XVI revive na Mensagem para a Jornada Mundial da Juventude (Madri, 2011), divulgada hoje pela Santa Sé.

Nela, o Papa percorre os anos da sua vocação e propõe sua própria experiência aos jovens, pois as aspirações de um jovem "são as mesmas em todas as épocas" e podem ser resumidas no "desejo de uma vida maior", que não acabe em "mediocridade".

Os jovens, "como em toda época, também em nossos dias", sentem o "profundo desejo de que as relações interpessoais sejam vividas na verdade e na solidariedade".

"Muitos manifestam a aspiração de construir relações autênticas de amizade, de conhecer o verdadeiro amor, de fundar uma família unida, de adquirir uma estabilidade pessoal e uma segurança real, que possam garantir um futuro sereno e feliz."

No entanto - afirma o Papa, recordando sua própria juventude -, "vejo que, na verdade, a estabilidade e a segurança não são as questões que mais ocupam a mente dos jovens".

"Sim, a questão do lugar de trabalho - e, com isso, a de ter o porvir garantido - é um problema grande e urgente, mas ao mesmo tempo a juventude continua sendo a idade na qual se busca uma vida maior."

O Papa recorda sua juventude, que transcorreu entre a 2ª Guerra Mundial e o imediato período pós-guerra.

"Ao pensar nos meus anos de então, simplesmente, não queríamos perder-nos na mediocridade da vida aburguesada. Queríamos o que era grande, novo. Queríamos encontrar a vida em si, em sua imensidade e beleza."

Certamente, reconhece, "isso dependia também da nossa situação. Durante a ditadura nacional-socialista e a guerra, estivemos, por assim dizer, ‘presos' pelo poder dominante. Por isso, queríamos sair, para entrar na abundância das possibilidades de ser homem".

Contudo, afirma, "este impulso de ir além do habitual está em cada geração. Desejar algo mais que a cotidianidade regular de um emprego seguro e sentir o desejo do que é realmente grande faz parte do ser jovem".

"Será que se trata somente de um sonho vazio, que se desvanece quando a pessoa se torna adulta? - pergunta-se. Não. O homem, na verdade, foi criado para o que é grande, para o infinito. Qualquer outra coisa é insuficiente."

Citando um dos seus pensadores favoritos, afirma: "Santo Agostinho tinha razão: nosso coração está inquieto enquanto não descansa em Deus. O desejo da vida maior é um sinal de que Ele nos criou, de que carregamos o seu selo".

Dúvidas

A juventude, reconhece o Papa em sua mensagem, é também "uma fase fundamental que pode turbar o ânimo, às vezes durante muito tempo. Pensamos em qual será nosso emprego, como serão as relações sociais, que afetos é preciso desenvolver...".

Bento XVI volta novamente aos seus anos juvenis e compartilha com os jovens suas próprias vacilações e dúvidas.

"De certa forma, em pouco tempo tomei consciência de que o Senhor me queria como sacerdote. Mas depois da guerra, quando eu me dirigia a esta meta no seminário e na universidade, tive de reconquistar esta certeza", explica.

"Eu tive de me fazer esta pergunta: realmente é este o meu caminho? É verdadeiramente a vontade do Senhor para mim? Serei capaz de permanecer fiel e estar totalmente à disposição d'Ele, ao seu serviço?"

A decisão do sacerdócio não foi fácil: "Uma decisão assim também causa sofrimento. Não pode ser de outra forma. Mas depois tive a certeza: assim está bem! Sim, o Senhor me quer, e por isso me dará também a força. Escutando-O, estando com Ele, chego a ser eu mesmo. Não importa a realização dos meus próprios desejos, mas a sua vontade. Assim, a vida se torna autêntica".

Encontro com Jesus

Outro dos "tesouros" da sua juventude que o Papa quis compartilhar foi o dom do encontro pessoal com Jesus, uma "pérola preciosa" que, de alguma forma, ele quis transmitir com seus livros sobre Jesus de Nazaré - cujo segundo volume será publicado na próxima Semana Santa.

"Para muitos, é difícil o acesso a Jesus. Muitas das imagens que circulam de Jesus - e que se fazem passar por científicas - diminuem sua grandeza e a singularidade da sua pessoa", afirma o Papa.

Por isso, "ao longo dos meus anos de estudo e meditação, fui amadurecendo a ideia de transmitir em um livro algo do meu encontro pessoal com Jesus, para ajudar de alguma forma a ver, ouvir e tocar o Senhor, em quem Deus veio ao nosso encontro para dar-se a conhecer", acrescenta.

"O encontro com o Filho de Deus proporciona um dinamismo novo a toda a existência. Quando começamos a ter uma relação pessoal com Ele, Cristo nos revela nossa identidade e, com sua amizade, a vida cresce e se realiza em plenitude", afirma o Papa aos jovens.

"Queridos jovens, aprendei a ‘ver', a ‘encontrar' Jesus na Eucaristia, na qual Ele está presente e perto até entregar-se como alimento para o nosso caminho; no sacramento da Penitência, no qual o Senhor manifesta sua misericórdia, oferecendo-nos sempre seu perdão. Reconhecei e servi Jesus também nos pobres e doentes, nos irmãos que estão em dificuldade e precisam de ajuda", conclui.


Fonte: Zenit.

Bento XVI convida os jovens a buscarem suas próprias raízes

Bento XVI afirma que é "vital" para a pessoa "ter raízes e bases sólidas", ao contrário do que afirma o pensamento atual, e por isso convida os jovens a "aprofundar nas raízes" e a buscar "pontos estáveis" que sustentem suas vidas.

Esta é a mensagem entregue hoje aos jovens que participarão da Jornada Mundial da Juventude de Madri em agosto de 2011, uma mensagem em que o próprio Papa fala sobre seus anos juvenis, suas aspirações e dúvidas.

Na mensagem, o Papa convida os jovens a resistirem ao pensamento atual relativista, a não deixar de aspirar a "uma vida maior", a buscar, em definitivo, o próprio Deus.

"A cultura atual, em algumas partes do mundo, sobretudo no Ocidente, tende a excluir Deus, ou a considerar a fé como um ato privado, sem nenhuma relevância na vida social", apesar de que "o conjunto dos valores, que são o fundamento da sociedade, provenha do Evangelho".

O Papa constata que existe "uma espécie de ‘eclipse de Deus', certa amnésia, mais ainda, uma verdadeira rejeição do cristianismo e uma negação do tesouro da fé recebida, com o risco de perder aquilo que nos caracteriza mais profundamente".

Por isso, convida a "voltar às raízes": "Vós sois o futuro da sociedade e da Igreja. (...) É vital ter raízes e bases sólidas. Isso é verdade, especialmente hoje, quando muitos não têm pontos de referência estáveis para construir sua vida, sentindo-se, assim, profundamente inseguros".

"O relativismo que se difundiu, e para o qual tudo dá na mesma e não existe nenhuma verdade, nem um ponto de referência absoluto, não gera verdadeira liberdade, mas instabilidade, desajuste e um conformismo com as modas do momento", adverte.

Por isso, incentiva os jovens a exigirem "o direito de receber das gerações que vos precedem pontos firmes para fazer vossas opções e construir vossa vida, do mesmo modo que uma planta necessita de um apoio sólido até que cresçam suas raízes, para se converter em uma árvore robusta, capaz de produzir fruto".

"Quais são nossas raízes? - pergunta-se. Naturalmente, os pais, a família e a cultura de nosso país são um componente muito importante de nossa identidade."

No entanto, convida os jovens a irem "além": "enraizar significa voltar a colocar nossa confiança em Deus. D'Ele vem nossa vida. Sem Ele, não poderíamos viver de verdade".

No contexto atual, afirma o Papa, "há uma forte corrente de pensamento laicista que deseja afastar Deus da vida das pessoas e da sociedade, lançando as bases e tentando criar um ‘paraíso' sem Ele".

No entanto, adverte, "a existência ensina que o mundo sem Deus se converte em um ‘inferno', onde prevalece o egoísmo, as divisões nas famílias, o ódio entre as pessoas e os povos, a falta de amor, alegria e esperança".

"Ao contrário, quando as pessoas e os povos acolhem a presença de Deus, adoram-no em verdade e escutam sua voz, constrói-se concretamente a civilização do amor, na qual cada um é respeitado em sua dignidade e assim a comunhão cresce, com os frutos que isso implica."

Assim, adverte: "Há cristãos que se deixam seduzir pelo modo de pensar laicista, ou são atraídos por correntes religiosas que os afastam da fé em Jesus Cristo. Outros, sem deixar-se seduzir por elas, simplesmente deixaram que se esfriasse a sua fé, com as inevitáveis consequências negativas no campo moral".

"Por isso, também eu, como Sucessor do apóstolo Pedro, desejo confirmar-vos na fé (cf. Lc 22, 32). Cremos firmemente que Jesus Cristo se entregou na cruz para oferecer-nos seu amor; em sua paixão, suportou nossos sofrimentos, carregou nossos pecados, alcançou-nos o perdão e reconciliou-nos com Deus Pai, abrindo-nos o caminho da vida eterna."

O Papa conclui a mensagem convidando-os a "dar testemunho da fé na era da globalização".

"Cristo não é um bem somente para nós mesmos, mas é o bem mais precioso que temos para compartilhar com os demais. Na era da globalização, sede testemunhas da esperança cristã no mundo inteiro: são muitos os que desejam receber esta esperança", acrescenta.


Fonte: Zenit.

Papa envia terço abençoado para cada um dos mineiros presos no Chile

O cardeal Francisco Javier Errázuriz celebrou ontem a Eucaristia junto à mina de São José, em Atacama, e fez entrega de um terço abençoado por Bento XVI aos familiares dos 33 mineiros presos.

O purpurado destacou o gesto do Santo Padre, que no domingo dedicou umas palavras, antes da oração do Ângelus, a expressar sua proximidade dos mineiros chilenos e de seus familiares, remetendo sua oração por um resgate rápido. Agora, o Papa quis manifestar de outra forma seu afeto e especial preocupação, por meio da entrega de um terço a cada um dos mineiros, mediante seus familiares mais próximos.

"É impressionante como este fato nos uniu como família e não há ninguém no Chile que não esteja acompanhando dia-a-dia o que lhes ocorre", destacou o arcebispo de Santiago na coletiva de imprensa de ontem, nas dependências do bispado de Copiapó, junto ao pastor diocesano, Dom Gaspar Quintana.

O purpurado destacou o valor dos trabalhadores, a força, alegria, solidariedade e disciplina com que estão enfrentando esta situação, e valorizou a imensa fé que estão expressando durante todo esse tempo, seu amor ao Senhor, sua devoção a Nossa Senhora da Candelária e a São Lourenço.

Também mostrou a importância da colaboração de todos os setores para seguir adiante no resgate. "Quantos trabalhos importantes no Chile poderíamos abordar com este espírito de solidariedade!", destacou.

"Este esforço proclama o valor de toda vida humana, que não tem preço", concluiu o cardeal Errázuriz.

Junto à Eucaristia celebrada no Acampamento Esperança, o cardeal Errázuriz se comunicou com os trabalhadores por meio do fio telefônico.

O purpurado lhes disse que estava orgulhoso deles, e também comunicou que o Papa rezou o Ângelus dominical pelos 33 mineiros. "Eu lhes disse que estávamos orgulhosos deles; que o espírito com o qual foram enfrentando esta enorme dificuldade - com muita fortaleza, com muita disciplina entre eles, com muita fé, e não só esperança, mas também alegria - era um grande presente no começo das comemorações do bicentenário", comentou.

Os mineiros "têm um ânimo esperançoso, solidário, de muita fé, que nos dá a esperança de que podem resistir até serem resgatados", disse o cardeal Errázuriz.

"Todos os dias há um momento de oração pelos mineiros", acrescentou. O cardeal disse também que "o Chile inteiro" está acompanhando o caso dos mineiros, presos a 688 metros de profundidade após um deslizamento na mina São José, no meio do deserto do Atacama.

"O presidente, ministros, equipes de resgate e todo o Chile estão voltados a isso", afirmou o cardeal.

Contudo, também se referiu à criação da comissão investigadora no Congresso, destacando que "não quero ser juiz (...); não pode ser que uma mina não tenha vias de escape habilitadas".

Após o breve comunicado, ele se dirigiu ao Acampamento Esperança, onde presidiu uma Missa com as famílias dos mineiros.


Fonte: Zenit.

O cardeal Newman e a busca da verdade

Depois de viajar cinco horas debaixo de chuva, a 8 de outubro de 1845, o sacerdote passionista Domenico Barberi encontrou-se com o então pastor anglicano John Henry Newman (Londres, 1801- Birmingham, 1890), que lhe pediu que o acolhesse nos braços da Igreja católica, depois de décadas de busca na teologia e filosofia.

O cardeal Ratzinger, em 1990, escreveu, a propósito do centenário da morte de Newman: “foi sua consciência que o conduziu dos antigos laços e das antigas certezas para o difícil e estranho mundo do catolicismo”.

E será agora o Papa Bento XVI que o beatificará em Coventry, centro da Grã-Bretanha, no dia 19 de setembro, durante sua viagem à Inglaterra.

Sobre a vida e inquietações de Newman, em que sempre estiveram entrelaçadas fé e razão, ZENIT entrevistou a escritora italiana Cristina Siccardi, autora do livro Nello specchio del cardinale Newman (No espelho do Cardeal Newman, 2010, editora Fede e cultura), cuja publicação na Itália será nos próximos dias. Cristina escreve para vários meios de comunicação católicos da Itália.

É autora, entre outros livros, de La ‘bambina’ di padre Pio (Rita Montella, 2003), Santa Rita da Cascia e il suo tempo, 2004; Paolo VI. Il papa della luce, 2008.

ZENIT: Como foi a infância de Newman?

Cristina Siccardi: John Henry Newman era o primogênito dos seis filhos do casal John Newman e Jemina Fourdrinier. Nasceu em Londres e foi batizado na Igreja anglicana de Saint Bennet Fink.

Seu pai, um homem empreendedor, foi subindo de posição social até se converter em banqueiro. Mas depois de vários anos de êxito, veio a derrocada. Foi o próprio John Henry que teve de manter toda a sua família quando frequentou a Universidade de Oxford.

“Fui educado durante minha infância para ter o grande prazer de ler a Bíblia, mas não tive sólidas convicções religiosas até os 15 anos”. Assim Newman abriu o segundo parágrafo da obra-prima intitulada Apologia pro vita. História de suas convicções religiosas, que escreveu em 1864 para combater quem, à raiz de sua conversão, havia-o atacado ferozmente.

Um dia, na ermida de Littlemore, onde se converteu, encontrou e folheou um velho caderno seu de escola. Na primeira página encontrou maravilhado um emblema que lhe cortou a respiração: tinha desenhado a figura de uma cruz robusta e, atrás, uma figura que representava um rosário com uma pequena cruz unida a este. Naquele momento tinha só dez anos. Estas imagens não teriam por que terem sido desenhadas a lápis por Newman, devido à aversão que os protestantes têm às imagens sagradas.

ZENIT: Por que chamavam tanto a atenção dele os Padres da Igreja?

Cristina Siccardi: Quando ainda era anglicano, em 1826, Newman decidiu estudar com um método sistemático os Padres da Igreja, e nasceu assim um grande amor por eles. Em primeiro lugar, examinou-os com a ótica protestante, mas depois, em 1835 e 1839, retomou o estudo com uma ótica mais parecida com a do catolicismo.

Em uma carta a seu amigo Pusey, disse: “Não me envergonho de basear-me nos Padres, e não penso em de forma alguma me afastar deles. A história de seus tempos não é para mim um almanaque velho. Os Padres me fizeram católico e eu não pretendo me afastar da escada pela qual subi para entrar na Igreja”.

Os Padres foram para Newman seu grande amor, neles encontrou a resposta às persistentes perguntas religiosas e de fé que o torturaram durante 44 anos, até que, a 9 de outubro de 1945, foi acolhido na Igreja católica pelo padre Domenico Barberi, passionista italiano que foi beatificado por Paulo VI em 1963.

ZENIT: Conte-nos mais sobre a conversão dele para o catolicismo...

Cristina Siccardi: Esta chegou através de um cansativo percurso intelectual e espiritual. Sua biografia identifica-se com a elaboração do pensamento e com o empenho da alma. John Henry Newman está situado entre os grandes pensadores, filósofos e teólogos da história da humanidade. Sua bibliografia, que se têm edificado no mundo no transcurso dos 120 anos desde sua morte, é enorme.

Com espírito de explorador, atento e escrupuloso pesquisou o interminável nó de caminhos que é o protestantismo. Primeiro como calvinista e depois como anglicano, para depois chegar com alegria à Igreja de Pedro, como pôde experimentar também outro convertido excepcional: Santo Agostinho. Newman comportou-se como o capitão que governa seu navio de guerra com destreza e competência e, sem trégua alguma, alcançou com grande humildade, e sobretudo com zelo, a meta desejada.

ZENIT: Que seus amigos disseram quando ele deu este passo?

Cristina Siccardi: Newman, apesar de dar uma especial importância ao valor da amizade e aos laços profissionais, quando viu e compreendeu a verdade e onde estava, não se preocupou com mais nada nem ninguém e abandonou tudo e todos, assim como fizeram os apóstolos. Seus amigos anglicanos compreenderam que tinham perdido um grande homem: alguns lamentaram, outros o julgaram ferozmente, outros, em contrapartida, o apoiaram.

O elogio mais belo, a nosso parecer, que lhe deram em vida, foi a carta que Edward Pusey enviou a um amigo: “Deus está ainda conosco e nos permitirá seguir adiante, apesar desta grande perda. Não devemos esconder sua importância, porque foi a maior perda que tivemos. Quem o conheceu sabe bem dos seus méritos. Nossa igreja não soube se beneficiar. Era como se uma espada afiada dormisse em sua bainha porque ninguém sabia empunhá-la. Era um homem predestinado a ser um grande instrumento divino, capaz de realizar um amplo projeto que restabelecesse a Igreja. Foi-se – como todos os grandes instrumentos de Deus – inconsciente de sua própria grandeza. Foi-se para cumprir um simples ato de dever, sem pensar em si mesmo, abandonando-se completamente nas mãos do Altíssimo. Assim são os homens em quem Deus confia. Poder-se-ia dizer que se transferiu para outra área da vinha, onde pode utilizar todas as energias de sua poderosa mente”.

ZENIT: Ele recebeu muitos ataques da parte da Igreja anglicana e dos intelectuais da época?

Cecila Siccardi: Certamente da Igreja anglicana, dos intelectuais protestantes e também da própria Igreja católica. Os primeiros o consideravam um traidor, os segundos, alguém de quem se deve desconfiar. Também alguns católicos na Irlanda estiveram contra: ele foi removido do cargo de reitor da Universidade de Dublin. John Henry Newman escreveu a Apologia pro vita justamente para se defender dos ataques dos intelectuais. Este livro engendrou muitas conversões. Recordemos que o Papa Leão XIII afastou muitos rumores maliciosos, quando concedeu a Newman o barrete cardinalício.

ZENIT: Em uma sociedade onde reina o relativismo moral e intelectual, que nos diz a beatificação de Newman?

Cristina Siccardi: O cardeal Newman combateu sincera e lealmente o liberalismo, trazendo, com seu método sistemático e analítico, um dos perfis mais reais daquela Europa em fase de corrupção, de abandono da civilização cristã e de agonizante apostasia. Conseguiu identificar as conotações de secularização e relativismo de nossos dias, fruto da presunção que já os gregos pagãos, depositários de verdadeiras sementes do Verbo, definiam ύβρις (übris = a arrogância de quem não se submete aos deuses), ou o que é o mesmo, a ideia de antepor os lugares comuns supostamente racionais da própria época à razoabilidade e racionalidade da Tradição.

Newman, quem, como disse o cardeal Ratzinger em 1990, “pertence aos grandes doutores da Igreja”, esse grande cavalheiro do século XIX inglês, alcançou a Verdade quando tinha 44 anos, depois de décadas de estudo e aprofundamento. Com valentia, forçou sua própria mente para entender, indagar, sondar os meandros da história, da filosofia, teologia e descobrir finalmente a pedra preciosa. Foi assim que “vi meu rosto naquele espelho: era o rosto de um monofisista, o rosto de um herege anglicano e o descobri quase com terror”.

O epitáfio na tumba do futuro beato Newman, cuja vida é a prova mais evidente e concreta de que a razão pode se unir à fé para trazer à terra a Igreja de Jesus Cristo, a única verdade que leva à salvação eterna. Crer na verdade e ser livre: “Se permanecerdes em minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 31-32). John Henry Newman é o modelo que a Igreja, sob o pontificado de Bento XVI, propõe aos cristãos e aos católicos para seguir: é a resposta claríssima do Papa ao mundo relativista.


Fonte: Zenit.