sábado, 22 de janeiro de 2011

TERCEIRO DOMINGO COMUM

Mt 4, 12-23
“Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo”

O texto começa situando a pessoa e a missão de Jesus no seu contexto concreto, histórica e geograficamente. A mudança de Jesus para a Galileia tem sido interpretada tanto como um assumir corajoso da sua missão profética, diante da prisão de João, como uma busca de maior segurança. O verbo usado para “retirou-se” em v. 12 costuma ser usado por Mateus para indicar o recuo diante de um perigo (2, 12.13.14.22;12, 15;14, 13;15, 21). Mas, o autor quer não somente apontar o lugar geográfico da missão de Jesus, mas também a sua natureza profética. Por isso, cita, com grandes modificações, o texto de Is 8 23-9,1. Mateus condensa o texto da forma que só sobram as referências geográficas, que apontam para o Norte da Galileia e Transjordânia, conquistadas pelos pagãos assírios em 734 a.C. Ao passo que a maioria dos profetas e messias do seu tempo se retiravam para o deserto (p. ex. os Essênios de Qumrã e João, o Batista), ou agiram na capital, Jerusalém, Jesus se retira para a periferia, Galileia, cercada pelos gentios.

A esperança da salvação inicia-se exatamente em uma região da qual nada se espera. No tempo de Mateus, uma grande parte da população da Galileia era gentia, ou seja, pagã. Por isso, escolhendo este lugar como palco da sua missão, o ministério de Jesus vai entrar em contato com “todas as nações” (Mt 28, 19).
V. 17 inaugura solenemente a missão de Jesus, a de anunciar a presença do Reino de Deus entre nós. Esta é a mensagem central de Jesus, e junto com a Ressurreição, formava a base e o objetivo da esperança cristã. Usando a visão noturna de Daniel (Dn 7, 13-14), o Reino representa a salvação futura e definitiva de toda a humanidade, socialmente, politicamente e espiritualmente, através do exercício da soberania de Deus, estabelecendo o "Shalom”, a paz que vem pela justiça, na terra como no céu. Como Mateus escreve para uma comunidade basicamente de judeu-cristãos, ele obedece o costume de não pronunciar o nome de Deus, e por isso, usa a frase “Reino dos Céus” no sentido de “Reino de Deus”. Infelizmente, esta convenção nascida do respeito pela transcendência de Deus, levou muitas pessoas a identificar, erroneamente, o Reino como algo pertencente somente ao céu, diluindo a sua força transformadora.

O primeiro passo de Jesus é chamar um grupo de discípulos, começando com os pescadores do Lago de Genesaré. Jesus rompe com o costume rabínico, pois ele mesmo chama os seus discípulos. Em Mateus, Jesus muda a prática rabínica também em outros pontos - os discípulos não serão meros ouvintes do ensinamento do Mestre, mas colaboradores na sua missão; as multidões também seguirão Jesus, buscando n’Ele algo que não encontravam nos mestres oficiais das sinagogas (Mt 4, 25; 8, 1; 12, 15; 14, 13 etc); em um segundo momento, Jesus vai fazer uma crítica a este seguimento, mostrando que segui-Lo vai muito além do que os discípulos e as multidões tinham imaginado - será tomar sobre si a sua cruz (16, 24).

É interessante observar os detalhes do chamamento dos primeiros discípulos para serem “pescadores de homens”, (“pescador” é uma das duas principais imagens para o ministério no Novo Testamento. A outra, a de pastor tem menor conotação missionária) - dois estavam lançando as redes e dois estavam consertando-as. Assim o evangelho mostra a dinâmica da vida cristã - tem hora para lançar redes (a ação missionária) e hora para consertá-las (cuidar mais da vida interna das pessoas e da comunidade). A rede pode significar a comunidade dos discípulos. Com o tempo, as redes dos pescadores se rompiam, por causa dos detritos apanhados, e precisavam ser consertadas, pois rede rompida não pega peixe. O mesmo acontece com a vida cristã, tanto no nível individual como comunitário - com o tempo podemos romper as redes, enfraquecendo a nossa missão. Consertar as redes simboliza o refazer dos elos de união entre nós e Deus, e entre os próprios irmãos e irmãs. Mas, como rede consertada também não apanha peixe se não for lançada, assim a comunidade cristã não pode ficar voltada sobre si mesmo, em uma vida somente interna; mas, esta vida forte de união interna deve levar de volta à missão. As imagens do chamamento nos advertem contra dois extremos que distorcem o seguimento de Jesus - um ativismo desenfreado, só voltado para fora, e que descuida da vida interior das pessoas e das comunidades, de um lado, e uma vida só voltada para dentro, do outro, fazendo da experiência espiritual algo intimista e individual, que não leva à missão. Para o cristão, a missão brota da intimidade com Jesus e leva a aprofundar esta intimidade. A intimidade com Jesus leva de volta à missão e é alimentada pela experiência da missão. Todos os cristãos e cristãs são chamados a serem “pescadores de homens”, colaboradores na construção do Reino de Deus, que já está no meio de nós.

Fonte: Tomas Hughes, SVD.

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