segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Cristãos paquistaneses mortos em violentos ataques

Continuam os problemas para uma minoria perseguida

Por Pe. John Flynn, LC

Para muitos na Europa e na América do Norte, as últimas semanas têm sido tempo de férias e descanso. Para os cristãos no Paquistão, no entanto, tem sido um tempo de renovada violência e morte.
No dia 30 de julho, uma multidão composta por membros de uma banida organização extremista muçulmana, Sipah-e-Sahaba, começou a incendiar casas de cristãos na cidade de Gojra. O ataque se seguiu às alegações de que um Alcorão tinha sido profanado.
Cerca de 40 casas pertencentes a cristãos foram queimadas; seis cristãos foram mortos presos dentro de uma delas.
''Os conflitos religiosos são assustadores, onde religiosos islâmicos fanáticos assumiram a lei em suas próprias mãos”, comentou Mehdi Hassan, vice-chefe da Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, em comunicado citado por Associated Press.
Segundo um relatório publicado a 31 de julho por uma agência de notícias católica asiática, UCAN, a violência atingiu a aldeia de Korian no dia 30 de julho. Korian era o lar de cerca de 100 famílias cristãs, a maioria delas trabalhadores.
O informe de UCAN eleva o número de casas destruídas em Korian a 60 e também destaca que dois templos, pertencentes à Igreja do Paquistão e da Igreja Nova Apostólica, foram destruídos.
Políticos cristãos e sacerdotes católicos condenaram os ataques e exigiram investigações. Um grupo de sete padres católicos visitou o local, informou UCAN. "Não podemos deixar de chorar ao ver o rastro de destruição deixado para trás”, afirmou o pe. Aftab Paul James, diretor da comissão da diocese de Faisalabad para o diálogo inter-religioso.
Mensagem do Papa
Bento XVI enviou um telegrama para a Igreja no Paquistão após o episódio, informou Rádio Vaticano a 4 de agosto. A informação vaticana elevava a oito o número de mortos. Ao enviar suas condolências, o Papa pediu aos bispos que respaldem a comunidade diocesana e os cristãos no Paquistão.
O pontífice pediu que os cristãos não cessem em seus esforços de ajuda a construir uma sociedade que, com sentido profundo de confiança nos valores religiosos e humanos, esteja marcada pelo respeito mútuo entre todos os seus membros.
Em uma reportagem de 3 de agosto, o New York Times dava mais detalhes sobre os assassinatos. Morreram sete membros da família Hameed, seis queimados vivos, e um golpeado pela multidão. Quando queimava uma casa, a multidão que estava fora ameaçou a família com a morte, caso tentasse sair.
Segundo o New York Times, foram incendiadas e saqueadas mais de 100 casas de cristãos em um período de oito horas.
O artigo também chamava a atenção sobre a discriminação contra os cristãos no Paquistão. Com poucas exceções, a maioria deles está relegada às tarefas mais simples. Outro problema é a lei contra a blasfêmia, que se usa frequentemente para provocar o ódio contra os cristãos.
“A lei contra a blasfêmia está-se usando para aterrorizar as minorias no Paquistão”, afirmava Shahbaz Bhatti, ministro para as minorias do Paquistão, em uma entrevista em Gojra, informava o New York Times.
Minorias
De fato, os acontecimentos dos meses anteriores à violência em Gojra dão testemunho das palavras do ministro. A 13 de maio, Associated Press informava que estavam aumentando os assaltos violentos contra as minorias religiosas, devido à influência crescente dos talibãs.
O artigo afirmava que em dezenas de entrevistas ao longo do país as minorias falavam dos ataques e ameaças e expressavam seu terrível medo. Segundo CIA World Factbook, as minorias religiosas representam cerca de 5% dos 160 milhões de habitantes do Paquistão.
Um caso ilustrativo foi tema de uma reportagem no dia 6 de maio de uma agência especializada em notícias de perseguição contra cristãos, Compass News Direct. Hector Aleem, um cristão paquistanês, foi acusado de incitar à blasfêmia contra o Islã. Foi-lhe negada fiança para sua própria segurança, depois que um advogado islâmico supostamente ameaçasse sua vida em uma audiência judicial.
“Se o juiz não castiga Aleem segundo a lei, então o mataremos nós mesmos”, afirmou Tariq Dhamal, advogado de um demandante sem nome. Segundo o artigo, inclusive o juiz temeu por sua vida ante os extremistas se não condenasse Aleem.
Reações
Os cristãos paquistaneses reagiram ao último ataque declarando que fechariam suas escolas e colégios ao longo do país durante três dias, segundo informou Associated Press a 3 de agosto.
O artigo também mencionou que Gojra está na região paquistanesa de Faisalabad, que tem colégios islâmicos de linha dura. O grupo Sipah-e-Sahaba, que se declarou responsável pela violência, tem um grupo afiliado, Lashkar-e-Jhangvi, que está ligado ao Talibã à al-Qaeda, segundo Associated Press.
No entanto, além dos protestos, a Igreja está fazendo esforços para trazer a paz, informava a agência UCAN a 3 de agosto. A Igreja Católica criou um comitê composto por dois bispos, três sacerdotes e vários conselheiros, que estão se reunindo com políticos e clérigos muçulmanos para parar qualquer ulterior violência.
A 6 de agosto, UCAN informava que os bispos católicos do Paquistão estão pedindo ao governo que revogue as leis contra a blasfêmia, afirmando que elas estão sendo mal empregadas e causam problemas para as minorias.
Durante uma coletiva de imprensa de 4 de agosto, no Karachi Press Club, o arcebispo de Karachi, Dom Evarist Pinto, exigiu que o governo abolisse tais leis. Pediu ainda compensação imediata para as vítimas do ataque em Gojra.
Estas leis fazem do insulto ao Alcorão um delito punido até com prisão perpétua, ademais de sentenciar à pena de morte qualquer pessoa condenada por insultar o profeta Maomé, segundo UCAN.
A 10 de agosto, UCAN informava que uma das missas após o episódio em Gojra aconteceu na igreja do Sagrado Coração da localidade. Durante a missa, o bispo de Faisalabad, Dom John Samuel, comentava: “Ainda que acreditemos que os que morrem por sua fé vão ao céu, há quem assassina outros pela mesma promessa do céu”.
“Só a Palavra de Deus pode trazer consolo a nossos doloridos corações”, acrescentou. UCAN também informou que, segundo fontes da Igreja, as agressões causaram 10 mortos, incluindo três crianças e três mulheres. A polícia prendeu 80 muçulmanos por estes ataques e estabeleceu uma unidade de polícia em Gojra.
Novo modelo
A 13 de agosto, L’Osservatore Romano publicava uma entrevista com o núncio da Santa Sé no Paquistão, o arcebispo Adolfo Tito Yllana. O núncio advogou por um novo modelo cultural no Paquistão. Não é apenas uma questão de mudança na lei, afirmou, ainda que criticou a lei contra a blasfêmia. No âmbito mais profundo, há necessidade de um diálogo que transforme a sociedade conduzindo-a à reconciliação a à paz, explicou.
O representante vaticano também apontava que no Paquistão não só se perseguem os cristãos. Outras minorias, como os sijs, também estão sofrendo violência ou discriminação.
Este diálogo não é apenas tarefa dos líderes religiosos, acrescentava o núncio, mas deve implicar também toda população se quiser uma transformação da sociedade. O diálogo deve levar a uma mudança de mentalidade, para que haja uma cultura de tolerância, comentava.
Não se trata de impulsos violentos ocasionais como as matanças em Gojra, acrescentava o núncio. Há muitos episódios de intolerância nas aldeias e nas cidades do Paquistão, mas a mídia não denuncia.
Precisamos ajudar os muçulmanos a mudar sua percepção dos cristãos, concluía o núncio. Uma meta que será certamente difícil de alcançar dada a atual situação no Paquistão.

Fonte: Zenit.

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