quinta-feira, 3 de março de 2011

Livro de Bento XVI sobre Jesus Cristo sai na semana que vem

"Jesus de Nazaré: de Nazaré a Jerusalém": neste segundo volume de seu livro sobre Jesus, Bento XVI apresenta a morte de Cristo como "reconciliação" (expiação) e cura, e evoca a natureza e o "significado histórico" da ressurreição.

O livro será apresentado no Vaticano em 10 de março, pelo cardeal Marc Ouellet, mas hoje já deram a conhecer alguns extratos e o índice de conteúdos.

Depois do primeiro volume - "Jesus de Nazaré: do batismo no Jordão à transfiguração" -, o segundo propõe "uma reflexão pessoal" sobre a missão, a paixão e a ressurreição de Cristo.

Ele aborda questões fundamentais, como o mal no mundo e a discrição de Deus.

O Papa trata de questões exegéticas, como a data da Última Ceia, pois os relatos dos evangelhos sinóticos - Marcos, Mateus e Lucas - e de João apresentam os acontecimentos de forma diferente.

Esclarece-se, por exemplo, o "mistério do traidor" no capítulo sobre o apóstolo Judas Iscariotes. O lava-pés, diz o Papa, apresenta duas formas diferentes de reações humanas diante do dom de Deus: a de Pedro e a de Judas.

O capítulo 1 é dedicado à entrada de Jesus e à purificação do Templo; o 2, ao discurso escatológico (fim dos tempos, tempo das nações, profecia e apocalíptica no discurso escatológico).

O capítulo 3 é consagrado ao lava-pés (A hora de Jesus, "Vós estais puros", sacramento e exemplo, Dom e dever, o mandamento novo, o mistério do traidor, duas conversas com Pedro, o lava-pés e a confissão do pecado).

O capítulo 4 é dedicado à oração sacerdotal de Jesus (a festa judaica da Expiação como pano de fundo, fundamento bíblico da oração do sumo sacerdote, outros grandes temas da oração: a vida eterna, santifica-os na verdade, eu lhes dei a conhecer o teu nome, que todos sejam um).

O capítulo 5 trata da Última Ceia: datação, instituição da Eucaristia, teologia das palavras da instituição, da Última Ceia à Eucaristia, a manhã do domingo.

O capítulo 6 fala da agonia no Getsêmani: rumo ao Monte das Oliveiras, oração de Jesus, vontade de Jesus e vontade do Pai, oração no Getsêmani e Carta aos Hebreus.

O capítulo 7 é dedicado ao processo de Jesus: discussão no Sinédrio, Jesus perante o Sinédrio, Jesus diante de Pilatos.

O capítulo 8 trata da crucificação e sepultamento: Jesus na cruz (Pai, perdoa-lhes, Jesus zombado, grito de abandono, a túnica, tenho sede, as mulheres, a Mãe de Jesus, a morte de Jesus, a sepultura), a morte de Jesus como reconciliação (expiação) e cura.

O capítulo 9, o último, evoca a Ressurreição de Jesus: o que significa a ressurreição de Jesus? Dois tipos diferentes de testemunhos sobre a ressurreição (Morte de Jesus, o túmulo vazio, o terceiro dia, testemunhas/aparições de Jesus a Paulo, aparições de Jesus nos evangelhos); a natureza da ressurreição e significado histórico.

No epílogo, o Papa aborda os outros artigos do Credo: subiu aos céus, está sentado à direita do Pai, há de vir em glória.

Fonte: Zenit.

Luigi Giussani, ministro humilde e audaz do encontro com Cristo

"Um ministro humilde e audaz do encontro com Cristo": esta é a lembrança de Luigi Giussani, em palavras do arcebispo de Milão, cardeal Dionigi Tettamanzi, por ocasião da celebração do sexto aniversário da morte do fundador de Comunhão e Libertação (CL). Este ano também marca o 29º aniversário do reconhecimento pontifício da Fraternidade de CL.

"A vida cristã - disse o cardeal Tettamanzi - não é uma simples ideia, iniciativa, preceito, estrutura ou organização, mas, em sua essência original, é um encontro pessoal com Cristo."

"Fascinado e conquistado", Giussani não fez outra coisa na vida além de colocar-se ao serviço deste encontro, "fascinando e conquistando para Cristo as pessoas e as realidades que encontrou em seu caminho".

"No fundo de cada coração humano - continuou o purpurado -, Deus coloca um desejo de infinito que nada pode extirpar totalmente." Isso é verdade para o homem de hoje e de sempre, "mesmo quando parece que já não quer nem busca mais nada" e "se mostra cansado e sem interesse pela realidade, fechado em si mesmo e prisioneiro de interesses mesquinhos".

"Quem ou o que - perguntou-se o arcebispo de Milão - poderia despertar em nós o desejo, a aspiração, a necessidade de uma sabedoria que nos abra para o verdadeiro sentido de viver e de amar, de trabalhar e descansar, de sofrer e de morrer?"

Para o cardeal Tettamanzi, "a falta do conhecimento e da partilha deste ‘sentido' fundamental é o problema cultural mais importante e decisivo para o nosso presente e o nosso futuro". E a resposta a esta "carência insustentável" não pode ser mais que "uma pessoa viva, concreta, encontrável, experimentável: Cristo Jesus".

"Todos nós - disse ele, dirigindo-se aos membros da Fraternidade e ao seu presidente, o espanhol Julián Carron - sentimos a riqueza de graça e de responsabilidade da fé cristã", que tem "Cristo, seu Evangelho e sua Igreja como critérios interpretativos da realidade".

Numa sociedade e numa cultura em que se confrontam as lógicas profundamente opostas de "domínio e serviço, egoísmo e altruísmo, posse e entrega, exploração e benevolência, interesse e gratuidade", o exemplo da entrega total de Cristo na cruz "deve ser em nós princípio, estímulo e força para uma fé que age na caridade".

"Foi-nos pedido peremptoriamente - continuou o cardeal - agir, empreender, fazer frutificar os talentos que a natureza e a graça nos oferecem, saber incidir na múltipla realidade social, cultural e política, ser protagonistas no desenvolvimento integral do homem e do mundo... mas sempre agindo com a lógica de Cristo e não com a do mundo."

Estar "em Cristo" mostra "a espiritualidade que deve alimentar tudo em nós: nossos pensamentos e sentimentos, nossas escolhas e ações, nosso silêncio e nossa palavra, o momento da alegria e o do sofrimento, o êxito e o cansaço".

"O segredo da vida cristã - concluiu o cardeal Tettamanzi, citando Giussani - é viver com Jesus."

"Quem lê o Evangelho todos os dias - acrescentou, citando o fundador e CL -, quem comunga diariamente, quem diz: ‘Vinde, Senhor!' (...), pode começar a sentir o que quer dizer ‘viver com Ele'. Viver com Ele pode ser dito de outra forma: viver como Ele."

Fonte: Zenit - (Chiara Santomiero)

quarta-feira, 2 de março de 2011

França enfrenta problemas com laicidade e islamismo

Depois de ter abordado temas delicados, como a chamada "identidade nacional" e o uso o véu muçulmano integral em público, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, está novamente se preparando para entrar em território perigoso, o da "laicidade", em particular o da compatibilidade do islamismo com a república e os valores republicanos.

Seu partido, a UMP (União para o Movimento Popular), marcou para 5 de abril uma convention sobre "o exercício dos cultos religiosos na República leiga, em particular o exercício do culto da fé islâmica". Estas foram as palavras do secretário-geral da formação de direita, Jean-François Copé (la-Croix.com, 17 de fevereiro).

Recebendo, na quarta-feira, 16 de fevereiro, os deputados da UMP, o presidente denunciou "a brecha crescente entre a mídia e a preocupação francesa" sobre as questões do Islã e da laicidade. "Nós pagamos muito caro pela cegueira sobre a imigração dos anos 80. Era um debate tabu. Com a laicidade e o Islã ocorre a mesma coisa", disse Sarkozy, que pediu, para este ano, propostas concretas sobre elementos como o conteúdo das pregações dos imames e dos lugares de culto dos muçulmanos (Le Figaro, 17 de fevereiro).

Sarkozy quer parar, particularmente, o mal visto fenômeno das reuniões dos muçulmanos para rezar na rua. "Devemos ter um debate sobre a oração na rua. Em um país leigo, não devem existir convites à oração na rua", continuou Sarkozy. "É preciso chegar a um corpus ideológico em 2011", disse aos deputados da UMP.

A direita tampouco rejeita a alteração da lei de 1905 sobre a separação entre Igreja e Estado, que estipula que "a República não reconhece, nem paga, nem subvenciona qualquer culto". Foi o secretário de Estado da Habitação e Desenvolvimento Urbano, Benoît Apparu, quem confirmou a ideia de permitir um financiamento público para os locais de culto. "Em minha opinião, é necessário facilitar a construção de mesquitas em nosso país, mesmo que o Estado deva participar", disse à Radio Montecarlo e BFM-TV. De acordo com Apparu, se necessário, será feita uma reforma da legislação.

Nem todos os expoentes do governo do primeiro-ministro François Fillon parecem dispostos a tocar na "lei símbolo" da França secular. O ministro do Orçamento e porta-voz do governo Fillon, François Baroin, disse em Europe 1 que, "na agenda do governo, não há um texto leve a uma mudança na lei de 1905; e como líder político da UMP e encarregado do debate, não serei favorável à modificação da lei de 1905".

Sobre este tema também opinou, em entrevista ao Le Figaro, em 17 de fevereiro, outra figura-chave da maioria, o atual ministro da Defesa e fundador da UMP, Alain Juppé. "A lei republicana - disse - deve ser aplicada em condições de igualdade para todos. Certamente, existe diversidade. Mas o princípio republicano (...) é que a lei não pode aceitar as distinções com base em critérios religiosos ou étnicos."

"No que diz respeito aos direitos, é imperioso dizer que os muçulmanos, bem como os católicos, judeus, protestantes e outros, têm o direito de poder praticar sua religião. Entre os deveres, está o respeito pelos valores republicanos, em especial à igualdade entre homens e mulheres", acrescentou Juppé.

A oposição criticou a iniciativa de Sarkozy e da UMP, acusando-os de desejo de destaque, tendo em conta os eventos eleitorais de 2012 (presidenciais e legislativos) e de quer roubar espaço à extrema direita, que há meses está usando o tema em sua campanha contra a islamização da França. Para o deputado Henri Emmanuelli (PS), Sarkozy ficou para trás. "Ele ainda não compreendeu que, com este tipo de iniciativas, ele trabalha para Marine Le Pen", disse o ex-ministro socialista, convidado do programa Le Talk-Orange-Le Figaro.

Segundo Sarkozy, a esquerda está errada. "Marine Le Pen propôs os problemas, mas trabalha pouco pelas soluções": assim se defendeu das críticas o ocupante do Palácio do Eliseu (Le Figaro, 17 de fevereiro). No entanto, resta o fato de que a extrema direita cresce nas pesquisas, roubando intenções de voto da UMP. De acordo com uma recente pesquisa do IFOP (Institut français d'opinion publique) para o jornal France-Soir, a jovem Le Pen (nascida em 1968) aumentaria para 19-20% das preferências no primeiro turno presidencial de 2012, em comparação com os 22-23% para o presidente Sarkozy.

A própria Marine Le Pen pediu à UMP "mais um pequeno esforço". "Quero destacar que, quando a FN é de 15% nas pesquisas, a UMP fala sobre os problemas", disse Le Point.fr (17 de fevereiro). "Mas eu não sou boba - continuou; a convenção da UMP é apenas "bla-bla-blá", ou seja, conversa vazia. Para a política, "as orações na rua não são o resultado da falta de espaço nos locais de culto dos muçulmanos. Isso é mentira e manipulação."

A proposta mais drástica foi feita pelo Partido de Esquerda de Jean-Luc Mélenchon, que pediu para retornar ao texto original da lei de 1905, retirando a alteração feita em 1942 por Philippe Pétain, chefe do então governo colaboracionista de Vichy. Mélenchon também solicitou a revogação da Concordata napoleônica de 1801, que ainda estava em vigor na região da Alsácia-Moselle.

Uma coisa é clara: depois da chanceler alemã, Angela Merkel, em outubro de 2010, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, no seu discurso de 5 de fevereiro, durante a 47ª Conferência de Segurança em Munique, também o presidente Sarkozy rejeita, por conseguinte, o "multiculturalismo" ou o que dele se deriva.

"Não queremos uma sociedade na qual as comunidades coexistam próximas umas das outras. Quando se chega à França, deve-se aceitar a incorporação a uma única comunidade, a comunidade nacional", disse Sarkozy na quinta-feira, 10 de fevereiro, ao canal de televisão TF1. De acordo com uma pesquisa publicada no livro "Les Français face aux inégalités et la justice sociale" (que chegará às livrarias em 9 de março), apenas 20% dos franceses querem que os imigrantes "mantenham suas tradições particulares", enquanto 80% quer "que se adaptem e se misturem na sociedade" (La-Croix.com, 17 de fevereiro).

A sociedade multicultural e multiétnica foi defendida por três políticos ecologistas: Esther Benbassa, Noël Mamère e Eva Joly, de Europe Écologie. "A integração e a assimilação são movimentos vindos do alto, autoritários, que não levam em conta as realidades humanas", disseram em um fórum público divulgado em 27 de janeiro no jornal Libération. O trio lança um apelo a favor do que eles chamam de "uma laicidade racional que reconheça a parte da pertença étnica, cultural, religiosa e linguística".

Fonte: Zenit.

Entra em vigor a nova lei de cidadania do Vaticano

Hoje entrou em vigor a nova lei que regula a cidadania, o acesso e a residência no Estado da Cidade do Vaticano. Esta lei, promulgada pelo Papa Bento XVI no dia 22 de fevereiro, substitui a anterior, de 1929.

A nova regulação prevê uma série de modificações. Duas são particularmente importantes: maior controle do acesso, especialmente de veículos, ao interior do território, e a instituição de uma figura legal que não estava prevista na lei anterior, mas que já era habitual: a do residente.

Em artigo publicado hoje por L'Osservatore Romano, o presidente do Comitê de redação da lei, Dom Giorgio Corbellini, explica as razões pelas quais era necessária uma nova lei de cidadania.

Em primeiro lugar, porque o marco jurídico de referência mudou, com a aprovação de uma nova Lei Fundamental, por João Paulo II, a 26 de novembro de 2000, e de uma nova Lei sobre as Fontes do Direito, por Bento XVI, a 1º de outubro de 2008, revogando as anteriores de 1929.

Em segundo lugar – explicou Dom Corbellini –, era necessário adequar as leis vaticanas à atual situação, tendo em vista as profundas mudanças que houve desde 1929.

Uma das primeiras modificações é a simplificação: a lei anterior tinha três capítulos, um anexo e um total de 33 artigos. A atual, em contrapartida, tem quatro capítulos, mas só 16 artigos.

“O texto foi objeto de uma notável simplificação; em alguns casos, remete a determinações deixadas à atividade regulamentar”, afirma o bispo.

Cidadão e residente

Cidadãos do Vaticano são o Papa, os cardeais que residem no Vaticano ou em Roma, os membros do Corpo Diplomático vaticano que estão em funções, e outros responsáveis vaticanos em razão do cargo ou do serviço que desempenham. A cidadania não é obtida por nascimento, mas por concessão.

A primeira novidade é a tipificação da figura do residente, quer dizer, de quem vive no Vaticano sem ter a cidadania.

Esta figura – explica Dom Corbellini –, “adquiriu cada vez maior importância na realidade vaticana; no transcurso dos anos, muitas pessoas habitantes no Estado preferiram, ainda cumprindo os requisitos, não assumir a condição de cidadão, que na lei de 1929 era considerada a situação normal dos que viviam nele”.

De fato, o Vaticano tem atualmente mais de 800 habitantes, mas só 572 cidadãos, dos quais habitam no território apenas cerca de 220.

A razão da “diáspora” é que grande parte dos cidadãos vaticanos são núncios e diplomatas.

Outra novidade da lei é o reconhecimento da cidadania aos núncios e diplomatas enquanto exercem o cargo, fato que não constava na lei anterior.

Acesso

A segunda grande novidade é a regulação dos acessos, em particular do trânsito pedestre e automotivo, uma situação que mudou muito desde 1929.

O Vaticano tem duas partes, uma de livre acesso (à Basílica de São Pedro, à Praça de São Pedro e aos Museus Vaticanos) e outra restrita.

Na parte de livre acesso há apenas controles comuns de segurança. Na parte restrita, será necessário um cartão de ingresso ou um passaporte permanente.

Outra disposição se refere aos veículos. A nova lei prevê que só podem entrar com veículos automotivos na área restrita do Vaticano os cidadãos, os residentes ou os que possuem a permissão especial.

Fonte: Zenit - (Inma Álvarez)

Que relação existe entre religião e sistema artístico?

Com a expressão "sistema artístico" compreendo o total de princípios e regras que são necessários em um sistema de signos, articulando o significado. Por exemplo, são sistemas artísticos distintos o sistema figurativo, o sistema não-figurativo e o anicônico. Com "religião" quero dizer qualquer credo, de todos os tempos e lugares.

Questionar-se sobre a relação entre as religiões e os sistemas artísticos pode abrir um vasto leque de opções, organizadas segundo reflexões acerca de aspectos inusitados da arte, da sua história, das suas teorias e, finalmente, também na arte sacra enquanto tal. A pergunta inicial se concretiza em uma pergunta posterior: o vínculo entre religiões e sistemas artísticos é imprescindível? Existe uma espécie de relação de reciprocidade biunívoca entre um mundo de crenças e o mundo dos signos do qual é expressão?

Tais reflexões podem ser feitas tendo em conta a história dos povos, das suas religiões e das suas expressões artísticas, indagando com sensibilidade antropológico-cultural, estando atentos não somente ao mero registro dos fatos, mas buscando vínculos e motivações. No curto espaço da minha intervenção, vou buscar formas de coletar algum indício deste processo histórico-artístico-cultural, propondo alguns pensamentos úteis para uma teorização mais abrangente e sistemática.

Algumas relações entre religião e arte são muito populares, podem até mesmo servir como pontos de referência paradigmáticos. Por exemplo, é bem conhecida a relação entre o aniconismo e o islamismo, motivado pela necessidade teológica de não ter representações figurativas no complexo sistema de decoração simbólica de locais sagrados. Outra bem conhecida e estudada é a proibição da representação antropomórfica na tradição judaica, que está em clara relação com um sistema teórico que desenvolveu, no curso da história milenar do povo hebreu, múltiplas possibilidades simbólicas através de signos abstratos ou decorativos, capazes de traduzir em arte um mundo de sabedoria, como no caso das decorações têxteis dos tapetes sefarditas.

Portanto, o monoteísmo judaico e o monoteísmo islâmico oferecem uma escolha clara de sistemas essencialmente não-figurativos. Muito interessante é a análise das expressões artísticas das populações que praticavam - e ainda praticam - cultos naturalistas, panteístas, já que se destaca, nos produtos artesanais dessas culturas, um sistema de signos recorrente, ou seja, uma ampla gama de sinais zoomórficos, fitomórficos e principalmente informais e abstratos de tipo geométrico ou amorfo; este uso de um vocabulário mais amplo de signos, mas em que todos tendem a um sistema de geometrização ou estilização, nos ajuda a compreender como este imenso vocabulário de signos, formas e composições tem uma relação profunda com o mundo denso dos espíritos e seres mais ou menos demoníacos que tem lugar na dimensão cultural e cultual desses povos. A antropologia cultural e a história da arte, trabalhando em conjunto, revelam um mundo de artefatos que vão desde simples utensílios domésticos aos verdadeiros e próprios instrumentos do culto, cheio de sinais apotropaicos, atribuídos a espíritos positivos ou negativos que presidem ou protegem um lugar, uma atividade ou uma determinada ação humana.

Aprofundando no estudo, este tipo de sistema representativo talvez seja um dos mais difundidos no mundo e esteja cronologicamente entre os primeiros que apareceram no vasto mundo de expressão artística. Aqui encontramos, de fato, expressão, em uma classificação sumária dos achados arqueológicos que abrangem múltiplas dimensões culturais, de muitos exemplos. Um sentido difundido da sacralidade, que coincide com o mundo natural e se esconde e expressa nas forças da natureza, dando origem, portanto, a visões cosmológicas nas quais prevalece a simbologia geométrica e o sinal abstrato. Muito diferente é a situação da mitologia politeísta dos gregos antigos, em que os deuses, ainda que adaptados aos elementos da natureza, eram representados como verdadeiras e próprias personificações da forma humana. O antropomorfismo religioso de tal declínio produziu um sistema de signos particularmente envolvido na representação da figura humana. O deus grego do mar tem um corpo humano, não é o espírito do rio: portanto, requer um sistema de signos para se expressar. O politeísmo dos gregos e outros politeísmos da antiguidade criaram sistemas artísticos em sua maioria figurativos.

Finalmente, é um caso particular, uma exceção que leva ao seu cumprimento e à maturidade plena de signos figurativos, o monoteísmo cristão. O mistério da transcendência de Deus é iluminado pelo mistério da Encarnação: Deus se faz homem e revela que só Deus é Uno e Trino, e que no rosto de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, vê-se o rosto do Pai. A arte cristã é então dedicada a observar um rosto e reproduzi-lo. A opção para o sistema figurativo torna-se inevitável: a dimensão histórica da vida de Jesus, e depois da vida de seus discípulos, dos seus apóstolos, da sua Igreja, impõe um sistema figurativo e narrativo.

Mas não faltam, desde o início, as tentações anicônicas, o medo de sujar a transcendência com a figuração; a resposta definitiva a estes temores está no decreto sulle immagini, do Concílio de Niceia II, mas, sobretudo, na segurança de uma ininterrupta tradição bimilenar que levou ao seu cume o sistema figurativo, aperfeiçoando a expressão para torná-lo adequado para representar a visão da realidade criada e redimida, em que a beleza natural é um signo e expressão da beleza infinita de Deus. O vínculo entre as religiões e os sistemas artísticos se mostra sólido e profundo, vivo e fecundo; cada sistema de signos expressa um total de crenças, uma visão religiosa do cosmos e do homem. E existe também, de forma recíproca, um vínculo forte e indissolúvel entre o signo e a ideia religiosa, entre o sistema artístico e o mundo religioso que o produziu.

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* Rodolfo Papa é historiador de arte, professor de história das teorias estéticas na Universidade Urbaniana, em Roma e presidente da Accademia Urbana delle Arti; pintor, autor de ciclos pictóricos de arte sacra em várias basílicas e catedrais; especialista em Leonardo Da Vinci e Caravaggio, além de autor de livros e colaborador de revistas.

Fonte: Zenit.

terça-feira, 1 de março de 2011

JMJ: jovens de hoje precisam urgentemente de Cristo

A próxima Jornada Mundial da Juventude (JMJ) não terá nenhum outro propósito além de anunciar Jesus Cristo, a quem os jovens esperam, "conscientemente ou não".

Isto foi afirmado ontem pelo cardeal Antonio Maria Rouco Varela, arcebispo de Madri e presidente da Conferência Episcopal Espanhola, no discurso de abertura da 97ª Assembleia Plenária dos bispos espanhóis.

O cardeal Varela, cuja arquidiocese vai sediar a JMJ, dedicou o seu discurso a falar sobre este próximo evento global de agosto próximo.

A Igreja, disse ele, "não tem outra coisa para oferecer aos jovens e a todas as pessoas de hoje, a não ser Jesus Cristo. Não há salvação fora d'Ele. E os jovens precisam urgentemente d'Ele".

A este respeito, disse que a JMJ "é um instrumento providencial ao serviço do esforço missionário da Igreja na evangelização da juventude".

O programa da JMJ, disse ele, é, "mais uma vez, claramente cristológico, focado em Jesus Cristo".

"Para alguns, isso parece óbvio: centrar a missão juvenil no anúncio completo de Jesus Cristo. Presumivelmente, outros buscariam abordagens mais específicas ou mais adaptadas às necessidades dos jovens."

No entanto, afirmou, "depois de dois mil anos de evangelização, a Igreja de hoje percebe que Jesus Cristo ainda é muito pouco conhecido e amado".

A proposta cristã, reconheceu, "é uma oferta contracorrente, porque, em meio a um mundo que sofre com a incerteza e que, muitas vezes ainda parece gostar disso, fechando-se a qualquer proposta de verdade, a Igreja quer oferecer aos jovens a firmeza da fé que o Senhor torna possível".

Os jovens de hoje - no início do século XXI - "já não são exatamente aqueles de 25 anos atrás, que responderam aos primeiros convites de João Paulo II", reconheceu o purpurado.

"Aqueles que se consideravam como ‘os jovens do 2000' já tinham tido tempo para experimentar a decepção das utopias fermentadas 20 anos antes, em maio de 68, e olhavam para a mudança de milênio como à desejada realização de ideais mais verdadeiros."

"Não era estranho, portanto, que se percebesse entre os jovens da Igreja uma espécie de nova nostalgia de Deus e um anseio escondido de encontrar-se novamente com Jesus Cristo, com a sua verdade e com o seu amor."

Frente a eles, para os jovens de 2011, "o ideal humano da liberdade reconquistada foi proposto e explorado por milhares de caminhos nas últimas duas décadas"; por isso, "os jovens estão particularmente expostos à influência desorientadora do relativismo".

Diante desta nova situação, não devemos "abandonar a abordagem pastoral e evangelizadora que caracterizou as JMJ", mas, ao contrário, "consolidá-la e vivificá-la espiritualmente".

Finalmente, ele se referiu a duas questões "de vital importância para a juventude de hoje", que serão discutidas nesta assembleia plenária: "a colaboração necessária entre a família, a paróquia e a escola, para a educação na fé das crianças e jovens; e a questão da verdade do amor humano como um elemento-chave no amadurecimento dos jovens como pessoas".

"Anunciar o Evangelho do matrimônio e da família é, sem dúvida, um dos aspectos mais belos da nova evangelização e da juventude. Mas precisamos urgentemente, sobretudo, anunciar o amor de Cristo aos jovens."

Fonte: Zenit.

Igreja pode oferecer grande contribuição à União Europeia

A contribuição que a Igreja pode oferecer à União Europeia (UE) foi um dos principais temas da audiência que o Papa Bento XVI teve, ontem, com o presidente do Parlamento Europeu, Jerzy Buzek.

Depois da audiência, Buzek se reuniu com o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, acompanhado por Dom Dominique Mamberti, secretário para as Relações com os Estados.

Uma nota do Vaticano, divulgada após a reunião, explicou que as conversas "foram realizadas em uma atmosfera cordial" e "permitiram uma frutuosa troca de opiniões sobre as relações entre a Igreja Católica, o Parlamento Europeu e outras instituições da Europa, bem como a contribuição que a Igreja pode oferecer à União Europeia".

Durante a audiência, acrescenta o texto, "foi possível falar de questões de atualidade, como os esforços para promover a liberdade religiosa e a proteção das minorias cristãs no mundo".

O site do Parlamento Europeu informa que, depois de sua visita oficial à Santa Sé, Buzek definiu a audiência de Bento XVI como um encontro "tocante".

O Papa, sublinhou o presidente do Parlamento, é "um homem de fé e de intelecto".

"Em uma época de mudanças dramáticas como estas - acrescentou ele -, Bento XVI oferece um ponto de referência e estabilidade para milhões de pessoas ao redor do mundo."

Quanto à situação no Norte de África, uma das realidades mais difíceis nas últimas semanas, o Pontífice e o presidente do Parlamento Europeu expressaram "a esperança de que a violência acabe rapidamente e que comece a transição para a democracia e a paz".

Fonte: Zenit.