domingo, 17 de janeiro de 2016

Quatrocentos anos de evangelização

Santa Maria de Belém do Grão Pará, quatrocentos anos de fundação comemorados no dia 12 de janeiro de 2016. Quatrocentos anos do início da Evangelização da Amazônia. Assim a Arquidiocese de Belém eleva seu coração e sua voz, em preparação ao XVII Congresso Eucarístico Nacional, o presente que deseja oferecer à nossa cidade: “Jesus Eucaristia, fonte de vida para todos, coração dos corações! Nós te acolhemos presente entre nós. Ao recebermos teu Corpo e teu Sangue, mostra-nos a força redentora de teu sacrifício. Tu és partilha de vida e salvação para a vida do mundo. Abre nossos corações para compartilhar com todos os nossos bens. Ensina-nos a testemunhar, amar e servir e proteger a vida, aprendendo a lição do Altar. Em ti todas as coisas foram criadas e nossas terras amazônicas são obra do amor do Pai. Reconhecemos estes sinais de amor, presença e providência em nossa história, e desejamos irradiar na comunhão com Deus e com todos, a missão que nos confiaste. Senhor Jesus, há quatro séculos a Boa Nova do Evangelho aportou em nossas terras, para aqui plantar raízes. Os teus missionários se alegraram, ao verem as Sementes do Verbo de Deus, que o Espírito Santo havia espalhado, precedendo seus passos, e anunciaram corajosamente a tua Palavra. A partir do Forte do Presépio, sob a proteção de Nossa Senhora da Graça, chamando-a Santa Maria de Belém ou Senhora de Nazaré, a Amazônia recebeu a mensagem da salvação. Renova hoje, Senhor, com a força da Eucaristia, o vigor missionário em nossos povos, e brotem entre nós santas vocações para o serviço do Evangelho. Cristo Senhor, ao reconhecer-te no partir do Pão, faze arder nossos corações, para que do Altar da Eucaristia nasça um novo ardor missionário em nossa Pátria. Ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo sejam dadas, hoje e sempre, toda a honra e toda a glória! Amém.”
A evangelização nasce do alto, é dom de Deus que nos anuncia o Cristo Senhor e Salvador, sentido e rumo para nossas lides nesta terra, rumo à eternidade. A evangelização é o que existe de melhor, nascida do coração da Trindade Santa, passando pelos caminhos da história humana, marcada por alegrias e esperanças, dores e angústias. Os instrumentos escolhidos por Deus são os corações, boca, olhos, mãos e sentidos das pessoas que acolhem a Boa Notícia e a transmitem.
Não tinham natureza angélica os que trouxeram o Evangelho para a Amazônia. Com as gerações que o fizeram, dando sangue, suor e lágrimas, pedimos perdão a Deus pelos atrasos, fracassos e erros de abordagem com os quais atuaram. Ao mesmo tempo damos graças porque os acertos foram muito maiores. Os valores do Evangelho estão presentes em nossa cultura, as devoções, e devoções são provas de amor, suscitaram confiança imensa na Providência de Deus, cultivaram famílias piedosas, edificaram as igrejas, formaram gerações de sacerdotes, comprometeram-se com a educação de crianças e jovens, deram nomes a pessoas, logradouros, bairros. Por todo lado algum santo se tornou protetor, um título de Nossa Senhora se implantou e, mais do que tudo, o perene louvor a Deus se consolidou. Quatrocentos anos de Missa e de pregação da Palavra, quatrocentos anos de Batizados, Matrimônios, Sacramento da Penitência, Sepultura Cristã, quatrocentos anos de Oração! Quatrocentos anos de presença fiel da Igreja junto à sociedade, como sal e luz e fermento!
Nestas plagas abençoadas, a infinita criatividade da Providência plantou no coração do paraense o amor a Nossa Senhora, em seu lindo título de “Nossa Senhora de Nazaré”. Não é possível para nós ser de Belém ou ser do Pará sem o carinho com a Virgem de Nazaré. Nós chamamos de Círio esta imensa e magnífica festa religiosa, porque queremos manter acesos os círios da fé recebida na fonte batismal. Nossa Senhora é “madrinha de Batismo” do povo paraense e assumiu o compromisso de acompanhá-lo em sua história, operando as milhares de delicadezas, nascidas de seu coração materno. Ela continua a levar ao Filho amado as necessidades de seu povo, como nas Bodas de Caná (Cf. Jo 2, 1-12). Em nosso dia a dia, quando falta o vinho da alegria, a mãe de Jesus lhe diz: “Eles não têm vinho!”. Mesmo quando parece difícil a situação, a mãe diz aos servos de ontem e de hoje: “Fazei tudo o que ele vos disser!”. Queremos encher não apenas seis talhas de pedra, de quase cem litros cada, destinadas às purificações rituais, mas recolher a água do quotidiano, representada pelos nossos rios, e apresentá-la a Jesus. Sujas ou limpas as nossas águas, queremos entregá-las a Jesus, para que as transforme no vinho novo. E queremos ouvir, a esta altura de nossa história, que o vinho da alegria de hoje é melhor. “Tu guardaste o vinho bom até agora”. Que Jesus manifeste sempre e de novo a sua glória, e seus discípulos de hoje acreditem nele.
Entretanto, a Igreja quer fazer a todos os irmãos e irmãs, homens e mulheres amados por Deus, a proposta de não se acomodarem assentados sobre os louros de vitória dos quatrocentos anos celebrados em festa nos dias que correm. Há muito a fazer! Em torno do Altar da Eucaristia, queremos pedir que a força redentora do Sacrifício de Cristo, partilha de vida e salvação para a vida do mundo, abra nossos corações para compartilhar com todos os nossos bens. Trata-se de lutar com todas as forças para superar a escandalosa desigualdade social. O senso do bem comum há de crescer entre nós, ensinando a olhar em torno a nós. Basta verificar a quantidade de homens e mulheres que vivem em nossas ruas, machucados pela miséria, bebidas e drogas. São dolorosos letreiros acesos por Deus para nos despertar! E podemos visitar com o coração as inúmeras casas e famílias nas quais a miséria está presente e grita alto!
Queremos pedir ao Senhor que nos ensine a testemunhar, amar e servir e proteger a vida, aprendendo a lição do Altar. Sabemos que tudo foi feito em Cristo, nele todas as coisas foram criadas e nossas terras amazônicas são obra do amor do Pai. Reconhecemos estes sinais de amor, presença e providência em nossa história, e desejamos irradiar na comunhão com Deus e com todos, a missão que nos foi confiada.
A partir do Forte do Presépio, a Amazônia recebeu a mensagem da salvação. Nossa Igreja pede a Jesus que, com a força da Eucaristia, cresça o vigor missionário em nossos povos, e brotem entre nós vocações para o serviço do Evangelho. A Ele dizemos: “Cristo Senhor, ao reconhecer-te no partir do Pão, faze arder nossos corações, para que do Altar da Eucaristia nasça um novo ardor missionário em nossa Pátria. Ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo sejam dadas, hoje e sempre, toda a honra e toda a glória! Amém”.
 Dom Alberto Taveira Corrêa,  Arcebispo metropolitano de Belém do Pará.

sábado, 16 de janeiro de 2016

O Papa na sinagoga de Roma: “Sinal que contrasta com o uso da religião para destruir”


O Papa na sinagoga de Roma: “Sinal que contrasta com o uso da religião para destruir”

Expectativa pela visita de Francisco neste domingo, diante dos desafios que judeus e cristãos podem e devem enfrentar juntos Com palavras sóbrias, o rabino-chefe de Roma, Riccardo Di Segni, expressa a sua expectativa pela visita que o papa Francisco fará à sinagoga […]
2014 Pastoral Visit of Pope Francis to Korea
Commons.Wikimedia.Org
Expectativa pela visita de Francisco neste domingo, diante dos desafios que judeus e cristãos podem e devem enfrentar juntos
Com palavras sóbrias, o rabino-chefe de Roma, Riccardo Di Segni, expressa a sua expectativa pela visita que o papa Francisco fará à sinagoga da capital italiana neste dia 17 de janeiro – o terceiro papa a visitá-la depois de João Paulo II (1986) e Bento XVI (2010); ou melhor, o quarto, “recordando que o primeiro papa a entrar numa sinagoga foi São Pedro”, como diz o próprio rabino. A lembrança das visitas anteriores será o fio condutor desta ida de Bergoglio, com novo significado no atual contexto histórico e geopolítico marcado pela violência e pelo fanatismo religioso. Será um “sinal em contraste com o daqueles que hoje usam a religião para destruir o mundo”, afirma o rabino, identificando alguns desafios perante os quais os judeus e os cristãos podem falar “a uma só voz” – principalmente sobre vida e dignidade humana. Segue a entrevista.

 Quais são expectativas pela visita do papa, de sua parte e da comunidade judaica de Roma?
Riccardo Di Segni: É um encontro importante, nunca ordinário, embora seja o terceiro. O próprio fato de que ele seja o terceiro papa a visitar a sinagoga significa que há uma consolidação da tradição e a comunidade está esperando por ele com gratidão por este gesto de simpatia em relação a nós. Isso indica, num cenário muito maior que o local, um desejo de dois mundos religiosos de estabelecer e consolidar relações pacíficas em relação aos exemplos negativos e mortais que chegam de outros horizontes religiosos.
 Como podemos enquadrar esta visita do papa num momento histórico tão marcado por extremismo, violência e fanatismo religioso?
Riccardo Di Segni: É um sinal em contraste com o daqueles que usam a religião para destruir o mundo. Nós queremos usar a religião para fazer algo de bom.
A visita também acontece por conta de um convite que o senhor fez ao papa…
Riccardo Di Segni: Sim, era um convite necessário, formulado cedo para que pudesse ser programado com calma, sem urgência. Com o papa Francisco, desde a sua eleição, temos uma relação cordial. Pudemos conversar com bastante frequência, inclusive por telefone. Eu sempre encontrei, de parte dele, uma grande disponibilidade para ouvir.
 Também eram boas as relações com Bento XVI, a quem o senhor expressou alta estima em várias ocasiões…
Riccardo Di Segni: Sim, temos boas relações. Nós nos vimos mais desde a renúncia, mas intercambiamos correspondência com frequência.
 E com João Paulo II? O senhor esteve presente na visita histórica de 16 de abril de 1986 à sinagoga, um divisor de águas no diálogo judaico-cristão. Quais são as suas lembranças?
Riccardo Di Segni: Sim, eu estava no meio do público como um espectador impressionado daquilo que estava acontecendo. É claro que foi preciso tempo para introjetar e entender o significado daquele momento. Eu pude depois conhecer João Paulo II mais de perto e ter uma proximidade direta com ele. Em particular, eu me aproximei dele quando ele já estava sendo muito provado pela sua doença…
 Sempre com a memória voltada para a visita de 1986, se o senhor tivesse que fazer um balanço dos últimos 30 anos, o que aconteceu? Houve uma mudança? Para melhor ou para pior?
Riccardo Di Segni: Eu diria que houve uma melhora constante, graças à clarificação de questões abertas. Houve incidentes, mas sempre houve também as maneiras de enfrentá-los e resolvê-los. Sempre que possível…
 Mesmo com o papa Francis houve “incidentes”?
Riccardo Di Segni: Eu não diria nesses termos.
 As “críticas” de sua parte a alguns dos ensinamentos do papa, que alguns meios de comunicação informaram nos últimos meses, eram então sensacionalismo midiático?
Riccardo Di Segni: O que fazem alguns jornalistas não me importo. Que Deus tenha misericórdia deles. Especialmente neste Jubileu da misericórdia…
 Sobre o Jubileu, é um evento que tem origens na cultura judaica. Como a comunidade judaica romana o está vivendo?
Riccardo Di Segni: O Jubileu, tal como é comemorado, é um evento absoluta e totalmente cristão, que nós, mesmo assim, consideramos com respeito e atenção.
 No mês passado, a Comissão Vaticana para as Relações Religiosas com o Judaísmo preparou um documento para o 50º aniversário da Nostra Aetate, que afirma que, “com as devidas reservas”, pode-se chegar a falar de “diálogo intrarreligioso” ou “intrafamiliar” entre cristãos e judeus. O senhor compartilha essas expressões?
Riccardo Di Segni: O documento, que é um documento extremamente importante, representa o ponto de vista da teologia cristã. O fato de sublinhar a relação entre o cristianismo e o judaísmo é importante em comparação com a história precedente. E, assim, neste sentido, podemos dizer que estamos satisfeitos.
 É recíproca, então, essa interpretação fraterna da relação?
Riccardo Di Segni: Que existe uma relação de fraternidade não há dúvida. As questões teológicas, por outro lado, não são recíprocas, mas diferentes por natureza.
 Na sua opinião, quais são os aspectos do diálogo entre judeus e cristãos que ainda precisam ser aprofundados e desenvolvidos?
Riccardo Di Segni: Há muitas áreas de atividade, para além do puramente teológico, que ainda têm de se realizar: projetos paralelos ou comuns nos quais há bastante a se trabalhar.
 O senhor pode ser mais específico?
Riccardo Di Segni: Sim. Nós sempre dizemos que temos de trabalhar em conjunto. Mas… o que é que temos de fazer juntos?
 O senhor me diga…
Riccardo Di Segni: É uma questão em aberto sobre a qual refletir. Quais são os valores que devem ser apresentados para a sociedade? Quais os modelos? A primeira coisa é que conversamos, o que é um sinal importante no momento histórico que estamos vivendo.
 Por exemplo, existem temas atuais em que cristãos e judeus podem falar a uma só voz?
Riccardo Di Segni: A uma só voz, depende dos temas… Certamente, a defesa da vida e da dignidade humana são questões fundamentais em que podemos e devemos avançar juntos.
Há também a defesa da família. Recordo que, no último 20 de junho, o senhor enviou uma mensagem aos participantes da manifestação na Praça San Giovanni in Laterano…
Riccardo Di Segni: É verdade, eu enviei uma mensagem, mas não foi uma mensagem de adesão, e sim uma mensagem que convidava ao diálogo. É diferente.
A comunidade judaica está disposta a dar algum tipo de apoio ou de proximidade na próxima manifestação contra o projeto de lei sobre uniões civis que está em preparação em Roma?
Riccardo Di Segni: Não sei do que se trata. Vamos ver…
 Falávamos inicialmente de manifestações de violência e perseguição religiosa. Em Israel continuam ocorrendo vários atos de vandalismo e pichações blasfemas contra cristãos. Para o senhor, quais são as raízes desse ódio crescente?
Riccardo Di Segni: Antes de tudo, eu reitero a minha condenação a esses são gestos que são isolados e que não podem ser justificados. Eles surgem de um contexto dramático e fazem parte de um quadro mais geral de distúrbio da sociedade, que está “envenenada” por um conflito. Temos que trabalhar também nisso.

Por Salvatore Cernuzio - Fonte: Zenit.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Segundo domingo do Tempo Comum


SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM (17/01/16)
Ciclo C
Textos: Is 62, 1-5; 1 Co 12, 4-11; Jo 2, 1-11
Pe. Antonio Rivero, L.C. Doutor em Teologia Espiritual, professor e diretor espiritual no seminário diocesano Maria Mater Ecclesiae de São Paulo (Brasil).
Ideia principal: O vinho novo trazido por Cristo ao nosso mundo e a cada lar, por mediação de Maria.
Síntese da mensagem: A uns meses da conclusão do Sínodo sobre a família, Deus nos surpreende neste domingo com o evangelho das Bodas de Caná. Sabemos que é um dos “sinais” de São João que nos revelam um profundo significado. Este evangelho traz muita cristologia, mariologia e messianismo. Difícil e codificado. Tentemos descodificar. Tanto Isaias na primeira leitura como São João no evangelho insistem nesse sinal: Deus nos ama com um amor comparável ao do esposo para com a esposa. Cristo aparece como o Noivo ou o Esposo, o Vinho novo que Deus preparou para os últimos tempos. Chegou a hora do Esposo que cumpre as promessas do Antigo Testamento.
Pontos da ideia principal:
Em primeiro lugar, Jesus ocupa o centro do relato das bodas. O “vinho” que Jesus traz è excepcional, abundante (mais de quinhentos litros) e superior à água incolor, inodora e insípida das talhas de “pedra” do judaísmo; alusão à lei, escrita em tábuas de pedra. Cristo não traz um sistema doutrinal, mas a manifestação do seu mistério. Por isso escolhe umas bodas. A aliança messiânica foi anunciada pelos profetas sob o simbolismo de umas bodas (cf. Os 2, 16-25; Jr 2, 1s; 3, 1-6; Ez 54, 4-8). O vinho era uma característica predominante dos tempos e bens messiânicos. Se a água dos judeus purificava os corpos; o vinho de Cristo purificará as almas, porque o converterá depois no seu Sangue bendito. O quarto evangelho dá inicio à atividade de Jesus com a alegria das bodas messiânicas. O esposo é Jesus e a esposa, a pequena comunidade que se une ao seu redor pela fé. A glória que os discípulos contemplam em Jesus é a sua manifestação como o novo esposo messiânica. E a presença de Maria ai representa o Antigo Testamento e a humanidade inteira. Constata a falta de algo que era essencial nos tempos messiânicos: a abundância e a qualidade do vinho. Assim afirma depois o organizador da festa. E Ela, com amor misericordioso e materno, intercede por nós diante do seu Filho. E consegue o milagre, adiantando a Hora do seu Filho e também a sua própria hora como mãe da humanidade inteira. Ao chamá-la de “Mulher”, Jesus está afirmando que os laços da família de Deus são mais fortes que os do sangue. Jesus atua porque pede a sua mãe, quanto mais quando tiver chegado a sua Hora!
Em segundo lugar, as bodas de Caná são a primeira boda cristã que nos consta, lendo os evangelhos, onde Jesus em pessoa entrou e compartilhou o vinho da sua benção, elevando essa união matrimonial ao sacramento, fonte de graça divina e reflexo do amor que Ele tem pela sua Igreja. Sem Cristo no matrimonio, e na vida, faltar-nos-á o vinho do amor, da alegria e do sentido pleno da existência; e o nosso vinho humano se avinagrará com facilidade. Com Cristo, teremos sempre o vinho de primeira qualidade que nunca azedará. Vinho que alegrará um lar e a convivência matrimonial. Vinho que compartilharemos com os filhos, parentes e amigos, com manifestações de interesse, de ternura, generosidade, conselho. Vinho que com o passar dos anos- se continuar Jesus no centro da família- terá um buquê especial que regozijará os olhos, o olfato e o paladar, e nos ajudará a vencer as dificuldades normais da convivência. Basta nos sentar e saborear uma taça desse vinho novo trazido por Cristo para que as penas diminuam, o sorriso floresça nos lábios e os abraços se estreitem uma vez mais. Por isso, o sinal milagroso de Caná exprime o “sim” de Cristo ao amor, à festa, à alegria de todos os matrimônios e famílias.
Finalmente, e quando faltar o vinho, o que fazer? Qual é o vinho que falta no nosso mundo? O vinho da paz, o da ternura em tantas famílias; o vinho da fé, da esperança e do amor em tantos corações; o vinho da verdade em tantas mentes…? Quando faltam estes vinhos, a vida se “avinagra”. Surgem as brigas, as separações, os divórcios, os interesses partidários, as trapaças econômicas, as frivolidades vácuas, a mentira como ferramenta de comunicação, o relativismo moral, a violência e o terror. O que fazer? Invocar a Maria; Ela é a onipotência suplicante, como são Bernardo nos disse. Maria viu a carência na boda, fê-la sua solidariamente, e colocou mãos a obra. Não ficou em relatar o que acontece e se lamentar pelo que falta ou vai mal. Dar-se conta do “vinho” que falta, arregaçar as mangas no que depende de nós, tendo na Palavra de Jesus a nossa força e a nossa luz. Isto foi Caná. Esta foi Maria. O Evangelho termina dizendo que “os discípulos creram Nele” (Jo 2,11). O final è que tendo vinho, teve festa, e os discípulos vendo o sinal, o milagre, creram em Jesus. Necessitamos milagres de “vinho”; o mundo necessita ver que os vinagres do absurdo se transformam em vinho bom e generoso, o do amor e da esperança, o que germina em fé. Sempre tem um brinde por ser feito. Que seja com o vinho como o de Maria em Caná.
Para refletir: como está a talha do meu coração: vazia, meio cheia ou cheia até a borda? Tem vinho de alegria e entusiasmo ou água incolor, inodora e insípida? Quais coisas avinagram o meu vinho que Cristo me deu do meu casamento, no dia da minha ordenação sacerdotal, no dia da minha consagração religiosa? Costumo invocar Maria Santíssima para que interceda por mim diante do seu Filho Jesus?
Para rezar: Maria, dizei ao vosso Filho que está acabando o vinho da alegria, do amor, da fé e da confiança em nós. Dizei ao vosso Filho que tem muitas famílias só com água ou pior, com vinho avinagrado; que tenha piedade de nós. Obrigado, Maria, pela vossa intercessão. Tirai-nos do apuro, como fizeste em Caná.
Qualquer sugestão ou dúvida podem se comunicar com o padre Antonio neste e-mail:  arivero@legionaries.org

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O nome de Deus é o Misericordioso

Na Audiência Geral desta quarta-feira, 13 de janeiro, o Papa Francisco iniciou um ciclo de catequeses sobre a misericórdia. Apresentamos a íntegra da catequese:
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje começamos as catequeses sobre misericórdia segundo a perspectiva bíblica, de modo a aprender a misericórdia ouvindo aquilo que o próprio Deus nos ensina com a sua Palavra. Comecemos pelo Antigo Testamento, que nos prepara e nos conduz à revelação plena de Jesus Cristo, no qual em modo realizado se revela a misericórdia do Pai.
Na Sagrada Escritura, o Senhor é apresentado como “Deus misericordioso”. É esse o seu nome, através do qual Ele nos revela, por assim dizer, a sua face e o seu coração. Ele mesmo, como narra o Livro do êxodo, revelando-se a Moisés, se auto-define assim: “O Senhor, Deus misericordioso e piedoso, lento para a ira e rico de amor e de fidelidade” (34, 6). Também em outros textos encontramos essa fórmula, com algumas variantes, mas sempre a insistência é colocada sobre a misericórdia e sobre o amor de Deus que nunca se cansa de perdoar (cfr Jo 4, 2; Gl 2, 13; Sal 86, 15; 103, 8; 145, 8; Ne 9, 17). Vejamos juntos, uma por uma, estas palavras da Sagrada Escritura que nos falam de Deus.
O Senhor é “misericordioso”: esta palavra evoca uma atitude de ternura como aquela de uma mãe para com o filho. De fato, o termo hebraico usado pela Bíblia faz pensar nas vísceras ou também no ventre materno. Por isso, a imagem que sugere é aquela de um Deus que se comove e se amolece por nós como uma mãe quando toma nos braços o seu filho, desejosa somente de amar, proteger, ajudar, pronta a doar tudo, também a sim mesma. Essa é a imagem que esse termo sugere. Um amor, portanto, que se pode definir em bom sentido “visceral”.
Depois está escrito que o Senhor é “piedoso”, no sentido de que faz graça, tem compaixão e, na sua grandeza, se inclina sobre quem é mais frágil e pobre, sempre pronto a acolher, a compreender, a perdoar. É como o pai da parábola reportada pelo Evangelho de Lucas (cfr Lc 15, 11-32): um pai que não se fecha no ressentimento pelo abandono do filho menor, mas, ao contrário, continua a esperá-lo – gerou-o – e depois corre ao seu encontro e o abraça, não lhe deixa nem mesmo terminar a sua confissão – como se lhe cobrisse a boca – tão grande é o amor e a alegria por tê-lo reencontrado; e depois vai também chamar o filho mais velho, que está irritado e não quer fazer festa, o filho que permaneceu sempre em casa, mas vivendo como um servo mais que como um filho, e justamente sobre ele o pai se inclina, convida-o a entrar, procura abrir o seu coração ao amor, para que ninguém fique excluído da festa da misericórdia. A misericórdia é uma festa!
Deste Deus misericordioso é dito também que é “lento à ira”, literalmente, “longo de respiro”, isso é, com a respiração ampla de paciência e de capacidade de suportar. Deus sabe esperar, os seus tempos não são aqueles impacientes dos homens; Ele é como o sábio agricultor que sabe esperar, dá tempo para a semente boa crescer, apesar das ervas daninhas (cfr Mt 13, 24-30).
E, por fim, o Senhor se proclama “grande no amor e na fidelidade”. Como é bela essa definição de Deus! Aqui está tudo. Porque Deus é grande e poderoso, mas esta grandeza e poder se desdobram em nos amar, nós assim tão pequenos, tão incapazes. A palavra “amor” aqui utilizada indica o afeto, a graça, a bondade. Não é o amor da telenovela…É amor que dá o primeiro passo, que não depende dos méritos humanos, mas de uma imensa gratuidade. É a solicitude divina que nada pode parar, nem mesmo o pecado, porque sabe ir além do pecado, vencer o mal e perdoá-lo.
Uma “fidelidade” sem limites: eis a última palavra da revelação de Deus a Moisés. A fidelidade de Deus nunca falha, porque o Senhor é o Guardião, como diz o Salmo, não dorme, mas vigia continuamente sobre nós para nos levar à vida:
“Não deixará vacilar os teus pés,
não adormecerá o teu guardião.
Não se adormecerá, não pegará no sono
o guardião de Israel.
[…]
O Senhor te protegerá de todo mal:
ele protegerá a tua vida.
O Senhor te protegerá quando saíres e quando entrares,
agora e para sempre” (121, 3-4. 7-8).
E esse Deus misericordioso é fiel na sua misericórdia e São Paulo diz uma coisa bonita: se tu não lhe é fiel, Ele permanecerá fiel, porque não pode renegar a si mesmo. A fidelidade na misericórdia é justamente o ser de Deus. E por isso Deus é totalmente e sempre confiável. Uma presença sólida e estável. É essa a certeza da nossa fé. E então, neste Jubileu da Misericórdia, confiemo-nos totalmente a Ele e experimentemos a alegria de sermos amados por esse “Deus misericordioso e piedoso, lento à ira e grande no amor e na fidelidade”.
(Fonte: Canção Nova)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A oração dos fiéis muda a Igreja

Não são os papas, bispos ou padres a "levar avante a Igreja", mas os "santos", com suas orações. A oração que derrete o coração, a oração piedosa. Foi o que destacou o Papa Francisco durante a homilia da missa celebrada nesta manhã na capela da Casa Santa Marta.
A Sagrada Escritura é o fundamento das palavras do Pontífice, como evidenciado na primeira leitura de hoje (Sam 1,9-20), onde Ana é a protagonista: uma mulher angustiada com a própria esterilidade, que suplica a Deus o dom de um filho e, um sacerdote, Eli, que não conseguia ouvi-la, a trata como uma "bêbada", não mostrando nenhuma compaixão por ela.
A oração de Ana era de lágrimas: “rezava em seu coração e somente os lábios se moviam, mas não se escutava a voz”, disse o Papa. "Esta é a coragem de uma mulher de fé que, com sua dor, com as suas lágrimas, pede a graça ao Senhor", acrescentou.
Há muitas mulheres que "rezam como uma aposta", disse Francisco, destacando o exemplo de "Santa Monica que, com suas lágrimas, conseguiu obter a graça da conversão de seu filho, Santo Agostinho".
Falando sobre Eli, o sacerdote da primeira leitura de hoje, o Santo Padre confessou "uma certa simpatia": porque “também vejo em mim defeitos que me aproximam dele e me fazem entende-lo melhor”.
Quando “falta piedade no coração, sempre se pensa mal” e não se entende aqueles que rezam “com dor e angústia” e “confiam a dor e a angústia ao Senhor”. Isto aconteceu com Jesus no Jardim das Oliveiras, "quando eram tamanhas a dor e a angústia que Jesus suou sangue”.
Jesus respondeu a esta angústia, da mesma forma que a mulher da primeira leitura de hoje, com "mansidão". Ele não culpou o Pai, apenas pediu: “Pai, se quiser, tire-me isto, mas seja feita a sua vontade”.
“Às vezes, nós rezamos, pedimos ao Senhor, mas muitas vezes não sabemos chegar à luta com o Senhor, às lágrimas, a pedir, a pedir a graça”, afirmou o Papa.
Bergoglio recordou um episódio da sua experiência pastoral em Buenos Aires: um homem com a filha de 9 anos hospitalizada em fins de vida, ia a Virgem de Lujàn e passou a noite grudado nos portões do Santuário para pedir a graça da cura para a menina. E na manhã seguinte, ao voltar ao hospital, encontrou a filha curada.
"A oração faz milagres – disse o Papa - faz milagres também para os cristãos, sejam leigos, como sacerdotes e bispos que perderam a devoção e a piedade”. “A oração dos fiéis muda a Igreja: não somos nós, os Papas, os bispos, os sacerdotes, as religiosas a levar avante a Igreja... são os santos!”.
Francisco concluiu sua homilia destacando que “os santos são aqueles que têm a coragem de crer que Deus é o Senhor e que tudo pode fazer”.

Fonte: Zenit.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Em união com o papa Francisco para mudar a economia que mata

"Esta economia mata no meio do Mediterrâneo, mata nas jornadas longas demais dos jovens desempregados, mata nos bebês não nascidos e nos idosos abandonados na solidão. Mas a economia somos nós, com os nossos comportamentos de consumo e nossas políticas de desenvolvimento: levaremos ao papa, então, o compromisso de mudar a nós mesmos para mudar as coisas". Faltando uma semana para a audiência que o Santo Padre concederá ao Movimento Cristão dos Trabalhadores (MCT), o presidente da organização eclesial, Carlo Costalli, resume o espírito com que guiará centenas de ativistas ao histórico encontro com o papa da Laudato Si’ – e num momento delicado para os católicos italianos, com as divisões provocadas pela muito contestada lei sobre as uniões civis e por uma reforma constitucional que agrada cada vez menos.
Por que esta audiência é especial?
Para nós é um reconhecimento importante dos esforços como movimento da Igreja no testemunho evangélico organizado a serviço dos pobres e marginalizados; um reconhecimento ainda mais significativo porque ocorre no início do Ano Jubilar da Misericórdia. Vamos à audiência tendo em mente o que o papa nos ensina: que, para testemunhar a "Boa Nova", temos que passar de cristãos que fazem "teste de doutrina" para cristãos capazes de se aproximar dos que estão "perdidos, abandonados, feridos, devastados, humilhados e privados da sua dignidade". Faz tempo que decidimos tomar este caminho, tentando nos assemelhar cada vez mais à Igreja "em saída" que Francisco está apontando com tanto amor.
Nunca, em tempos recentes, o Magistério petrino foi tão admirado e tão criticado, inclusive na Igreja, inclusive nos movimentos católicos. Isto acontece também entre os militantes do MCT?
No próximo sábado, 16 de janeiro, vamos provar que não há resmungos. Agora, se nos referirmos à dificuldade, próprias do homem das suas atividades, da política à economia, na hora de aplicar os ensinamentos na vida cotidiana, então essa dificuldade surge e vai surgir sempre: a mensagem de Francisco é revolucionária e exigente se vivida em plenitude, mas, para compreendê-la e vivê-la, é necessário ter uma mentalidade evangélica: por isso, quem reduz a fé a ideologia, sejam progressistas, sejam conservadores, custa a entender esta mensagem porque ela não se encaixa nos seus esquemas preconcebidos.
Sem nostalgia das "cruzadas" nas questões inegociáveis?
Nós não vivemos de nostalgia, mas de desafios: o papa deixou claro que este não é mais o tempo em que os lamentos, as condenações, o apelo nostálgico ao passado, as contraposições culturais e ideológicas ainda conseguem atingir o coração dos tantos "feridos" pela sociedade contemporânea. O nosso objetivo não é a política, mas a evangelização e o amor ao próximo. Nós não estamos parados e não vamos à audiência como quem vai a um piquenique: a preparação foi seríssima.
Como vocês se prepararam?
Faz algum tempo que estamos realizando um percurso pela doutrina social do papa Francisco: neste espírito, muitas iniciativas foram organizadas para a apresentação do livro dos jornalistas Andrea Tornielli e Giacomo Galeazzi, "Papa Francisco - esta economia mata": debates e reflexões em que o MCT abordou o pensamento do papa para estudar temas que estão bem arraigados no coração do movimento. Mas não é um percurso "doutrinal": estamos trabalhando para que os militantes formem uma nova mentalidade e a traduzam em atitudes de vida. Porque esta economia mata no meio do Mediterrâneo, mata nas jornadas longas demais dos jovens desempregados, mata nos bebês não nascidos e nos idosos abandonados na solidão. Mas a economia somos nós, com os nossos comportamentos de consumo e nossas políticas de desenvolvimento: levaremos ao papa, então, o compromisso de mudar a nós mesmos para mudar as coisas, seguindo a estrada concreta que o papa nos mostra, a estrada da solidariedade.
É realmente possível impactar deste jeito o mundo do trabalho, no qual o MCT opera tradicionalmente e onde as políticas dos últimos anos são completamente opostas?
É no campo econômico que a crise antropológica explodiu com mais virulência, negando a centralidade do trabalho e do seu primado e instaurando cada vez mais evidentemente o primado do lucro e do dinheiro. Neste sentido, também chamamos o governo Renzi a uma coerência maior. Infelizmente, ainda vivemos imersos num mercado dependente do consumo, que gera uma sociedade do descarte, da pobreza galopante e da óbvia injustiça social. Estou bem ciente, se é esta a pergunta, da dificuldade de mudar as coisas, não só porque as nossas exigências e os do sindicato ficam frequentemente na letra morta, mas porque uma real mudança tem que passar pela derrubada dos falsos ídolos e dos falsos valores que as finanças globais e esse tipo de mercado ainda impõem. Uma derrubada que o papa Francisco resume de modo magnífico em uma frase bem curta e muito eficaz: "O dinheiro deve servir e não mandar". Nosso trabalho é incutir essa mentalidade nas pessoas e nas políticas sociais. Quanto ao primeiro objetivo, nós trabalhamos muito pela solidariedade e pela cooperação entre os povos, em Sarajevo, na Moldávia, na Romênia, na Eritreia, na construção de moradias para casais jovens na Terra Santa e na Universidade Católica de Madaba, aberta a todos, sem distinção de raça ou religião. O nosso compromisso é orientado à promoção do diálogo social, para que ele tenha espaço na vida diária de todos, começando por nós mesmos. Sempre lembrando que, como disse o papa na V Conferência Eclesial de Florença, "a melhor maneira de dialogar não é falar e discutir, mas fazer algo juntos, construir juntos, realizar projetos", porque "dialogar" é "procurar o bem comum para todos".
Encerremos com a política. Você acredita num despertar dos católicos italianos, na capacidade de traduzir em leis as intuições de Francisco?
O magistério deste grande papa provoca um despertar também político, também no mundo católico organizado, certamente. Mas nós não pensamos em transformá-lo num programa de partido! A questão é ir ao encontro de "um novo humanismo", com base nos "traços do humanismo cristão", indicado pelo Santo Padre em Florença, onde ele nos disse que "o nosso dever é trabalhar para tornar este mundo um lugar melhor e lutar". E acrescentou um apelo significativo aos jovens: "Superem a apatia. Eu peço que vocês sejam construtores da Itália, que vocês trabalhem por uma Itália melhor. Por favor, não olhem a vida da varanda. Comprometam-se, mergulhem no amplo diálogo social e político". Não é muito diferente do discurso de Cagliari em que o papa Bento XVI afirmou que era preciso "uma nova geração de políticos católicos": todo mundo só se lembra dessa passagem, mas ela tem que ser contextualizada num discurso voltado a redefinir as estratégias pastorais para arrancar os jovens do niilismo e realizar uma verdadeira evangelização do mundo. Oito anos atrás, Bento XVI convidava os cristãos a serem "capazes de evangelizar o mundo do trabalho, da economia, da política, que precisa de uma nova geração de leigos cristãos comprometidos, capazes de buscar com competência e rigor moral soluções de desenvolvimento sustentável". Não apenas, como deturparam os jornais, fundar um novo partido. No mesmo espírito, Francisco nos convida hoje a realizar "uma Igreja italiana inquieta, cada vez mais próxima dos abandonados, dos esquecidos, do imperfeitos. Eu quero uma Igreja alegre, com rosto de mãe, que compreende, acompanha, acaricia". É neste espírito que vivemos o nosso compromisso social e político.
Fonte: Zenit.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Papa: “um oceano de misericórdia que inunda o nosso mundo”

 Ouvimos as palavras do apóstolo Paulo: «Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher» (Gl 4, 4).
Que significa Jesus nasceu na «plenitude do tempo»? Se o nosso olhar se fixa no momento histórico, podemos imediatamente ficar decepcionados. Sobre grande parte do mundo conhecido de então, dominava Roma com o seu poderio militar. O imperador Augusto chegara ao poder depois de ter combatido cinco guerras civis. Também Israel fora conquistado pelo Império Romano e o povo eleito estava privado da liberdade. Por conseguinte, aquele não era certamente o tempo melhor para os contemporâneos de Jesus. Portanto, se queremos definir o clímax do tempo, não é para a esfera geopolítica que devemos olhar.
É necessária uma interpretação diferente, que entenda a plenitude a partir de Deus. No momento em que Deus estabelece ter chegado a hora de cumprir a promessa feita, realiza-se então, para a humanidade, a plenitude do tempo. Por isso, não é a história que decide acerca do nascimento de Cristo; mas, ao invés, é a sua vinda ao mundo que permite à história chegar à sua plenitude. É por isso que se começa, do nascimento do Filho de Deus, o cálculo duma nova era, ou seja, a que vê o cumprimento da antiga promessa. Como escreve o autor da Carta aos Hebreus, «muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. Este Filho é resplendor da sua glória e imagem fiel da sua substância e tudo sustenta com a sua palavra poderosa» (1, 1-3). Assim, a plenitude do tempo é a presença de Deus em pessoa na nossa história. Agora, podemos ver a sua glória que refulge na pobreza dum estábulo, e ser encorajados e sustentados pelo seu Verbo que Se fez «pequeno» numa criança. Graças a Ele, o nosso tempo pode encontrar a sua plenitude. Também o nosso tempo pessoal encontrará a sua plenitude no encontro com Jesus Cristo, Deus feito homem.
Este mistério, porém, sempre contrasta com a dramática experiência histórica. Cada dia, quereríamos ser sustentados pelos sinais da presença de Deus, mas o que constatamos são sinais opostos, negativos, que fazem antes senti-Lo como ausente. A plenitude do tempo parece esboroar-se perante as inúmeras formas de injustiça e violência que ferem diariamente a humanidade. Às vezes perguntamo-nos: Como é possível que perdure a prepotência do homem sobre o homem? Que a arrogância do mais forte continue a humilhar o mais fraco, relegando-o para as margens mais esquálidas do nosso mundo? Até quando a maldade humana semeará na terra violência e ódio, causando vítimas inocentes? Como pode ser o tempo da plenitude este que coloca diante dos nossos olhos multidões de homens, mulheres e crianças que fogem da guerra, da fome, da perseguição, dispostos a arriscar a vida para verem respeitados os seus direitos fundamentais? Um rio de miséria, alimentado pelo pecado, parece contradizer a plenitude do tempo realizada por Cristo. Lembrai-vos, queridos pueri cantores, que esta era precisamente a terceira pergunta que me fizestes ontem? Como se explica? Até as crianças se dão conta disto!
Contudo este rio alagador nada pode contra o oceano de misericórdia que inunda o nosso mundo. Todos nós somos chamados a mergulhar neste oceano, a deixarmo-nos regenerar, para vencer a indiferença que impede a solidariedade e sair da falsa neutralidade que dificulta a partilha. A graça de Cristo, que realiza a expectativa da salvação, impele a tornar-nos seus cooperadores na construção dum mundo mais justo e fraterno, onde cada pessoa e cada criatura possam viver em paz, na harmonia da criação primordial de Deus.
No início dum novo ano, a Igreja faz-nos contemplar, como ícone de paz, a maternidade divina de Maria. A antiga promessa realiza-se na sua pessoa, que acreditou nas palavras do Anjo, concebeu o Filho, tornou-Se Mãe do Senhor. Através d’Ela, por meio do seu «sim», chegou a plenitude do tempo. O Evangelho, que escutamos, diz que a Virgem «conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lc 2, 19). Aparece-nos como vaso sempre cheio da memória de Jesus, Sede da Sabedoria, onde recorrer para termos a interpretação coerente do seu ensinamento. Hoje dá-nos a possibilidade de individuar o sentido dos acontecimentos que nos tocam pessoalmente a nós, às nossas famílias, aos nossos países e ao mundo inteiro. Aonde não pode chegar a razão dos filósofos, nem as negociações da política, consegue fazê-lo a força da fé que a graça do Evangelho de Cristo nos traz e que pode abrir sempre novos caminhos à razão e às negociações.
Feliz sois Vós, ó Maria, por terdes dado ao mundo o Filho de Deus; mas mais feliz ainda sois porque acreditastes n’Ele. Cheia de fé, concebestes Jesus, primeiro no coração e depois no seio, para Vos tornardes Mãe de todos os crentes (cf. Santo Agostinho, Sermo 215, 4). Mãe, lançai sobre nós a vossa bênção neste dia que Vos é consagrado; mostrai-nos o rosto do vosso Filho Jesus, que dá ao mundo inteiro misericórdia e paz. Ámen.
Fonte: Zenit.