segunda-feira, 6 de abril de 2009

Para sair da crise, porta-voz vaticano pede confiar nos pobres



Comentário do Pe. Lombardi à reunião do G20

O porta-voz da Santa Sé, ao concluir a reunião do G20 em Londres, considera que para sair da crise econômica a comunidade internacional deve dar confiança aos pobres.
Assim explicou o Pe. Federico Lombardi, S.J., diretor da Sala de Informação da Santa Sé, no editorial do jornal «Octava Dies» produzido pelo Centro Televisivo Vaticano, que leva por título «Construir sobre a confiança».
Com esta expresão, o sacerdote recorda a exortação de Bento XVI ao G20, a coordenar com urgência medidas para superar a crise atual, com o anseio de que nunca mais se volte a repetir, tendo em conta em especial os mais pobres e os que não têm voz.
«A ativa confiança no homem, sobretudo a confiança nos homens e nas mulheres mais pobres, será a prova de que verdadeiramente se quer sair da crise, sem exclusões, e de que se quer evitar decididamente que se repitam situações semelhantes às que hoje nos cabe viver», explica o Pe. Lombardi, citando a carta enviada pelo Papa ao primeiro-ministro inglês Gordon Brown.
O porta-voz vaticano constata que, «em seu regresso da África, Bento XVI continua levando em seus olhos e em seu coração os problemas dramáticos e a pobreza deste continente, mas também a vontade de viver e a esperança de resgatar-se que têm seus habitantes. Adverte aos ricos que não devem e não podem construir o futuro sem ter em conta aos pobres».
«Mas o ponto crucial é o de encontrar o fundamento desde o qual voltar a começar a edificar uma ordem mundial justa, solidária e estável». «O único fundamento verdadeiro e sólido é a confiança no homem», continua dizendo o sacerdote citando o Papa.
«Não uma confiança cega nas finanças – declara –, no comércio ou nos sistemas de produção, privada de sólidas referências éticas, mas uma economia que leva justo "dentro" de si mesma a consciência da dignidade de todas as pessoas humanas e de sua responsabilidade de servir a seu desenvolvimento integral».
«Todos queremos sair da crise atual, mas seria ilusório pensar que é possível sair deixando à margem quem sofre mais e que hoje tem uma voz mais frágil e que, contudo, pode oferecer muitíssimo pelo futuro da família humana.
Lutar para eliminar a pobreza extrema e assim libertar a verdadeira riqueza do mundo: as criaturas de Deus, feitas a sua imagem. Esta é a prioridade mais digna de ser perseguida por quem guia hoje o futuro de nosso mundo», conclui o porta-voz.

Fonte: Zenit.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Polícia chinesa prende bispo da Igreja não-oficial



Coincidindo com a reunião da Comissão vaticana sobre a situação da Igreja no país

A política chinesa prendeu nas últimas horas Dom Jia Zhiguo, bispo de Zhengding, segundo deu a conhecer hoje a agência Asianews. A detenção coincide com a reunião, nestes dias no Vaticano, da Comissão plenária sobre a Igreja na China.
Segundo revelou a mesma agência, em um artigo assinado pelo seu diretor, Bernardo Cervellera, ontem, às 16h (hora local), cinco policiais entraram na casa do prelado e o levaram a um lugar desconhecido.
Este fato, segundo Cervellera, supõe um golpe contra o intento da Santa Sé de promover a reconciliação entre ambas as comunidades católicas, a oficial e a não-oficial. Há alguns meses, Dom Jia teria se reconciliado com o bispo oficial de Shijiazhuang, Dom Jang Taoran (que há pouco retornou à comunhão com Roma), convertendo-se em seu bispo auxiliar, a pedido da Santa Sé.
Desde então, os dois prelados haviam tido encontros pastorais para trabalhar juntos. Tendo sido isso descoberto pela Associação Patriótica, ambos haviam sofrido prisões domiciliares para impedir estes encontros.
Os católicos locais temem pela saúde do bispo Jia (74 anos), muito enfraquecido por prisões anteriores, devidas à negativa de fazer parte da Associação Patriótica.
Precisamente esta detenção aconteceu durante a reunião da Comissão sobre a Igreja na China, que estuda a aplicação da carta do Papa aos católicos chineses, na qual, por um lado, o Santo Padre pedia a reconciliação entre as Igrejas oficial e não-oficial e, por outro, definia os objetivos e a estrutura da Associação Patriótica como «incompatíveis com a fé católica».

Fonte: Zenit.

terça-feira, 31 de março de 2009

Brasil: religiosa ameaçada de morte no Pará




O secretariado da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) no Pará, norte do país, denunciou que uma religiosa vinculada ao organismo está sofrendo ameaças de morte.
O secretariado divulgou nota na sexta-feira em que torna pública «sua indignação e repúdio em relação às ameaças sofridas por Ir. Marie Henriqueta Cavalcante, coordenadora da Comissão de Justiça de Paz» local.
Segundo a nota, Ir. Henriqueta e outros membros das pastorais sociais da CNBB no Pará desempenham nos últimos meses «um papel primordial nos procedimentos de denúncia e acompanhamento das investigações de casos de abuso e exploração sexual de menores» no Estado.
São casos que –destaca o texto–, «infelizmente, têm acontecido com participação de pessoas influentes em nossa sociedade».
De acordo com secretariado da CNBB, na semana passada foi registrada uma ameaça, via telefone, à coordenadora. Ela atua no acompanhamento da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pedofilia, instalada pela Assembleia Legislativa do Estado do Pará.
«O secretariado executivo do Regional interpreta a ameaça como um ato desesperado e como uma tentativa, não apenas de atingir a coordenadora da CJP, mas sim como uma forma de calar a voz da Igreja diante da sua incessante luta pela defesa da vida», afirma a nota.


Fonte: Zenit.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Fé em alta: quadruplica o número de novos padres



Ano passado, o Brasil ganhou 220 sacerdotes, contra média de 55 da década anterior. Seminário de Niterói que completa 100 anos é um dos polos que mais formam religiosos


POR CAROL MEDEIROS, RIO DE JANEIRO


Rio - Quem apostava que posições firmes e polêmicas da Igreja Católica, como a condenação do uso da camisinha, afastavam da instituição candidatos à vida sacerdotal, perdeu. O número de jovens que entram nos seminários todos os anos sugere que, ao contrário, há uma retomada da vocação religiosa brasileira. Só ano passado, o País ganhou 220 novos sacerdotes. O número é quatro vezes superior à média de ordenações feitas por ano até o fim da década de 90.
Um exemplo é o Seminário São José, em Niterói, que abriga 92 seminaristas — o maior número de sua história centenária, comemorada este mês. Lá, foi preciso construir um prédio anexo para atender à procura crescente. O local é um dos que mais formam padres no Brasil: foram 6 por ano desde 2003. Até 2000, eram 2.
Hoje, pelo menos 30% do clero de Niterói é composto por padres jovens, com até 15 anos de ordenação. “Quando assumi o seminário, há três anos, eram 65 seminaristas. O crescimento é fruto do trabalho nas paróquias. Os padres novos saem daqui cheios de entusiasmo e despertam isso na juventude de suas igrejas”, explica padre Wellington Dahan, 35 anos, sacerdote há 10.Os encontros vocacionais realizados ao longo do ano no Seminário São José reúnem mais de 40 rapazes. São garotos como Felipe Lopes, que, aos 19 anos, começou sua preparação há um mês: “Terminei os estudos, trabalhava, tinha namorada e queria fazer faculdade de Cinema. Mas o padre me convidou para os encontros e pensei: ‘Por que não?’. Depois de 6 meses, senti o chamado”. Felipe ainda tem nove anos de muito estudo, orações e renúncias pela frente. Caminho difícil, mas recompensador, diz Bruno Guimarães, que, aos 31, já percorreu praticamente todo o percurso e será ordenado no ano que vem. Para chegar lá, abandonou emprego público e promissora carreira de advogado, formado pela Uerj. “O mais difícil foi terminar com minha namorada e abrir mão de construir uma família. Mas, toda vez que pensava nisso, me vinha à cabeça ser padre. Hoje sou completamente feliz com minha escolha”.
Candidatos rejeitados por falta de vagasEm todo o Brasil, seminários abarrotados já têm fila de espera de novos candidatos ao sacerdócio, por não haver espaço físico para todos os aspirantes à vida religiosa. O do Rio é um deles: lá vivem 115 jovens e por ano chegam 30 candidatos. “Não temos mais seminaristas porque não temos condições de abrigá-los. Os que não conseguem vaga voltam no ano seguinte”, afirma padre Leandro Cury, assessor de imprensa da Arquidiocese do Rio.
Padre Reginaldo Lima, da comissão episcopal para Ministérios Ordenados e Vida Consagrada da CNBB, confirma a tendência. “Desde 2000 tem havido uma retomada das vocações. O novo milênio trouxe uma nova religiosidade. As pessoas têm se voltado mais para Deus”, explica.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Santa Sé renova pedido em favor dos cristãos da Terra Santa



A Congregação para as Igrejas Orientais envia uma mensagem a todos os bispos do mundo

O cardeal Leonardo Sandri, prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, dirigiu uma carta a todos os bispos do mundo, na qual renova o pedido anual de ajuda aos cristãos da Terra Santa, frente à coleta da próxima Sexta-feira Santa.
Na carta, que foi divulgada hoje pelo L'Osservatore Romano, o cardeal Sandri manifesta a «forte preocupação» da Santa Sé pela situação dos cristãos, especialmente após o conflito de Gaza, e recorda os contínuos pedidos do Papa neste sentido.
Um dos objetivos principais da Coleta «Pro Terra Santa», que na maior parte das dioceses do mundo acontece na Sexta-Feira Santa, é o de melhorar as condições da comunidade cristã local, para evitar a migração.
No texto da carta, o purpurado exorta a ajudar os «irmãos cristãos da Terra Santa, os quais, junto a outros habitantes de vastas regiões do Oriente Médio, aspiram há muito tempo à paz e à tranquilidade, hoje tão ameaçadas».
«A alegria do Natal foi, de fato, ferida pela violenta ruptura das hostilidades na Faixa de Gaza», recordou, sublinhando que «entre as inumeráveis vítimas, há muitas crianças inocentes».
«Precisamente no Natal se ofuscou a esperança que trouxe o Menino de Belém, após o alentador apoio espiritual e material recebido da parte dos peregrinos, que em 2008 haviam inclusive superado em número os do Jubileu do ano 2000», denunciou.
«A ferida aberta pela violência agrava o problema da migração, que inexoravelmente priva a minoria cristã de seus melhores recursos para o futuro», constata o cardeal Sandri. «A terra que foi berço do cristianismo corre o risco de ficar sem cristãos.»
Neste contexto, é necessário confirmar a fé das comunidades cristãs, coisa que Bento XVI tem muito presente, confortando «constantemente os cristãos e todos os habitantes da Terra Santa com palavras e gestos de extraordinária atenção, unidos a seu desejo de ir como peregrino seguir as pegadas históricas de Jesus».
A Congregação para as Igrejas Orientais, afirma o cardeal Sandri, interpreta «a amorosa solicitude» do Papa, «renovando a exortação a todos os católicos para que contribuam também materialmente ao apoio de que precisam os Santos Lugares».
«As Igrejas de rito latino e dos diversos ritos orientais, que se beneficiam desta ajuda indispensável, expressam seu reconhecimento na oração constante pelas Igrejas particulares de todo o mundo», declara.
O cardeal Sandri acrescenta à carta um documento preparado pela Custódia da Terra Santa e uma nota da própria Congregação, que detalham as obras realizadas com o obtido na Coleta de 2008.
Neste exercício se deu uma especial atenção às instituições escolares, e também ao programa deste dicastério que proporciona bolsas a sacerdotes e seminaristas procedentes dos Santos Lugares que estudam nas Universidades Pontifícias.
Também se levaram a cabo restaurações em diversos lugares, entre eles Jerusalém, Betânia, Belém, Jaifa, Magdala, Nazaré e Nablus (a antiga Siquém).
Foram distribuídas também 300 bolsas a estudantes da região, assim como projetos de assistência médica e apoio às famílias, por exemplo, através da construção de apartamentos para casais jovens e ajuda às paróquias.
Também se distribuíram os fundos a obras culturais através da Custódia da Terra Santa, como a Faculdade de Ciências Bíblicas e de Arqueologia do Studium Biblicum Franciscaum de Jerusalém.
A Custódia mantém também o Franciscan Media Center, uma forma de apostolado que distribui conteúdos televisivos sobre os Santos Lugares e sobre a vida das comunidades cristãs locais, assim como do Instituto musical Magnificat.

Fonte: Zenit.

terça-feira, 24 de março de 2009

Dom Romero



os últimos dois anos de sua vida, dom Romero fazia um diário. Todas as noites, registrava em um gravador os principais fatos do dia. Lembrava-se deles e os comentava. O registro transformou-se em uma fonte única, necessária sobretudo para conhecer o lado mais profundo e íntimo de sua personalidade, que surge diferente da imagem pintada pelas alas políticas e eclesiais, tanto da direita como da esquerda.
Instrumento de Deus
“Rezo ao Espírito Santo, para que me faça caminhar nas estradas da verdade e me mantenha sempre guiado unicamente por Nosso Senhor; jamais pelos elogios, nem pelo temor de ofender” (13/03/80). Tais palavras, pronunciadas dez dias antes da sua morte, resumem o seu projeto de vida. Respondendo a alguns jornalistas, que elogiavam uma homilia feita por ele na catedral, afirma: “Eu sei apenas que a graça do Espírito Santo guia sua Igreja e torna fecunda sua palavra. A isso eu credito o sucesso que vocês atribuem à minha homilia.
Todo o meu trabalho pastoral é feito com esse espírito. Confio no Espírito Santo e procuro ser seu instrumento, amando e servindo sinceramente o povo, a partir do Evangelho” (27/11/79). Esse amor coloca-o literalmente no meio do povo: “Das pessoas que vieram às audiências de hoje, a maioria era muito pobre. Muitas dessas pessoas estavam angustiadas por causa da situação de injustiça. Algumas eram mães de desaparecidos. Procurei lhes dizer palavras de conforto, ou dar-lhes orientações que as ajudassem a enfrentar as dificuldades” (19/09/79).
Amigo do povo
O povo retribui com carinho e fé o amor do arcebispo. Logo depois de voltar da Conferência de Puebla, dom Romero reza uma missa na catedral. “O povo interrompeu várias vezes minha homilia com carinhosos aplausos. Terminada a missa, cumprimentei os sacerdotes presentes e saí, acompanhado pelas aclamações do povo, para saudar os que tinham ficado do lado de fora da Igreja. Foi um momento carinhoso. (...) Tive a sensação de estar numa família” (16/02/79). O relacionamento de dom Romero com seus sacerdotes é ainda mais profundo.
Ele os acompanha pessoalmente desde o tempo do seminário, dedica-lhes grande parte de seu tempo, reúne-os para momentos de oração e de confraternização e os consulta continuamente à procura de ajuda para enfrentar a difícil situação do país e da arquidiocese. Oscar Romero, não é um herói solitário, mas um pastor, um homem de comunhão. “Fui visitar o grupo de sacerdotes que está fazendo o retiro espiritual no seminário. Falamos da situação atual do país e do papel da Igreja, dos diferentes aspectos e opiniões que existem no próprio clero e entre os cristãos.
Insisti sobre o fato que nossa perspectiva deve ser totalmente pastoral, sem, evidentemente, ignorar os problemas políticos, que devemos iluminar. Mas gostei mais da segunda parte, quando falamos dos aspectos humanos de nossos relacionamentos como presbíteros. Há boa vontade. (...) Agradeci-lhes por terem evidenciado minhas deficiências, que podem ser um obstáculo a esses relacionamentos” (14/11/79). “Hoje de manhã fizemos a reunião do senado presbiteral. (...)
Mergulhamos totalmente na análise da situação política do país. Nessa reflexão cheia de realismo, tive muito prazer em ver a maturidade de meus sacerdotes. Apesar da diversidade de seus critérios políticos, há uma única visão pastoral. Percebi um notável crescimento do sentido de Igreja. Pedi-lhes que continuem a me dar seus conselhos, de modo que, neste mar tempestuoso da política da pátria, nossa Igreja seja guiada por critérios evangélicos e pastorais” (14/01/80).
Homem da unidade
Dom Oscar Romero arriscou tudo pela unidade. Depois do encontro em uma paróquia da diocese, comentou: “Convidamos todos a compreender qual é a verdadeira missão e o verdadeiro papel da Igreja. A partir dessa verdade, discutimos sobre a divisão que existe entre os fiéis da paróquia. Houve intervenções muito diretas de setores tradicionais, como de setores mais avançados, que trabalham na pastoral da maneira como a arquidiocese deseja. Todas as contribuições foram úteis. Recomendei várias vezes a unidade, o sentido transcendental do trabalho eclesial e o estudo atento sobre o que é a Igreja, para embasar o trabalho pastoral, tendo em vista a construção da verdadeira Igreja de Jesus Cristo” (23/04/79).
Este amor pela unidade da Igreja e do povo é o principal motivo do seu sofrimento, principalmente quando ele é incompreendido e acusado de ser fonte de divisão. Este sentimento é percebido inclusive entre os bispos. Na Conferência Episcopal de E1 Salvador, dom Romero se encontra sempre em minoria, apoiado apenas por dom Arturo Rivera y Damas (que o sucederá). Ele enfrenta a situação com fé, espírito de comunhão e firmeza: “Também dom Rivera me fez a grata surpresa de vir encontrar-me. Conversamos sobre o documento secreto de denúncia contra mim, assinado por quatro bispos.
O documento me acusa, perante a Santa Sé, de atitudes contrárias à fé, de politização, de fazer pastoral com bases teológicas falsas e de um conjunto de outros argumentos que põem em cheque meu ministério episcopal. Apesar da gravidade do fato, senti uma grande paz. Reconheço, diante de Deus, minhas deficiências, mas acredito que trabalhei com boa vontade e muito distante das coisas graves, das quais me acusam. Deus dirá a última palavra, que aguardo com tranqüilidade, mantendo o trabalho com o entusiasmo de sempre. Sirvo com amor a Santa Igreja” (18/05/79).
“A reunião dos bispos na Nunciatura confirmou a divisão que existe entre nós. Só houve acordo em relação à necessidade de fazer uma denúncia oficial pelo assassinato do padre Macias (...). Quando se tratou de analisar as causas do crime, a reunião se deixou arrastar pela suspeita de uma infiltração marxista na Igreja. Não obstante todos os meus esforços, não foi possível afastar esses preconceitos. Esforcei-me para explicar que a perseguição, infligida aos sacerdotes, deve-se ao fato de eles buscarem permanecer fiéis ao espírito do Concílio Vaticano II. (...) Ofereci a Deus essa prova da paciência, já que a culpa do mal que acontece ao país foi imputada, em grande parte, à minha pessoa” (11/08/79).
Filho da Igreja
Há um momento em que dom Romero percebe que o próprio papa tem reservas em relação à sua ação pastoral. Depois de uma audiência com João Paulo II, comenta: “Acho que foi um colóquio muito útil, porque muito franco. Bem sei que não se deve sempre esperar uma aprovação plena, pois é mais útil receber advertências que podem melhorar nosso trabalho” (07/05/79). Naquele mesmo período escreve: “Entreguei tudo nas mãos de Deus, dizendo-lhe que procurei fazer toda a minha parte e que, apesar de tudo, amo a Santa Igreja e, com a sua ajuda, serei sempre fiel à Santa Sé, ao magistério do Papa.
Todavia compreendo a parte humana, limitada, defeituosa da Igreja – que é o instrumento de salvação da humanidade – à qual quero servir sem reserva alguma” (04/05/79). Um mês antes de morrer, encontra-se novamente com João Paulo II: “Senti que o Papa está de acordo com tudo o que eu digo. No final, ele me abraçou muito fraternalmente e disse-me que rezava todos os dias por El Salvador. Naquele momento, tive a sensação de que o próprio Deus confirmava e dava forças ao meu pobre ministério” (30/01/80).
Diálogo com todos
Dom Romero não fecha nenhuma oportunidade de diálogo com as partes em conflito. Depois de uma reunião com seus assessores, afirma: “Entendi que, tanto a Junta de governo, como as organizações populares que lutam contra ela, têm aspectos positivos e negativos. A posição da Igreja é evidenciar e apoiar o que possa ser positivo. (...) A Igreja, por amor à pátria e pelo bem da justiça, deve também denunciar todos os obstáculos a esse processo revolucionário que parece já se ter iniciado” (29/10/79). “Hoje de manhã, recebi o secretário-geral da União Democrática Nacional, um partido marxista. Ele elogiou o trabalho da Igreja.
Disse que esse trabalho é muito diferente do que havia em outras épocas, quando seu marxismo chamava a Igreja de ‘ópio do povo’. Agora, pelo contrário, é o melhor ‘despertador’ do povo, pois grande parte do que está acontecendo em favor da transformação do país é obra da Igreja” (29/11/79). “Jantei com o coronel Majano e com o doutor Morales Erlich, membros do governo. Falamos sobretudo da reforma agrária. Eles têm grande esperança. Mas aproveitei também para apontar os perigos e as dúvidas que suscitam as minhas críticas (...): antes de mais nada, a conjunção da reforma agrária, com essa onda de evidente repressão violenta, nascida nos órgãos de segurança.
Também perguntei por que eles não garantem apoio popular mais decidido, favorecendo o diálogo com as forças populares, com o desejo de descobrir os verdadeiros interesses do povo e de acolher as reivindicações em favor da justiça. Não é o caso, certamente, da extrema direita, que não trabalha em favor dessas reivindicações, mas para manter seus privilégios”. (14/03/80). Dom Romero nunca permitiu que se confundisse sua ação com a dos grupos políticos. Em inúmeros pontos do seu diário ele afirma claramente essa distinção:
“À noite, os representantes do FAPU, uma organização popular, vieram para expressar seu desejo de ajudar a Igreja. Eu os adverti com a maior clareza: ‘Sem o perigo de querer manipulá-la’. Eles concordaram. (...) Insisti muito nessa autonomia da Igreja e no fato de que ela, a partir de sua perspectiva evangélica, apóia todas as iniciativas, cuja finalidade seja a de construir a justiça, o bem-estar, a paz dos homens”. (12/06/78).
O sangue
Dom Romero inspira-se somente no Evangelho. Nele, encontra a força e a luz de sua luta e de suas propostas. A um grupo de jornalistas que o interrogam sobre uma solução pacífica para a violência no país, responde com simplicidade evangélica: “Eu digo sempre que a melhor solução pacífica é um retorno ao amor e um verdadeiro desejo de busca de um diálogo. Isso deve basear-se em um clima de confiança – que tem de ser demonstrado com os fatos – para que o povo possa expressar as próprias opiniões em total liberdade e todos sejam admitidos ao diálogo”.
O arcebispo é morto enquanto celebra a Missa. Indefeso, porque sempre recusara as ofertas de proteção do governo. “Quero correr os mesmos perigos que o meu povo corre”, costumava repetir. Poucos minutos antes do crime, disse na homilia: “Neste cálice o vinho se torna sangue, que foi o preço da salvação. Possa este sacrifício de Cristo nos dar a coragem de oferecer nosso corpo e nosso sangue pela justiça e pela paz do povo”.

«Não existirá novo feminismo sem Deus», diz cardeal Martino



A mulher cristã está chamada a responder aos desafios atuais


As mulheres cristãs devem protagonizar a descoberta e a promoção de um novo feminismo que responda aos desafios atuais a partir de um humanismo integral. Foi o que afirmou o cardeal Renato Raffaele Martino, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, em suas conclusões sobre a 1ª Conferência Internacional sobre mulher e direitos humanos.
A conferência, com o lema «Vida, família, desenvolvimento: o papel das mulheres na promoção dos direitos humanos», foi realizada neste fim de semana em Roma, organizada por Justiça e Paz em colaboração com as organizações femininas católicas World Women's Aliance for Life and Family, e World Union of Catholic Women's Organizations.
O cardeal explicou às representantes de organizações católicas de todo o mundo, reunidas pela primeira vez, o perfil de um novo feminismo, que recolhe as melhores intuições do processo de emancipação da mulher, negando aquilo que é contrário à verdadeira dignidade da pessoa.
«Não haverá nenhum novo feminismo sem Deus, sobretudo se não se descobre Deus como Amor – afirmou. O velho feminismo se fundava no individualismo egocêntrico e, com frequência, egoísta; o novo feminismo deve ser tecido de amor pela vida, pela família, pelos demais; um feminismo regulado pela rainha das virtudes, a caridade.»
Trata-se, explicou, de promover um «feminismo do sim: do sim a Deus, Pai de toda a humanidade e Criador do homem e da mulher à sua imagem e semelhança; do sim à vida, a toda vida e à vida de todos, sempre; do sim à família fundada sobre o matrimônio por amor, unitivo e fecundo, entre o homem e a mulher; do sim às mulheres e a seu gênio».
Referindo-se ao debate que aconteceu durante as sessões de trabalho, o purpurado sublinhou que «a emancipação feminina foi e é um evento histórico, marcado por significados ambivalentes, sobre os quais é preciso exercer um discernimento cristão constante, paciente, inteligente e sábio, para extrair o bom, combater o mal, orientar o incerto».
Este discernimento deve ser «inspirado e guiado por um humanismo íntegro e solidário, firmemente dirigido a fazer avançar a civilização do amor», acrescentou.
O primeiro desafio ao qual este feminismo deve responder, explicou o cardeal Martino, refere-se à relação entre natureza e cultura, «onde se encontra, de fato, a questão fundamental: o que é a pessoa humana, a diferença sexual, a identidade do matrimônio e da família etc.».
«Negar a natureza, ou seja, negar que a pessoa humana é antes de tudo um projeto querido e realizado por Deus Criador, que não é bom subverter arbitrariamente, é o ponto central que é preciso ter bem claro. Quando se nega a natureza, a pessoa humana já não é um projeto, mas se converte inexoravelmente em um produto da cultura ou da tecnologia.»
As mulheres cristãs devem promover «um feminismo inspirado por uma concepção da pessoa entendida como projeto de Deus e rejeitar o feminismo inspirado em uma concepção da pessoa entendida como produto do variado e mutável panorama cultural atual, com frequência expressão de maiorias mutáveis habilmente manipuladas».
«Quando estão em jogo os princípios da lei moral natural ou a própria dignidade de toda criatura humana, não pode haver compromisso», declarou.
Outro desafio é o da formação. «É necessário livrar-se valentemente de todos os empecilhos culturais – esses típicos do subdesenvolvimento e do superdesenvolvimento – que mortificam a dignidade integral da mulher e de seus direitos fundamentais como pessoa», afirmou.
«Os empecilhos – que devem ser denunciados como estruturas de pecado – ainda são muitos, e todos negam o projeto de Deus. O caminho chave para livrar-nos deles é o de investir de forma abundante nas mulheres, através da educação e da formação.»
O terceiro âmbito ao qual se referiu foi a necessidade de responder ao «escândalo inaceitável da pobreza», que hoje afeta sobretudo mulheres e crianças.
«Se for preciso propor um novo feminismo, este não pode não ter como objetivo um mundo mais justo e solidário», concluiu.

Fonte: Zenit.