Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho de ontem, domingo, extraído do capítulo 18 de Mateus, apresenta o tema da correção fraterna na comunidade dos fiéis, isto é, como eu tenho que corrigir outro cristão quando ele não faz uma coisa boa. Jesus nos ensina que, se o meu irmão cristão comete um pecado contra mim, me ofende, eu devo ter caridade para com ele e, em primeiro lugar, falar com ele pessoalmente, explicando-lhe que o que ele disse ou fez não é bom. E se o seu irmão não me ouvir? Jesus sugere uma intervenção progressiva: primeiro, voltar a falar-lhe com duas ou três outras pessoas, para ter mais consciência do erro que ele cometeu; se, apesar disso, não aceita a exortação, deve-se apresentar à comunidade; e se não ouvir sequer a comunidade, é preciso fazê-lo sentir a fratura e o distanciamento que ele mesmo provocou, destruindo a comunhão com os irmãos na fé.
As etapas deste percurso mostram o esforço que o Senhor pede à sua comunidade para acompanhar aqueles que erram, a fim de que não se perca. É necessário, antes de qualquer coisa, evitar o clamor da crônica e a murmuração da comunidade - essa é a primeira coisa, evite isso -. “Vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo!” (V.15). A atitude é de delicadeza, prudência, humildade, atenção para com quem pecou, de maneira a evitar que as palavras possam ferir e matar seu irmão. Porque, vocês sabem, até mesmo as palavras matam! Quando falo mal, faço uma crítica injusta, quando eu "descarno" um irmão com a minha língua, isso é matar a reputação do outro! Mesmo as palavras matam. Prestemos atenção nisso. Ao mesmo tempo, esta discrição de falar com ele sozinho tem a finalidade de não mortificar inutilmente o pecador. Se há uma conversa entre os dois, ninguém percebe isso e está tudo acabado. É à luz desta necessidade, compreende-se a serie sucessiva de intervenções, que inclui a participação de algumas testemunhas e até mesmo da comunidade. O objetivo é ajudar a pessoa a perceber o que ela fez, e que com a sua culpa ofendeu não apenas um, mas todos. Mas também para nos ajudar a nos libertar da ira e do ressentimento que só fazem mal: a amargura do coração que traz ira e ressentimento, e que nos leva a insultar e agredir. É muito feio ver sair da boca de um cristão um insulto ou uma agressão. É feio. Sabe? Nada de insultos! Insultar não é cristão. Entenderam? Insultar não é cristão.
Na verdade, diante de Deus todos nós somos pecadores e necessitados de perdão. Todos. Jesus, de fato, nos disse para não julgar. A correção fraterna é um aspecto do amor e da comunhão que deve reinar na comunidade cristã, é um serviço recíproco que podemos e devemos fazer uns aos outros. Corrigir o irmão é um serviço, e é possível e eficaz se cada um se reconhece pecador e necessitado do perdão do Senhor. A mesma consciência que me faz reconhecer o erro do outro, antes, me lembra que eu mesmo errei tantas vezes.
Por esta razão, no início da Missa, sempre somos convidados a reconhecer diante do Senhor que somos pecadores, expressando com palavras e gestos o arrependimento sincero do coração. E dizemos: “Senhor, tende piedade de mim, Senhor. Eu sou um pecador! Confesso, Deus Onipotente, meus pecados”. E nós não dizemos: “Senhor, tende piedade dessa pessoa que está ao meu lado, ou daqueles, que são pecadores”. Não! Tende misericórdia de mim. Todos somos pecadores e necessitados do perdão do Senhor. É o Espírito Santo que fala ao nosso espírito e nos faz reconhecer nossas culpas à luz da Palavra de Jesus. E é o mesmo Jesus que convida a todos, santos e pecadores, à sua mesa, nos tirando das encruzilhadas das estradas, das diversas situações vida (cf. Mt 22,9-10). E entre as condições que são comuns dos que participam da celebração eucarística, duas são fundamentais: todos somos pecadores e a todos Deus doa a sua misericórdia. São duas condições que abrem as portas para ir bem à Missa. Devemos nos lembrar sempre disso antes de corrigirmos fraternalmente o nosso irmão.
Peçamos por intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, que amanhã celebraremos a festa litúrgica da sua Natividade.
Fonte: Zenit.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
domingo, 7 de setembro de 2014
“Com efeito, ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo!”
Essa frase pertence a São Jerônimo, um sacerdote do século IV, muito conhecido por ter traduzido a Bíblia para o Latim, tradução que chamamos Vulgata. Esse nome vem de “vulgata versio” que significa “versão de divulgação para o povo.” São Jerônimo, então, traduziu a Bíblia para um Latim de fácil compreensão para as pessoas comuns daquela época. Isso é muito interessante porque mostra que desde então existe uma preocupação da Igreja por fazer que a Palavra de Deus seja compreensível para todos.
Nesse mês de Setembro, em que celebramos o mês da Bíblia, temos mais uma oportunidade para buscar compreender melhor a Palavra de Deus. Essa Palavra não foi dita só para os mais estudiosos, para os sacerdotes, para grandes teólogos. Na verdade ela foi dita de maneira especial para os mais simples, para os que se reconhecem necessitados de Deus. Por isso é preciso, antes que tudo, um espírito simples e humilde para que a Palavra entre em nosso coração e possa dar os frutos que veio para dar. Somos todos chamados a conhecer a Palavra de Deus.
Mas porque é importante ler a Bíblia? Porque é importante conhecer essa história?
A resposta é muito simples. Porque a história que se conta na Bíblia é a história de Deus comigo. Não é somente a história de Deus com o seu povo eleito ou a história dos inícios da Igreja. A Palavra de Deus é viva e me interpela hoje. Ela fala comigo cada dia. Por meio dessa Palavra Deus pode me guiar por onde Ele quiser e fazer da minha vida uma vida feliz para mim e para os que me rodeiam.
Gosto de pensar em uma figura quando leio a Bíblia. Somos todos peregrinos nessa terra e caminhamos rumo ao Céu. Os diversos livros que compõem o cânon da Bíblia seriam como cartas da nossa Pátria celeste que nos ensinam como viver para chegar um dia ao nosso destino. Por outro lado, por meio delas podemos já experimentar um pouco do que vamos viver eternamente junto a Deus, o que nos dá esperanças para continuar lutando no nosso dia a dia por viver de acordo com essa Palavra de Verdade que encontramos.
Nós como católicos precisamos conhecer mais a Jesus e ler as Escrituras é um meio privilegiado para que nos encontremos com Ele. Por isso é tão importante que tenhamos familiaridade com os textos Sagrados.
E como ler a Bíblia? Às vezes é difícil entender o que está escrito!
A Bíblia é um livro fascinante, mas realmente pode ser difícil de entender em alguns momentos. Por isso precisamos de muita humildade para reconhecer nossos limites e de confiança na Igreja que, guiada pelo Espírito Santo, recebeu a responsabilidade de guardar e interpretar corretamente a Sagrada Escritura. E é isso que ela vem fazendo a mais de dois mil anos.
Isso não quer dizer que nós, simples fiéis, não possamos ler a Bíblia. Muito pelo contrário, o catecismo diz que “É preciso que o acesso à Sagrada Escritura seja amplamente aberto aos fiéis”. Simplesmente temos que ler a Bíblia junto com a Igreja, por exemplo, escutando aos nossos Bispos e de maneira especial ao Papa.
Na Missa possuímos um lugar muito especial para enriquecer-nos com a Palavra de Deus, já que nela a Igreja, sempre iluminada pelo Espírito Santo, preparou e organizou uma série de leituras que podem produzir muitos frutos se encontram terreno fértil no coração dos fiéis. Uma sugestão para viver nesse mês da Bíblia pode ser que façamos um esforço especial por escutar as leituras que são proclamadas na Igreja. Sabemos que muitas vezes nos perdemos e que não estamos atentos, talvez porque não percebemos a importância desse momento. No entanto o catecismo diz: "'A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor': ambos alimentam e dirigem toda a vida cristã"
Conselho do Papa
O Papa Francisco vem insistindo muito na necessidade dos católicos alimentarem-se diariamente da Palavra de Deus. Um conselho prático que ele já deu algumas vezes foi o de levarmos sempre conosco um evangelho de bolso. Assim podemos sempre que tenhamos um tempinho, na fila do banco, no engarrafamento ou em qualquer situação, alimentar o nosso Espírito com a Palavra de Deus.
Que nesse mês da Bíblia cresçamos ainda mais no nosso amor a Deus por meio das Sagradas Escrituras. E que Jesus, a Palavra única de Deus, possa ir fazendo, cada vez mais, morada nos nossos corações, que o conheçamos mais e assim possamos mostrar melhor para todo o mundo que Ele continua sendo uma Palavra viva, que transforma os corações dos homens tornando-os verdadeiramente felizes.
Fonte: A12.COM.
sábado, 6 de setembro de 2014
Dia da Pátria: a contribuição da Igreja na construção de um mundo mais justo e fraterno
Os dons do Espírito Santo são concedidos para que as pessoas se deixem conduzir, no seu dia a dia, não pelos impulsos oferecidos apenas pelos sentidos, mas aprendam a discernir o que é melhor para a própria sociedade, as relações interpessoais e o crescimento de cada um dos filhos e filhas de Deus, feitos todos para a felicidade e a plena realização. Um dos dons se chama piedade e através de sua atuação somos conduzidos à bondade, com sentimentos e atitudes adequadas em relação aos outros, a família, a sociedade e a pátria.
Alguns dos frutos esperados da ação do Espírito Santo nos cristãos que cultivam a bondade atende pelos nomes de civilidade, cidadania e patriotismo. Sim, ao celebrarmos neste final de semana o dia da Independência, Dia da Pátria, desejamos oferecer à sociedade reflexões que signifiquem a contribuição da Igreja na construção de um mundo mais justo e fraterno, sabendo que vivemos num ambiente de pluralismo, com diversidade de pontos de vista e opções, a serem por todos respeitados e valorizados. Há um sonho de liberdade e uma justa pretensão de um tratamento igualitário, capaz de ir ao encontro especialmente dos grupos mais frágeis da própria sociedade. Acrescente-se a isso o quadro em que nos encontramos na sociedade brasileira, pelo processo eleitoral que envolve as diversas forças e bancadas políticas, no amplo leque de propostas oferecidas, exigindo discernimento maduro e equilibrado.
Os cristãos são chamados a viver nesta terra, obedecer as leis e superá-las com a lei maior da caridade, derramada nos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Tudo o que se disser a respeito do patriotismo e do exercício da cidadania pode sempre passar por um processo de aperfeiçoamento contínuo, pois não temos aqui estadia permanente, mas estamos em busca daquela que há de vir (Cf. Hb 13, 14-21). Daí que a impostação de sua presença no mundo comporta uma sadia inquietação, que podemos chamar de espírito crítico, a ser exercitado sem azedume nem revolta. É que o sonho do cristão tem nome de "Reino de Deus"!
Muitas atitudes até justificáveis pela gravidade dos problemas sociais podem gerar um acirramento no trato dos mesmos, a ponto de transformar em ódio os eventuais conflitos de contrários, ou mais ainda, situações de ângulos diferentes, possíveis de se ajustarem em vista do bem comum. Esta é uma contribuição que os cristãos desejam oferecer ao exercício da cidadania. Enxergar os problemas a partir dos interesses comuns, superando uma sempre tentadora luta de classes, que alguns já viram como única via para a superação das mazelas da humanidade nos decênios passados, com resultados sempre desastrosos. A busca do que constrói a vida das pessoas e da coletividade, o diálogo sereno, com a capacidade de verificar a validade das contribuições alheias e o necessário acolhimento das mesmas, pode ser a estrada para a edificação do desejado mundo novo.
O sadio patriotismo leva à bonita emoção que envolve a todos os brasileiros. Basta lembrar o quanto toca em nosso brio pessoal o canto do Hino Nacional, a bandeira hasteada nas solenidades, ou soldados garbosos em seus desfiles que deixam pais e mães orgulhosos. Os benefícios sociais alcançados pelas comunidades, as conquistas dos mais excluídos, a casa própria adquirida com tanto esforço, a vitória dos jovens que acedem às Universidades, o primeiro trabalho ou o primeiro salário, tudo isso é construção de um mundo digno e respeitoso para todos.
Entretanto, o patriotismo tem seu contraponto no exercício de gestos de cidadania. A reflexão que agora proponho veio da indignação de um jovem diante do desleixo com que se joga lixo na rua. Fez-me pensar no respeito às leis de trânsito, o cuidado com nossas praças e áreas de lazer, assim como a resposta que pode se dada às situações críticas de nossa região e do mundo. Patriotismo significa amar a terra em que vivemos, valorizar a natureza que é dom de Deus e, mais ainda, o respeito à vida das pessoas, a serem amadas com amor de caridade e com quais podemos merecer a presença do Senhor, “pois onde dois ou mais estão reunidos em seu nome, ele está presente” (Mt 18, 20).
Cidadania é ainda a participação nas atividades comunitárias e a valorização de iniciativas nas ruas e bairros. As campanhas organizadas em vários períodos do ano pela Cáritas ou as diversas Obras Sociais existentes, pedem resposta e participação. Edifica muito o envolvimento das pessoas especialmente quando se trata de promover e apoiar as crianças. Se tantas vezes lamentamos e nos indignamos com a violência, há que reconhecer a solidariedade que se estabelece diante do sofrimento de pessoas e grupos.
Cidadania é presença, e pode se transformar em exercício da caridade. Tenho proposto a pessoas e grupos que a criatividade se exercite na sensibilidade correspondente aos dons recebidos. Uma pessoa pode visitar semanalmente os hospitais, outra vai ao presídio, uma terceira se coloca à disposição para levar os doentes aos hospitais. Cada um olhe ao seu redor e descubra seu jeito de ser presença.
Um dos âmbitos decisivos do exercício da cidadania é o engajamento dos cristãos leigos na política partidária. Sabemos que a Igreja Católica é muitas vezes incompreendida e julgada por não cerrar fileiras com os diversos partidos e grupos existentes. Acontece que ela é discípula e mestra na história. Noutras ocasiões, a escolha de lados na política só trouxe prejuízos, não só para a própria Igreja, quanto para a própria sociedade. Houve também clérigos que se aventuraram em pleitos eleitorais, contribuindo infelizmente apenas para a divisão entre os fiéis. Cabe à Igreja estimular os homens e mulheres vocacionados à política, oferecer-lhes a formação adequada e ajudá-los a se comprometerem, não em jogos de vis interesses, mas no compromisso com os valores do Evangelho.
Na proximidade das eleições, a Arquidiocese de Belém abriu espaço em seus meios de Comunicação, através da Fundação Nazaré de Comunicação, para os vários candidatos ao governo do Estado do Pará apresentarem suas propostas e planos de trabalho. De nossa parte oferecemos elementos para as decisões dos eleitores. Entretanto, estão em jogo os cargos de Presidente da República, Senadores, Deputados Federais e Estaduais. Ato de inteligência e de cidadania consciente é a busca do conhecimento as possíveis pessoas a receberem nossos votos. Há bandeiras fundamentais que correspondem às convicções dos cristãos, como o respeito à vida, desde a concepção até seu ocaso natural, o valor do matrimônio entre homem e mulher, a liberdade religiosa, ou a citada luta pelo bem comum, com a consequente batalha contra a corrupção. A análise da vida dos candidatos ou candidatas, na verificação de sua experiência e dedicação ao bem da sociedade, ou ainda, o discernimento que leva a identificar a existência de interesses menores e até escusos em possíveis candidaturas, são ângulos que se abrem para a necessária preparação às eleições. Será ainda exercício de cidadania acompanhar o desenrolar dos mandatos dos eleitos, para construir, pouco a pouco, um país melhor e mais digno para seus filhos.
Dom Alberto Taveira, Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará
Os cristãos são chamados a viver nesta terra, obedecer as leis e superá-las com a lei maior da caridade, derramada nos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Tudo o que se disser a respeito do patriotismo e do exercício da cidadania pode sempre passar por um processo de aperfeiçoamento contínuo, pois não temos aqui estadia permanente, mas estamos em busca daquela que há de vir (Cf. Hb 13, 14-21). Daí que a impostação de sua presença no mundo comporta uma sadia inquietação, que podemos chamar de espírito crítico, a ser exercitado sem azedume nem revolta. É que o sonho do cristão tem nome de "Reino de Deus"!
Muitas atitudes até justificáveis pela gravidade dos problemas sociais podem gerar um acirramento no trato dos mesmos, a ponto de transformar em ódio os eventuais conflitos de contrários, ou mais ainda, situações de ângulos diferentes, possíveis de se ajustarem em vista do bem comum. Esta é uma contribuição que os cristãos desejam oferecer ao exercício da cidadania. Enxergar os problemas a partir dos interesses comuns, superando uma sempre tentadora luta de classes, que alguns já viram como única via para a superação das mazelas da humanidade nos decênios passados, com resultados sempre desastrosos. A busca do que constrói a vida das pessoas e da coletividade, o diálogo sereno, com a capacidade de verificar a validade das contribuições alheias e o necessário acolhimento das mesmas, pode ser a estrada para a edificação do desejado mundo novo.
O sadio patriotismo leva à bonita emoção que envolve a todos os brasileiros. Basta lembrar o quanto toca em nosso brio pessoal o canto do Hino Nacional, a bandeira hasteada nas solenidades, ou soldados garbosos em seus desfiles que deixam pais e mães orgulhosos. Os benefícios sociais alcançados pelas comunidades, as conquistas dos mais excluídos, a casa própria adquirida com tanto esforço, a vitória dos jovens que acedem às Universidades, o primeiro trabalho ou o primeiro salário, tudo isso é construção de um mundo digno e respeitoso para todos.
Entretanto, o patriotismo tem seu contraponto no exercício de gestos de cidadania. A reflexão que agora proponho veio da indignação de um jovem diante do desleixo com que se joga lixo na rua. Fez-me pensar no respeito às leis de trânsito, o cuidado com nossas praças e áreas de lazer, assim como a resposta que pode se dada às situações críticas de nossa região e do mundo. Patriotismo significa amar a terra em que vivemos, valorizar a natureza que é dom de Deus e, mais ainda, o respeito à vida das pessoas, a serem amadas com amor de caridade e com quais podemos merecer a presença do Senhor, “pois onde dois ou mais estão reunidos em seu nome, ele está presente” (Mt 18, 20).
Cidadania é ainda a participação nas atividades comunitárias e a valorização de iniciativas nas ruas e bairros. As campanhas organizadas em vários períodos do ano pela Cáritas ou as diversas Obras Sociais existentes, pedem resposta e participação. Edifica muito o envolvimento das pessoas especialmente quando se trata de promover e apoiar as crianças. Se tantas vezes lamentamos e nos indignamos com a violência, há que reconhecer a solidariedade que se estabelece diante do sofrimento de pessoas e grupos.
Cidadania é presença, e pode se transformar em exercício da caridade. Tenho proposto a pessoas e grupos que a criatividade se exercite na sensibilidade correspondente aos dons recebidos. Uma pessoa pode visitar semanalmente os hospitais, outra vai ao presídio, uma terceira se coloca à disposição para levar os doentes aos hospitais. Cada um olhe ao seu redor e descubra seu jeito de ser presença.
Um dos âmbitos decisivos do exercício da cidadania é o engajamento dos cristãos leigos na política partidária. Sabemos que a Igreja Católica é muitas vezes incompreendida e julgada por não cerrar fileiras com os diversos partidos e grupos existentes. Acontece que ela é discípula e mestra na história. Noutras ocasiões, a escolha de lados na política só trouxe prejuízos, não só para a própria Igreja, quanto para a própria sociedade. Houve também clérigos que se aventuraram em pleitos eleitorais, contribuindo infelizmente apenas para a divisão entre os fiéis. Cabe à Igreja estimular os homens e mulheres vocacionados à política, oferecer-lhes a formação adequada e ajudá-los a se comprometerem, não em jogos de vis interesses, mas no compromisso com os valores do Evangelho.
Na proximidade das eleições, a Arquidiocese de Belém abriu espaço em seus meios de Comunicação, através da Fundação Nazaré de Comunicação, para os vários candidatos ao governo do Estado do Pará apresentarem suas propostas e planos de trabalho. De nossa parte oferecemos elementos para as decisões dos eleitores. Entretanto, estão em jogo os cargos de Presidente da República, Senadores, Deputados Federais e Estaduais. Ato de inteligência e de cidadania consciente é a busca do conhecimento as possíveis pessoas a receberem nossos votos. Há bandeiras fundamentais que correspondem às convicções dos cristãos, como o respeito à vida, desde a concepção até seu ocaso natural, o valor do matrimônio entre homem e mulher, a liberdade religiosa, ou a citada luta pelo bem comum, com a consequente batalha contra a corrupção. A análise da vida dos candidatos ou candidatas, na verificação de sua experiência e dedicação ao bem da sociedade, ou ainda, o discernimento que leva a identificar a existência de interesses menores e até escusos em possíveis candidaturas, são ângulos que se abrem para a necessária preparação às eleições. Será ainda exercício de cidadania acompanhar o desenrolar dos mandatos dos eleitos, para construir, pouco a pouco, um país melhor e mais digno para seus filhos.
Dom Alberto Taveira, Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
O Estado Islâmico não faz diferença entre Oriente e Ocidente. Todos somos incrédulos!
As notícias dos telejornais, da imprensa e da internet em todo o mundo, ultimamente, são todas dedicadas às ações desumanas, imorais e brutais do Estado Islâmico da Grande Síria e do Iraque (EIIL).
Por mais de três meses, o massacre, a perseguição, a deportação e os sequestros dos cristãos sírios e iraquianos são as prioridades dos extremistas islâmicos sunitas jihadistas, que estão dominando algumas regiões do Levante, anunciando o nascimento de um novo califado islâmico.
Diante de tanto sangue que flui no Iraque, no panorama das cidades mais antigas do cristianismo já esvaziadas, diante de milhares de refugiados que fogem diariamente das suas terras, diante das fotos de crianças e idosos abandonados, diante dos bombardeios das igrejas e das mesquitas mais antigas e diante do número ilimitado de mártires cristãos durante estes últimos meses, a maior parte das nações do mundo permaneceu em silêncio total olhando para o que acontece no Oriente Médio deixando só alguns breves comentários. Algo muito triste...
O novo califado do estado islâmico Abu Bakr al-Baghdadi é seguido por mais de vinte mil muçulmanos sunitas na Síria e no Iraque públicamente; enquanto no Líbano ainda é secretamente seguido. Os membros do EIIL aumentam e continuam nas suas ações sem nenhuma misericórdia convertendo todos à força ao Islã, com o grito: Allahu Akbar (Deus é grande), e considerando os não-muçulmanos Cuffar (incrédulos).
No entanto, o cenário de perseguição aos cristãos, de acordo com EIIL, não é só o Levante. Eles consideram todo o Ocidente um mundo cristão; portanto, não fazem distinção entre o Oriente e Ocidente; já alguns deles começavam a anunciar a conversão ao Islã em alguns países ocidentais.
Em 20 de agosto deste ano, então, ocorreu a decapitação do jornalista americano James Foley, 40, no Iraque, que foi sequestrado no final de 2012, na Síria. Enquanto isso, a posição dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha para o EIIL mudou, e ambos anunciaram o estado de alerta máximo por temor de um atentado nos seus territórios. O presidente Obama ordenou bombardear os postos dos salafistas jihadistas no Iraque, sem enviar soldados ao território.
Durante o mês de agosto, a presença dos membros pertencentes a este Estado ou os seus "simpatizantes" em vários países, começaram a aparecer publicamente na Europa e em outros lugares, demonstrando e carregando a bandeira do novo Estado auto-proclamado independente. Na Haia, Holanda, mais de 500 pessoas manifestaram livremente para apoiar o Estado islâmico no Levante, sem nenhuma reação por parte do Estado que queria "respeitar a liberdade de expressão".
Em Colônia, Alemanha, por outro lado, cerca de setenta muçulmanos também manifestaram com esse objetivo, mas depois de um confronto com a polícia quase todos foram presos. Duas semanas depois, em Londres, centenas de muçulmanos bloqueiavam e percorriam as ruas da cidade com a bandeira do EIIL e a foto do califa.
Tais manifestações públicas que apoiam o estado islâmico, junto com a descoberta de tantos europeus que lutam com os terroristas na Síria e no Iraque, causaram uma forte movida da consciência coletiva e, especialmente, na de alguns líderes civis na Europa, que perceberam o perigo em andamento. Precisamente por esta razão, o primeiro-ministro dos Países Baixos decidiu, em 25 de agosto, retirar a nacionalidade holandesa de todos aqueles que estão lutando no Iraque e na Síria, bem como daqueles que pertencem a esses movimentos terroristas. A mesma decisão foi tomada pelo presidente da Argentina.
O EIIL, por sua vez, já está tentando desenvolver a sua presença em outras nações árabes, penetrando no Líbano. Os soldados libaneses, porém, defendem bem as suas fronteiras, especialmente depois do confronto com mais de 6.000 terroristas que tentaram entrar pelas montanhas sírias para dominar o país Erssal no norte da Bekaa. Mais de vinte heróis militares morreram no conflito, centenas de soldados e civis feridos, a maior parte dos habitantes emigraram.
O que está acontecendo no Oriente Médio é pior do que o que temos assistido durante as guerras mundiais. Por isso, tem razão o Papa Francisco quando diz que já começou uma "terceira guerra mundial". A visita conjunta dos quatro Patriarcas das Igrejas Orientais, em Arbil no norte do Iraque, também foi um sinal de confirmação da unidade das Igrejas ao redor dos cristãos perseguidos, cujo rosto reflete o de Jesus sofredor no Calvário.
A crise é enorme, as forças são fracas e as grandes nações não se interessam pelo povo que sofre. A Igreja ajuda a abrir as portas das casas de Deus como lugar de acolhimento para os refugiados. O mundo, no entanto, está lá para assistir de braços cruzados.
Fonte: Zenit.
Diante de tanto sangue que flui no Iraque, no panorama das cidades mais antigas do cristianismo já esvaziadas, diante de milhares de refugiados que fogem diariamente das suas terras, diante das fotos de crianças e idosos abandonados, diante dos bombardeios das igrejas e das mesquitas mais antigas e diante do número ilimitado de mártires cristãos durante estes últimos meses, a maior parte das nações do mundo permaneceu em silêncio total olhando para o que acontece no Oriente Médio deixando só alguns breves comentários. Algo muito triste...
O novo califado do estado islâmico Abu Bakr al-Baghdadi é seguido por mais de vinte mil muçulmanos sunitas na Síria e no Iraque públicamente; enquanto no Líbano ainda é secretamente seguido. Os membros do EIIL aumentam e continuam nas suas ações sem nenhuma misericórdia convertendo todos à força ao Islã, com o grito: Allahu Akbar (Deus é grande), e considerando os não-muçulmanos Cuffar (incrédulos).
No entanto, o cenário de perseguição aos cristãos, de acordo com EIIL, não é só o Levante. Eles consideram todo o Ocidente um mundo cristão; portanto, não fazem distinção entre o Oriente e Ocidente; já alguns deles começavam a anunciar a conversão ao Islã em alguns países ocidentais.
Em 20 de agosto deste ano, então, ocorreu a decapitação do jornalista americano James Foley, 40, no Iraque, que foi sequestrado no final de 2012, na Síria. Enquanto isso, a posição dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha para o EIIL mudou, e ambos anunciaram o estado de alerta máximo por temor de um atentado nos seus territórios. O presidente Obama ordenou bombardear os postos dos salafistas jihadistas no Iraque, sem enviar soldados ao território.
Durante o mês de agosto, a presença dos membros pertencentes a este Estado ou os seus "simpatizantes" em vários países, começaram a aparecer publicamente na Europa e em outros lugares, demonstrando e carregando a bandeira do novo Estado auto-proclamado independente. Na Haia, Holanda, mais de 500 pessoas manifestaram livremente para apoiar o Estado islâmico no Levante, sem nenhuma reação por parte do Estado que queria "respeitar a liberdade de expressão".
Em Colônia, Alemanha, por outro lado, cerca de setenta muçulmanos também manifestaram com esse objetivo, mas depois de um confronto com a polícia quase todos foram presos. Duas semanas depois, em Londres, centenas de muçulmanos bloqueiavam e percorriam as ruas da cidade com a bandeira do EIIL e a foto do califa.
Tais manifestações públicas que apoiam o estado islâmico, junto com a descoberta de tantos europeus que lutam com os terroristas na Síria e no Iraque, causaram uma forte movida da consciência coletiva e, especialmente, na de alguns líderes civis na Europa, que perceberam o perigo em andamento. Precisamente por esta razão, o primeiro-ministro dos Países Baixos decidiu, em 25 de agosto, retirar a nacionalidade holandesa de todos aqueles que estão lutando no Iraque e na Síria, bem como daqueles que pertencem a esses movimentos terroristas. A mesma decisão foi tomada pelo presidente da Argentina.
O EIIL, por sua vez, já está tentando desenvolver a sua presença em outras nações árabes, penetrando no Líbano. Os soldados libaneses, porém, defendem bem as suas fronteiras, especialmente depois do confronto com mais de 6.000 terroristas que tentaram entrar pelas montanhas sírias para dominar o país Erssal no norte da Bekaa. Mais de vinte heróis militares morreram no conflito, centenas de soldados e civis feridos, a maior parte dos habitantes emigraram.
O que está acontecendo no Oriente Médio é pior do que o que temos assistido durante as guerras mundiais. Por isso, tem razão o Papa Francisco quando diz que já começou uma "terceira guerra mundial". A visita conjunta dos quatro Patriarcas das Igrejas Orientais, em Arbil no norte do Iraque, também foi um sinal de confirmação da unidade das Igrejas ao redor dos cristãos perseguidos, cujo rosto reflete o de Jesus sofredor no Calvário.
A crise é enorme, as forças são fracas e as grandes nações não se interessam pelo povo que sofre. A Igreja ajuda a abrir as portas das casas de Deus como lugar de acolhimento para os refugiados. O mundo, no entanto, está lá para assistir de braços cruzados.
Fonte: Zenit.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
A Igreja ao lado dos políticos, "em defesa das verdades morais da lei natural"
A tarefa de um político católico é, na sociedade de hoje, bastante desafiadora. Numerosas leis ao redor do mundo ameaçam a família ou "até mesmo aceleram a sua dissolução". Também se faz cada vez mais necessário "promover o desenvolvimento integral dos membros mais negligenciados da sociedade". Por isso os políticos católicos precisam da Igreja, "que coloca a disposição os seus sacramentos, recomendações e compromisso em defesa das verdades morais da lei natural".
Esta é a mensagem que o secretário de Estado do Vaticano o cardeal. Pietro Parolin dirigiu aos participantes da V Conferência Anual da International Catholic Legislators Network, organizado em Frascati do 28 ao 30 de agosto. Três dias de trabalho em que os parlamentares católicos de todo o mundo discutiram o seu compromisso político e as dificuldades de traduzir os valores do Evangelho na sociedade cada vez mais secularizada.
O International Catholic Legislators Network foi fundado em 2010 pelo cardeal arcebispo de Viena Christoph Schönborn e David Alton, um membro católico da Câmara dos Lordes, com a finalidade de apoiar os legisladores católicos em seu árduo trabalho, que o secretário de Estado do Vaticano definiu "parte vital do apostolado dos leigos". Na conclusão de seu discurso, o Cardeal. Parolin incentivou para se aprofundar no compromisso pessoal dos políticos católicos "para que seu testemunho e diálogo com o mundo possam trazer frutos duradouros".
Fonte: Zenit.
O International Catholic Legislators Network foi fundado em 2010 pelo cardeal arcebispo de Viena Christoph Schönborn e David Alton, um membro católico da Câmara dos Lordes, com a finalidade de apoiar os legisladores católicos em seu árduo trabalho, que o secretário de Estado do Vaticano definiu "parte vital do apostolado dos leigos". Na conclusão de seu discurso, o Cardeal. Parolin incentivou para se aprofundar no compromisso pessoal dos políticos católicos "para que seu testemunho e diálogo com o mundo possam trazer frutos duradouros".
Fonte: Zenit.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
A Igreja ante os desafios do presente
A Igreja Católica tem ocupado insistentemente o noticiário nos últimos tempos e lamentavelmente para nós, que somos parte dela no mesmo sentir e na mesma pertença, não muito positivamente. Os escândalos da pedofilia entre membros do clero e mesmo do episcopado parecem ter destapado uma grande panela de pressão, obrigando a instituição mais antiga do mundo a rever-se em profundidade em vários pontos.
Acreditamos que isso não deixa de ser positivo. No contexto da grande e radical mudança de época que vivemos, ser levada a olhar-se a si mesma com olhar crítico e procurar trazer à luz pontos problemáticos que apontam para uma necessidade de conversão é uma graça que Deus nos dá neste momento da história. E, como tal, necessita ser muito bem vivida, não pode nem deve deixar de ser aproveitada.
Ressaltamos a seguir alguns desafios do presente que nos parecem importantes no atual momento que a Igreja atravessa:
1. Nos últimos decênios, a Igreja Católica tem assistido à dramática diminuição de seus efetivos mais importantes. É inegável a queda das vocações sacerdotais e religiosas, a evasão dos clérigos que pedem redução ao estado laical, seja porque descobrem que o estado de vida celibatário não é algo a que se sentem chamados, seja porque não encontram mais sentido na vocação que um dia abraçaram com fervor e entusiasmo ou por outros motivos.
Isso coloca a Igreja inapelavelmente frente à crise de seu modelo. Mostra-lhe que não pode mais configurar-se e erigir-se apoiada fundamentalmente sobre o clero e os religiosos como dirigentes e líderes, deixando o laicato em posição secundária, de subordinação e sem acesso às decisões. Se persistir neste modelo, corre o risco de ver-se obrigada a desfazer-se de muitas de suas obras - como escolas, hospitais, universidades - que tanto bem fizeram à humanidade ao longo de 2000 anos que nos fazem a nós, católicos, sentir-nos humildemente orgulhosos do que somos e do que a graça de Deus ajudou-nos a construir durante este tempo.
A teologia pós-conciliar vem chamando insistentemente a atenção para o fato de que a Igreja não deve mais configurar-se como uma instituição baseada sobre um eixo de contraposição clero X laicato; religiosos X não religiosos. Este eixo dá margem a concebê-la como uma instituição elitista, onde haveria os especialistas do espírito e a gente comum e corrente, que estaria sujeita às pobres e menores contingências da condição humana. O modelo eclesiológico da Igreja como Povo de Deus que a Lumen Gentium, documento central no Concílio Vaticano II propõe para a auto-concepção da Igreja, pode ajudar-nos muitíssimo a todos os batizados neste momento de revisão. Trata-se de um modelo que concebe a comunidade eclesial a partir daquilo que é mais fundamental para todos os seus membros: o Batismo que os configura a todos e a cada um a Jesus Cristo, Senhor e Mestre a quem todos desejam seguir e servir. A partir desta dignidade que a todos iguala é que surgem os ministérios como serviços e não como privilégios.
2. A Igreja Católica, além disso, juntamente com as outras Igrejas cristãs históricas, tem visto diminuir e desaparecer consideravelmente sua hegemonia e sua força de configuração do comportamento da sociedade civil. De matriz cultural e civilizatória principal e central do Ocidente, passa a ser uma entre outras propostas religiosas, dividindo com estas o espaço e o imaginário da população, e sendo chamada fortemente a dialogar com essas diferentes visões, na abertura e na fraternidade, sem disputas ou combates estéreis. O mundo é plural, não mais teocêntrico. Nem mesmo moderno antropocêntrico de corte cartesiano. Outras cosmovisões, outras experiências religiosas, outras dimensões vitais e salvíficas foram trazidas para perto pela tecnologia, pela globalização e por muitos outros fatores. Há que olhá-las de frente e com elas dialogar. Mais: há que a elas dar as mãos para construir juntos os grandes desafios da humanidade: a justiça e a paz. O Papa Benedito XVI fala belamente sobre isso em sua última Encíclica Caritas in Veritate. Integrar as alteridades e as diferenças, delas aprender humildemente, contribuir com aquilo que nos é próprio e com o que constitui nossa identidade, eis o que enriquece e que pode nos fazer todos mais fraternos, mais irmãos, mais humanos.
3. A Igreja Católica neste primeiro quartel de século XXI vê-se convidada a voltar seus olhos para outros hemisférios: o hemisfério oriental e o hemisfério sul. Sempre identificada com o Ocidente europeu, considerado a matriz da civilização ocidental e cristã, agora resulta que a maioria dos cristãos e católicos se encontra na Ásia, na África e na América Latina. O superior geral dos jesuítas, Pe. Adolfo Nicolás, em recente discurso no México, chamou a atenção para o fato de que a grande maioria das vocações para a importante ordem religiosa pela qual é responsável se encontra na India, no Vietnam, na Coréia. Ou ainda na África e na América Latina. Reconheceu publicamente que o próximo superior geral da ordem poderá ser asiático ou africano ou latino-americano. Isto significa que a Igreja está sendo convidada a redirecionar seu olhar para essas partes do mundo onde estão os deserdados do progresso e de suas benesses. Aí estão as culturas dominadas, exploradas secularmente pelo norte vitorioso que escreveu a história oficial. Sem desconhecer todo o bem e a maravilha que muitos missionários presentes nestas regiões fizeram ao longo destes mais de vinte séculos de história, é o momento, parece, de descentrar a Igreja, de mudar seu epicentro do norte para o Sul e do oeste para o leste, procurando ouvir e captar o que Deus está dizendo à comunidade eclesial como um todo desde estas margens da história que sempre foram esquecidas e desvalorizadas por uma visão muito marcada por certo modo de ver e sentir e certo estilo de viver. Pode ser uma excelente oportunidade de abertura e conversão para toda a Igreja em todos os seus segmentos e um saudável momento de um recomeço no seguimento de Jesus em novas bases e novos paradigmas.
No entanto, nenhum destes desafios pode ou deve ser respondido apenas com a adoção de estratégias ou táticas inovadoras e sofisticadas. Os estudos sociológicos e a lucidez histórica podem ajudar-nos mas não nos porão no caminho certo se não vierem acompanhadas de uma profunda atitude espiritual. Nesse sentido, as últimas alocuções do Papa sobre a necessidade da penitência para toda a Igreja, desde o sucessor de Pedro até o mais humilde dos fiéis, reconhecendo um pecado e uma insuficiência que é de todos nós, apontam numa direção que é a única onde podemos estar seguros de ser guiados pelo Evangelho de Jesus. Não é com arrogância ou dureza, apontando o dedo acusatório contra pessoas ou grupos, que poderemos, enquanto Igreja, sair da crise em que estamos mergulhados. Mas sim com a atitude humilde do publicano que bate no peito e se reconhece pecador entre todos os outros, pede misericórdia e luz por parte do Senhor, para ver por onde caminhar. A transparência e a verdade que devem caracterizar a Igreja neste momento doloroso pelo qual passa, se não vierem acompanhadas da humildade e do arrependimento, da penitência e da conversão, não poderão levá-la muito longe no único caminho que deve ser o seu: o de refletir no meio do mundo a face do Senhor Jesus, que sendo rico se fez pobre, obediente até a morte de Cruz.
Autor: Maria Clara Bingemer
Fonte: DomTotal.com.br
Acreditamos que isso não deixa de ser positivo. No contexto da grande e radical mudança de época que vivemos, ser levada a olhar-se a si mesma com olhar crítico e procurar trazer à luz pontos problemáticos que apontam para uma necessidade de conversão é uma graça que Deus nos dá neste momento da história. E, como tal, necessita ser muito bem vivida, não pode nem deve deixar de ser aproveitada.
Ressaltamos a seguir alguns desafios do presente que nos parecem importantes no atual momento que a Igreja atravessa:
1. Nos últimos decênios, a Igreja Católica tem assistido à dramática diminuição de seus efetivos mais importantes. É inegável a queda das vocações sacerdotais e religiosas, a evasão dos clérigos que pedem redução ao estado laical, seja porque descobrem que o estado de vida celibatário não é algo a que se sentem chamados, seja porque não encontram mais sentido na vocação que um dia abraçaram com fervor e entusiasmo ou por outros motivos.
Isso coloca a Igreja inapelavelmente frente à crise de seu modelo. Mostra-lhe que não pode mais configurar-se e erigir-se apoiada fundamentalmente sobre o clero e os religiosos como dirigentes e líderes, deixando o laicato em posição secundária, de subordinação e sem acesso às decisões. Se persistir neste modelo, corre o risco de ver-se obrigada a desfazer-se de muitas de suas obras - como escolas, hospitais, universidades - que tanto bem fizeram à humanidade ao longo de 2000 anos que nos fazem a nós, católicos, sentir-nos humildemente orgulhosos do que somos e do que a graça de Deus ajudou-nos a construir durante este tempo.
A teologia pós-conciliar vem chamando insistentemente a atenção para o fato de que a Igreja não deve mais configurar-se como uma instituição baseada sobre um eixo de contraposição clero X laicato; religiosos X não religiosos. Este eixo dá margem a concebê-la como uma instituição elitista, onde haveria os especialistas do espírito e a gente comum e corrente, que estaria sujeita às pobres e menores contingências da condição humana. O modelo eclesiológico da Igreja como Povo de Deus que a Lumen Gentium, documento central no Concílio Vaticano II propõe para a auto-concepção da Igreja, pode ajudar-nos muitíssimo a todos os batizados neste momento de revisão. Trata-se de um modelo que concebe a comunidade eclesial a partir daquilo que é mais fundamental para todos os seus membros: o Batismo que os configura a todos e a cada um a Jesus Cristo, Senhor e Mestre a quem todos desejam seguir e servir. A partir desta dignidade que a todos iguala é que surgem os ministérios como serviços e não como privilégios.
2. A Igreja Católica, além disso, juntamente com as outras Igrejas cristãs históricas, tem visto diminuir e desaparecer consideravelmente sua hegemonia e sua força de configuração do comportamento da sociedade civil. De matriz cultural e civilizatória principal e central do Ocidente, passa a ser uma entre outras propostas religiosas, dividindo com estas o espaço e o imaginário da população, e sendo chamada fortemente a dialogar com essas diferentes visões, na abertura e na fraternidade, sem disputas ou combates estéreis. O mundo é plural, não mais teocêntrico. Nem mesmo moderno antropocêntrico de corte cartesiano. Outras cosmovisões, outras experiências religiosas, outras dimensões vitais e salvíficas foram trazidas para perto pela tecnologia, pela globalização e por muitos outros fatores. Há que olhá-las de frente e com elas dialogar. Mais: há que a elas dar as mãos para construir juntos os grandes desafios da humanidade: a justiça e a paz. O Papa Benedito XVI fala belamente sobre isso em sua última Encíclica Caritas in Veritate. Integrar as alteridades e as diferenças, delas aprender humildemente, contribuir com aquilo que nos é próprio e com o que constitui nossa identidade, eis o que enriquece e que pode nos fazer todos mais fraternos, mais irmãos, mais humanos.
3. A Igreja Católica neste primeiro quartel de século XXI vê-se convidada a voltar seus olhos para outros hemisférios: o hemisfério oriental e o hemisfério sul. Sempre identificada com o Ocidente europeu, considerado a matriz da civilização ocidental e cristã, agora resulta que a maioria dos cristãos e católicos se encontra na Ásia, na África e na América Latina. O superior geral dos jesuítas, Pe. Adolfo Nicolás, em recente discurso no México, chamou a atenção para o fato de que a grande maioria das vocações para a importante ordem religiosa pela qual é responsável se encontra na India, no Vietnam, na Coréia. Ou ainda na África e na América Latina. Reconheceu publicamente que o próximo superior geral da ordem poderá ser asiático ou africano ou latino-americano. Isto significa que a Igreja está sendo convidada a redirecionar seu olhar para essas partes do mundo onde estão os deserdados do progresso e de suas benesses. Aí estão as culturas dominadas, exploradas secularmente pelo norte vitorioso que escreveu a história oficial. Sem desconhecer todo o bem e a maravilha que muitos missionários presentes nestas regiões fizeram ao longo destes mais de vinte séculos de história, é o momento, parece, de descentrar a Igreja, de mudar seu epicentro do norte para o Sul e do oeste para o leste, procurando ouvir e captar o que Deus está dizendo à comunidade eclesial como um todo desde estas margens da história que sempre foram esquecidas e desvalorizadas por uma visão muito marcada por certo modo de ver e sentir e certo estilo de viver. Pode ser uma excelente oportunidade de abertura e conversão para toda a Igreja em todos os seus segmentos e um saudável momento de um recomeço no seguimento de Jesus em novas bases e novos paradigmas.
No entanto, nenhum destes desafios pode ou deve ser respondido apenas com a adoção de estratégias ou táticas inovadoras e sofisticadas. Os estudos sociológicos e a lucidez histórica podem ajudar-nos mas não nos porão no caminho certo se não vierem acompanhadas de uma profunda atitude espiritual. Nesse sentido, as últimas alocuções do Papa sobre a necessidade da penitência para toda a Igreja, desde o sucessor de Pedro até o mais humilde dos fiéis, reconhecendo um pecado e uma insuficiência que é de todos nós, apontam numa direção que é a única onde podemos estar seguros de ser guiados pelo Evangelho de Jesus. Não é com arrogância ou dureza, apontando o dedo acusatório contra pessoas ou grupos, que poderemos, enquanto Igreja, sair da crise em que estamos mergulhados. Mas sim com a atitude humilde do publicano que bate no peito e se reconhece pecador entre todos os outros, pede misericórdia e luz por parte do Senhor, para ver por onde caminhar. A transparência e a verdade que devem caracterizar a Igreja neste momento doloroso pelo qual passa, se não vierem acompanhadas da humildade e do arrependimento, da penitência e da conversão, não poderão levá-la muito longe no único caminho que deve ser o seu: o de refletir no meio do mundo a face do Senhor Jesus, que sendo rico se fez pobre, obediente até a morte de Cruz.
Autor: Maria Clara Bingemer
Fonte: DomTotal.com.br
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Fundamentalismo, barbárie moderna: o novo inimigo da humanidade
Na conversa com os jornalistas durante o voo de volta de Seul para Roma, após a terceira viagem internacional do seu pontificado, Francisco falou da situação no Iraque e da necessidade de parar o injusto agressor mediante um esforço multilateral, promovido e garantido pela ONU. Neste contexto, o papa denunciou a "crueldade selvagem" do armamento de guerra não convencional e da tortura, empregados pelos jihadistas, e observou dolorosamente: "Estamos na Terceira Guerra Mundial, realizada por partes".
A afirmação é tão grave quanto certa e ressalta o peso que as forças fundamentalistas islâmicas estão exercendo na desestabilização da ordem internacional, ao promoverem um extenso plano de ação para combater os seus próprios irmãos muçulmanos, o cristianismo e as outras religiões e visões de mundo a que se contrapõem. No entanto, é o Ocidente que esses novos bárbaros identificam como o principal inimigo a ser abatido. Do Iraque à Síria, da Líbia à Somália, a "guerra santa" parece lançar a sua ofensiva de modo amplo e sincronizado, com miras expansionistas escancaradas. Minimizar a gravidade desta situação seria próprio de irresponsáveis. Reduzir os problemas a simples conflitos locais é tentar negar a realidade.
A verdade é que o novo inimigo da humanidade é mais do que nunca o fundamentalismo, que não deve ser confundido de maneira nenhuma com as formas do Islã autêntico e com as aspirações de paz e justiça que permeiam o coração e o comprometimento de muitos muçulmanos. Uma posição inter-religiosa de denúncia firme e sem resquícios de fundamentalismo é mais necessária do que nunca. Para promovê-la e instá-la, é oportuno refletir sobre os caracteres absolutamente desumanos e perversos das ideologias fundamentalistas.
Tento fazê-lo a partir de uma declaração do Evangelho em que Jesus reprova a hipocrisia dos escribas e dos fariseus, baseada em externalidades e transgressora das "prescrições mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade" (Mt 23 , 23). Estas são as três ideias-chave que o fundamentalismo distorce até transformar no seu oposto; ideias em torno às quais devemos convergir a fim de nos opormos à barbárie e à violência cega mediante um verdadeiro compromisso no serviço da paz para todos.
Em primeiro lugar, a justiça: na acepção positiva, ela consiste no respeito e na promoção dos direitos de cada um, ou seja, no reconhecimento da máxima "a cada um o que é seu" ("unicuique suum", em latim). Já na deformação ideológica, a justiça é transformada na imposição da lei do mais forte, identificada como a única norma e medida do bem e do mal, em nome de um fim que pode justificar quaisquer meios. Esse fim seria a destruição do que é diferente, com a imposição de uma única visão de mundo tida por verdadeira e cuja consecução é confiada à força das armas. A "jihad", que, no sentido original, é o compromisso com o bem e a luta contra o mal em si mesmos e na história, se transforma na guerra contra o outro, que deve ser destruído a todo custo.
A identificação entre justiça e violência em nome da verdade e da soberania divinas serve como a terrível motivação de todo tipo de abuso e de insulto à dignidade da pessoa humana, imagem de Deus. Assim, esta lógica se revela perversa, ofendendo exatamente Aquele a quem pretenderia dar glória: o Deus Senhor e Pai de todos, o Criador do homem, que certamente não pode se alegrar com a ofensa infligida à Sua criatura; Ele próprio vem a ser vilipendiado por aqueles que ferem de qualquer forma o ser humano criado à Sua imagem e semelhança. Toda violência em nome de Deus é blasfêmia e incredulidade! Nenhuma fé religiosa autêntica pode motivar a violação dos direitos inalienáveis da pessoa humana, a começar pelo direito à vida e à proteção da sua liberdade de expressão e de realização.
Entende-se com isto o quanto a ideia de misericórdia é fundamental para complementar a de justiça: na acepção bíblica, a palavra "rahamim", que transmite a ideia de misericórdia, evoca o ventre materno, o útero da vida, de onde todos nascemos. Ser misericordioso significa reconhecer essa comum e original pertença a uma mesma origem e um mesmo destino. A misericórdia remete à mesma fonte materna e paterna da qual viemos todos. O Deus misericordioso da Bíblia, o Pai de Jesus, e também o Deus misericordioso e compassivo mencionado no alcorão são o mesmo Deus de traços paternos e maternos.
O fundamentalista, sentindo-se dono da imagem da divindade, aplica a misericórdia só a si mesmo e aos seus companheiros, ou no máximo àqueles que lhe são afins por interesse: de categoria universal, fundamento da paz entre todos, a misericórdia é transformada em ciosa apropriação, em autojustificativa e em tolerância do mal provocado em prol da própria causa, tornando-se ofensa ao amor universal do Deus único. O acesso à misericórdia passa pela decidida rejeição de toda falsificação da misericórdia. Experimenta-se a misericórdia quando se sabe acolher e perdoar o outro, mesmo o inimigo, em nome de um amor maior: "Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso" (Lc 27,36).
Finalmente, a fidelidade é o valor que humaniza e que salva quando se concretiza no compromisso de manter a justa aliança de amor e de vida estabelecida com Deus e com os outros, na experiência da misericórdia recebida e dada. Quando o fundamentalismo reduz a fidelidade ao princípio de uma coerência infame com a justificativa da violência em nome do fim, ou seja, quando a fidelidade se torna integrismo ou imposição cega da própria verdade, não resta mais nada do original sentido da palavra, que, na Bíblia, é sinônimo de verdade ('emet), de estabilidade no bem e de adesão obediente à lei moral inscrita nas tábuas dos Dez Mandamentos e no coração de toda pessoa. Fiel ao Deus vivo é aquele que pratica a Sua misericórdia e se deixa moldar pelo Seu amor.
Ofende o nome do Altíssimo quem faz da alegada fidelidade ao divino a justificativa da violência e do abuso de poder sobre os outros. Justiça, misericórdia e fidelidade são as três ideias-chave sobre as quais se constrói a honesta convivência humana de acordo com o plano do Criador: qualquer abuso dessas ideias para servir aos interesses da própria causa, tornando-a falsificação ideológica, é ofensiva à soberania de Deus e à dignidade da criatura feita à imagem dele. Esclarecer estes pontos é dever de todos os professores e testemunhas das crenças religiosas autênticas: a sua mobilização conjunta, portanto, é premente para isolar e secar na raiz toda a barbárie fundamentalista, que tenta se justificar em nome de um Deus reduzido a ídolo e utilizado para servir às próprias ilusões aberrantes de onipotência.
Fonte: Zenit.
A verdade é que o novo inimigo da humanidade é mais do que nunca o fundamentalismo, que não deve ser confundido de maneira nenhuma com as formas do Islã autêntico e com as aspirações de paz e justiça que permeiam o coração e o comprometimento de muitos muçulmanos. Uma posição inter-religiosa de denúncia firme e sem resquícios de fundamentalismo é mais necessária do que nunca. Para promovê-la e instá-la, é oportuno refletir sobre os caracteres absolutamente desumanos e perversos das ideologias fundamentalistas.
Tento fazê-lo a partir de uma declaração do Evangelho em que Jesus reprova a hipocrisia dos escribas e dos fariseus, baseada em externalidades e transgressora das "prescrições mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade" (Mt 23 , 23). Estas são as três ideias-chave que o fundamentalismo distorce até transformar no seu oposto; ideias em torno às quais devemos convergir a fim de nos opormos à barbárie e à violência cega mediante um verdadeiro compromisso no serviço da paz para todos.
Em primeiro lugar, a justiça: na acepção positiva, ela consiste no respeito e na promoção dos direitos de cada um, ou seja, no reconhecimento da máxima "a cada um o que é seu" ("unicuique suum", em latim). Já na deformação ideológica, a justiça é transformada na imposição da lei do mais forte, identificada como a única norma e medida do bem e do mal, em nome de um fim que pode justificar quaisquer meios. Esse fim seria a destruição do que é diferente, com a imposição de uma única visão de mundo tida por verdadeira e cuja consecução é confiada à força das armas. A "jihad", que, no sentido original, é o compromisso com o bem e a luta contra o mal em si mesmos e na história, se transforma na guerra contra o outro, que deve ser destruído a todo custo.
A identificação entre justiça e violência em nome da verdade e da soberania divinas serve como a terrível motivação de todo tipo de abuso e de insulto à dignidade da pessoa humana, imagem de Deus. Assim, esta lógica se revela perversa, ofendendo exatamente Aquele a quem pretenderia dar glória: o Deus Senhor e Pai de todos, o Criador do homem, que certamente não pode se alegrar com a ofensa infligida à Sua criatura; Ele próprio vem a ser vilipendiado por aqueles que ferem de qualquer forma o ser humano criado à Sua imagem e semelhança. Toda violência em nome de Deus é blasfêmia e incredulidade! Nenhuma fé religiosa autêntica pode motivar a violação dos direitos inalienáveis da pessoa humana, a começar pelo direito à vida e à proteção da sua liberdade de expressão e de realização.
Entende-se com isto o quanto a ideia de misericórdia é fundamental para complementar a de justiça: na acepção bíblica, a palavra "rahamim", que transmite a ideia de misericórdia, evoca o ventre materno, o útero da vida, de onde todos nascemos. Ser misericordioso significa reconhecer essa comum e original pertença a uma mesma origem e um mesmo destino. A misericórdia remete à mesma fonte materna e paterna da qual viemos todos. O Deus misericordioso da Bíblia, o Pai de Jesus, e também o Deus misericordioso e compassivo mencionado no alcorão são o mesmo Deus de traços paternos e maternos.
O fundamentalista, sentindo-se dono da imagem da divindade, aplica a misericórdia só a si mesmo e aos seus companheiros, ou no máximo àqueles que lhe são afins por interesse: de categoria universal, fundamento da paz entre todos, a misericórdia é transformada em ciosa apropriação, em autojustificativa e em tolerância do mal provocado em prol da própria causa, tornando-se ofensa ao amor universal do Deus único. O acesso à misericórdia passa pela decidida rejeição de toda falsificação da misericórdia. Experimenta-se a misericórdia quando se sabe acolher e perdoar o outro, mesmo o inimigo, em nome de um amor maior: "Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso" (Lc 27,36).
Finalmente, a fidelidade é o valor que humaniza e que salva quando se concretiza no compromisso de manter a justa aliança de amor e de vida estabelecida com Deus e com os outros, na experiência da misericórdia recebida e dada. Quando o fundamentalismo reduz a fidelidade ao princípio de uma coerência infame com a justificativa da violência em nome do fim, ou seja, quando a fidelidade se torna integrismo ou imposição cega da própria verdade, não resta mais nada do original sentido da palavra, que, na Bíblia, é sinônimo de verdade ('emet), de estabilidade no bem e de adesão obediente à lei moral inscrita nas tábuas dos Dez Mandamentos e no coração de toda pessoa. Fiel ao Deus vivo é aquele que pratica a Sua misericórdia e se deixa moldar pelo Seu amor.
Ofende o nome do Altíssimo quem faz da alegada fidelidade ao divino a justificativa da violência e do abuso de poder sobre os outros. Justiça, misericórdia e fidelidade são as três ideias-chave sobre as quais se constrói a honesta convivência humana de acordo com o plano do Criador: qualquer abuso dessas ideias para servir aos interesses da própria causa, tornando-a falsificação ideológica, é ofensiva à soberania de Deus e à dignidade da criatura feita à imagem dele. Esclarecer estes pontos é dever de todos os professores e testemunhas das crenças religiosas autênticas: a sua mobilização conjunta, portanto, é premente para isolar e secar na raiz toda a barbárie fundamentalista, que tenta se justificar em nome de um Deus reduzido a ídolo e utilizado para servir às próprias ilusões aberrantes de onipotência.
Fonte: Zenit.
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