sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Iraque: uma catástrofe humanitária e com sério risco de genocídio dos cristãos

A situação no Iraque tornou-se uma catástrofe humanitária e o risco de um genocídio cristão é mais que iminente.

A maior cidade cristã na planície de Nínive, Quaraqosh, caiu nas mãos do EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) e as pessoas estão em fuga. Esta é a sede da arquidiocese Siro Católica de Mossul, onde está o seminário católico sírio e onde se tornou também a casa mãe de várias congregações religiosas, que não podiam mais ficar em Mossul, por razões de segurança.
Já não é "mais uma questão "religiosa", mas contra uma religião concreta: os cristãos", alerta Dom Duarte da Cunha, secretário geral do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE).
Publicamos na íntegra o apelo urgente do Presidente da Assembleia dos bispos católicos do Iraque, o patriarca Louis Raphael Sako.
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Apelo do Patriarcado caldeu pedindo ajuda urgente
Os militantes atacaram com morteiros a maioria das aldeias da planície de Nínive, durante a noite de 6 e 7 e agora estão controlando a área. Os cristãos, cerca de cem mil, horrorizados e em pânico, fugiram de suas aldeias e casas sem nada, só com as roupas do corpo. Um êxodo, uma verdadeira via crucis, os cristãos estão andando a pé no calor do verão escaldante do Iraque para as cidades curdas de Erbil, Duhok e Soulaymiyia, entre eles estão doentes, idosos, crianças e mulheres grávidas. Passam por uma catástrofe humanitária que corre o risco de se tornar num verdadeiro genocídio. Precisam de água, comida, abrigo...
Em relação às igrejas e propriedades da igreja nas aldeias agora ocupadas pelos militantes EIIL, temos relatos de destruição e profanação. Os antigos manuscritos e documentos (1500) estão sendo queimados.
Como é evidente para todos, o Governo Central é incapaz de fazer cumprir a lei e a ordem nesta parte do país. Há também dúvidas sobre a capacidade da região do Curdistão de defender sozinha o avanço feroz dos jihadistas. Claramente, há falta de cooperação entre o Governo Central e o Governo regional autônomo. E o Isis se beneficia desse "vazio" para impor a sua regra e terror. Há uma necessidade de apoio internacional e de um exército profissional, bem equipado. A situação vai de mal a pior.
Apelamos com tristeza e dor para a consciência de todos e todas as pessoas de boa vontade e as Nações Unidas e a União Europeia, para salvar essas pessoas inocentes da morte. Esperamos que não seja tarde demais!

Card. Loius Raphael Sako, Patriarca de Babilónia dos Caldeus

Fonte: Zenit.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Ruanda: um genocídio ainda pouco conhecido

Verão pode significar descanso e meditação, mas também é um momento de rever os eventos significativos da história. É o pensamento dos muitos turistas que viajam para Paris, longe do brilho da cidade, para visitar o Memorial do Holocausto, onde, até 05 de outubro de 2014,está em exposição Rwanda 1994, le génocide des Tutsi, depois de 20 anos dos trágicos episódios.
Uma barbárie que vai "além da guerra, porque a intenção dura para sempre, mesmo que não seja coroada de êxito", assim afirmava a cidadã ruandesa Christine Nyiransabimana para descrever os genocídios, definidos pela ONU como "atos cometidos com a 'intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso".
Uma política colonial e uma ideologia racista dos países ocidentais no século XIX, são algumas das profundas raízes de um conflito que, de acordo com fontes da ONU, causou mais de 800.000 mortes.
O Tutsi são considerados pelos colonizadores belgas, uma "classe" dominante, até os anos da descolonização. Mas nos anos 60 o Movimento de Libertação colonial se estabelece na sociedade ruandesa e é proposto uma rejeição deste grupo étnico, como classe privilegiada.
"Explorada e exaltada, favorecida também pela delicada situação regional, a ideia de um antagonismo por motivos étnicos, se torna um componente essencial da sociedade ruandesa que busca transformar, gradualmente, todas as formas de oposição política em uma discriminação racial", está escrito em uma nota do memorial.
Em 1993, tinha-se chegado laboriosamente a um acordo que previa a divisão do poder entre Tutsi e Hutu, mas uma franja extremista Hutu, considerado que comprometeria o próprio poder adquirido como resultado da descolonização, organizou o extermínio da etnia rival.
Em 07 de abril de 1994, em Kigali, capital da Ruanda, um dos mais terríveis massacres da história, após o assassinato em um ataque contra o presidente Hutu, Juvenal Habyarimana (8 março de 1937 - 06 abril de 1994). Teatro dos assassinatos, além da Ruanda, foram os países vizinhos: Uganda, Burundi, Congo e Tanzânia.
"Despreparados, desarmados e não numerosos com relação ao inimigo, os tutsis tentaram se defender da melhor maneira possível. Ao mesmo tempo, alguns hutus tentaram esconder, correndo sérios riscos, vizinhos e amigos tutsis", relembra a exposição.
Gravações de som e imagens reproduzem a propaganda odiosa contra o inimigo, ainda no governo do presidente Habyarimana. Definido como um conjunto de insetos e baratas, a população tutsi assumia, de fato, traços quase animalescos e desumanizantes, realidade certamente semelhante àquela anti-semita dos anos 30, que contribuíram à organização sistemática do massacre.
E vinte anos depois esse genocídio, ainda pouco conhecido, há cerca de 20 mil crianças nascidas a partir da violência sofrida por meio milhão de mulheres, durante os cem dias de limpeza étnica.

Fonte: Zenit.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Arcebispo nigeriano fala do Boko Haram, do convívio com o medo e da fé na Nigéria

Dom Ignatius Kaigama, da diocese de Jos, presidente da Conferência dos Bispos da Nigéria, passou recentemente alguns dias em Nova Iorque e abordou a situação de violência cada vez mais intensa em seu país, onde os jihadistas do grupo radical Boko Haram continuam a matar indiscriminadamente muçulmanos e cristãos.
 
No espaço de apenas uma semana no final de julho, o grupo explodiu duas bombas que mataram 100 pessoas, atacou uma igreja católica na cidade de Kano e deixou 5 mortos e, numa ação profundamente perturbadora, usou jovens meninas de apenas 10 anos de idade como suicidas para detonar explosivos. Além disso, a data de 30 de julho marcou o 100º dia de sequestro de cerca de 300 meninas pelo Boko Haram, a maioria delas cristãs.
O arcebispo conversou com a associação internacional católica Ajuda à Igreja que Sofre, em 31 de julho.

Ajuda à Igreja que Sofre: Deixando o extremismo islâmico de lado por um momento, qual é a relação entre os cristãos e os muçulmanos na Nigéria?

Dom Kaigama: Há uma competição bastante saudável entre os dois grupos. Muitas vezes, é uma luta por expansão geográfica e pela política de dados. Cada grupo religioso reivindica superioridade numérica, mas os registros não confirmam os dados. Há uma tensão inter-religiosa mais pronunciada no norte. No sul, há uma abordagem mais liberal na relação entre muçulmanos e cristãos. Existe uma compreensão melhor do casamento entre cristãos e muçulmanos e o espírito de fanatismo ou fundamentalismo é menos pronunciado.
No norte, em geral, um homem muçulmano pode se casar com uma mulher muçulmana ou cristã; mas uma mulher muçulmana não pode se casar com um cristão. Já no sul, existem casos de homens muçulmanos de destaque se casando com mulheres cristãs e permitindo que elas continuem a praticar a sua própria fé.
Que o norte muçulmano tenha sido dominante politicamente é um legado do colonialismo. Na transferência de poder, em 1960, os britânicos optaram por tirar proveito da administração indireta e da prática da sharia, o que levou a uma certa estabilidade e ordem.

AIS: O senhor acredita muito no diálogo, não é?

Dom Kaigama: Nós fazemos o nosso melhor para criar harmonia e compreensão. Existe a Associação Cristã da Nigéria e o Conselho Inter-Religioso da Nigéria. Esses órgãos unem muçulmanos e cristãos. Temos que explorar o que nos une e o que nos diferencia. Não estamos apenas lutando uns contra os outros. Isso é uma caricatura enganosa do nosso país.

AIS: Mas, dadas as diferenças entre os dois grupos, o que o diálogo pode realmente alcançar? Há uma diferença teológica e filosófica bem considerável.

Dom Kaigama: Mas é melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão. No meio da escuridão ou da violência, é melhor acender uma vela, uma vela de esperança para dissipar a escuridão terrível da violência. É verdade que não podemos entrar em teologia porque não haverá qualquer progresso. Existe o que chamamos de "Diálogo da Vida". Não há alternativa a não ser nos unirmos, como seres humanos, tomar chá ou café juntos. Assim vamos conhecer uns aos outros. Pode haver alguma troca de ideias. O "Diálogo da Vida" significa, simplesmente, “a sua vida afeta a minha e a minha afeta a sua”. É muito simples. Não se trata de produzir resultados imediatos, mas de ser amigos e de estar envolvidos na conversa. Eu comecei este processo de forma modesta em Jos, onde as coisas estavam muito mal quando eu fui nomeado para a arquidiocese.

AIS: O governo não está à altura da tarefa de gerenciar adequadamente o país? As coisas estavam muito ruins mesmo antes de o Boko Haram estourar no cenário...

Dom Kaigama: Os nossos líderes simplesmente não são muito sensíveis aos pobres, mesmo quando existe ajuda disponível. A Igreja, com as suas possibilidades limitadas, tenta promover o diálogo, a prestação de socorro e, mais simplesmente, esta lá, presente. Nós nos destacamos, sem querer nos vangloriar, porque temos sido úteis indo além das divisões políticas e religiosas. Esta boa vontade vem do coração e as pessoas a apreciam. As pessoas vêm me pedir ajuda e muitas vezes eu me sinto envergonhado porque só posso fazer muito pouco. Nós acabamos sendo assistentes sociais. Eu pensava que o meu trabalho era apenas de abençoar as pessoas... Mas eu também tenho que me preocupar com água e eletricidade.

AIS: Existe algum tipo de apoio de alguma parcela da população ao Boko Haram?

Dom Kaigama: É difícil dizer, porque nós realmente não sabemos quem eles são. Eles poderiam ser seus vizinhos; seus amigos da vida toda. Eu sempre digo: “Você só os conhece quando eles estão mortos, quando eles se explodem como homens-bomba”. Eles usam carros bons, porque querem ser vistos como gente respeitável​​. E de repente, antes que você perceba, acontece uma explosão.

AIS: O senhor acredita que o Boko Haram recebe financiamento do exterior?

Dom Kaigama: Tanto dentro quanto fora da Nigéria existem simpatizantes poderosos. Até agora, o nosso governo não foi capaz de acabar com o grupo. Deve haver maneiras de rastrear o financiamento e outras formas de apoio, mas eu não acredito que o nosso governo esteja fazendo disto uma prioridade. Esperamos que, com a ajuda da comunidade internacional, o fluxo de armas e de fundos possa ser bloqueado. Mas, apesar das minhas expectativas, não aconteceu quase nada, mesmo no tocante ao rapto das alunas que virou manchete no mundo todo. O Boko Haram é bem treinado e bem armado. Quem está ajudando na organização? Eu suspeito de financiamento estrangeiro. Mas, apesar da grande quantidade de dinheiro gasto pelo nosso governo e pelas forças armadas, ainda não sabemos a maior parte das respostas.

AIS: Parece que o Boko Haram ampliou a sua gama de alvos, incluindo também os muçulmanos moderados e instituições do Estado, correto?

Dom Kaigama: No começo, nós pensamos que eles eram simplesmente contra a educação ocidental e queriam propagar o que eles acreditavam que fosse a autêntica mensagem do islã. Mas depois eles começaram a atacar o governo e em seguida as igrejas. Os ataques contra igrejas têm acontecido em muitos lugares, com a trágica perda de vidas, e continuam até hoje. Não podemos esquecer que os lugares de culto dos muçulmanos também têm sido alvos. Os ataques repetidos em Kano e em Kaduna mostram que a luta foi além das religiões do islã e do cristianismo. Aliás, muitos muçulmanos e cristãos de boa vontade estão falando uma linguagem comum e agora estão procurando maneiras de combater essa ameaça.

AIS: O senhor, pessoalmente, tem medo?

Dom Kaigama: Bom, sim, é normal ter medo. Mas, dada a minha missão, eu desisti de tudo para servir a Deus e ao seu povo. Eu não tenho uma família biológica, esposa e filhos, nenhuma posse para chamar de minha. Se eu perder a minha vida no processo de defesa dos direitos das pessoas à liberdade de culto e à unidade da humanidade, eu não tenho mais nada, além dos meus queridos colaboradores pastorais e das excelentes pessoas de boa vontade, de várias origens étnicas e religiosas, que eu deixaria para trás. Você não corteja a morte, mas ela é um fim inevitável para todos nós, incluindo os que afirmam que estão matando e bombardeando em nome de Deus. Mesmo sendo tão certo que a morte virá para todos, você ainda tem medo da morte, e isso também é verdade para todos.

AIS: O senhor já recebeu alguma ameaça?

Dom Kaigama: Graças a Deus, não, mas eu sei que os meus movimentos e atividades e até mesmo o meu celular estão sendo monitorados. Mas como eu não pretendo fazer nenhum mal, não incentivo nenhum mal nem apoio nenhum mal, não tenho nada a esconder.

AIS: O que o senhor diz aos seus sacerdotes e religiosos quando se trata de lidar com o medo?

Dom Kaigama: Eu vou atrás das coisas. Eu nunca perco nenhuma cerimônia pública. Isso diz a eles que eu estou com eles, com as pessoas. Mesmo que a violência aconteça ali do lado, eu continuo participando das coisas públicas, usando o meu traje formal, para estar presente. Os funcionários do governo já ficam longe. Eu não tenho uma segurança particular. Isto seria um ímã para os ataques. Os militantes odeiam a polícia.
Além disso, usar segurança pessoal me tornaria um prisioneiro. E faria o nosso povo sentir mais medo! Imagine os sacerdotes andando por aí com guarda-costas. Nós acreditamos que Deus está conosco. Acreditamos que vamos triunfar apesar das maquinações dos malfeitores.

AIS: O senhor acredita que o Boko Haram representa o mal?

Dom Kaigama: Sem dúvida. Quando você mata e extermina não só os combatentes, mas as mulheres, as crianças, os pobres, isso é o mal. No atentado contra o mercado de Jos, morreram 118 pessoas! E não eram burocratas ou pessoas importantes; quem morreu era vendedor de laranja, vendedor de amendoim, vendedor de leite, gente que estava tentando fazer um pouco de dinheiro. Isso é uma expressão do mal.

AIS: De que as pessoas mais precisam na Nigéria?

Dom Kaigama: As pessoas precisam de solidariedade. A primeira coisa que eu vou fazer quando retornar desta viagem é ir a uma paróquia e participar de uma celebração de uma congregação que comemora o seu 50º aniversário de fundação. Eu vou ficar numa aldeia que não tem eletricidade, e não importa. Eu tenho que estar lá, presente.

AIS: Por causa da escassez de sacerdotes na América do Norte, um número crescente de sacerdotes nigerianos tem vindo para os Estados Unidos, para trabalhar em paróquias daqui. Qual é o dom da espiritualidade nigeriana, o carisma da Igreja nigeriana? Qual é o seu dom para a Igreja do mundo inteiro?

Dom Kaigama: Os nigerianos são um povo muito resistente. Nós passamos por tanta coisa, guerra civil, violência, as atrocidades do Boko Haram, mas você vê todos os nigerianos ainda sorrindo e prontos para seguir em frente. Eles nunca dizem que tudo acabou. Esse espírito vibrante também vem para dentro da Igreja. As nossas liturgias são algo especial, não é apenas um assunto de rotina. Na sexta-feira, todo mundo já está pensando no domingo para se preparar. No sábado, as roupas estão sendo lavadas e preparadas. Isso diz: “tem algo grande sendo esperado!”. E até porque nós não temos muitas oportunidades sociais e recreativas, a missa dominical é tanto um evento espiritual quanto social.

Fonte: Zenit.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

"Enquanto houver um só cristão na Líbia, eu não irei embora"

O vigário apostólico de Trípoli garantiu a sua fidelidade aos cristãos do país, em uma Líbia ainda assolada pela violência e pela instabilidade. "A comunidade cristã na Líbia já está reduzida ao seu mínimo, mas eu pretendo ficar aqui, mesmo que só reste um único cristão", declarou dom Giovanni Innocenzo Martinelli à agência Fides.
“Na região da Cirenaica”, explica o vigário, “não há mais freiras. Também já está indo embora da região a maior parte dos filipinos, que são o coração da comunidade cristã na Líbia. Em Trípoli, ainda existe uma boa presença de filipinos, mas daqui também já existem muitos que estão indo embora”.
A situação é desalentadora. Prossegue dom Martinelli: “A Igreja tem relação com esta presença de leigos que trabalham no setor sanitário, e, vista a situação, este é mesmo um momento de provação bem forte. Eu não sei até onde nós vamos chegar, mas tenho a confiança de que um grupo de pessoas vai ficar aqui a serviço da Igreja".
Apesar de que, "no momento, os combates pararam", a situação permanece "precária" e faz com que seja um mistério "a fisionomia que o país assumirá no futuro". Dom Martinelli afirma que o aeroporto ainda está fechado e que "as pessoas que vão embora estão partindo de barco".
Mesmo assim, não falta a esperança nas palavras do vigário apostólico de Trípoli. "Eu ainda tenho confiança no futuro da Líbia, mas estamos nas mãos de Deus". Por isso, dom Martinelli promete: "Enquanto houver aqui um único cristão, eu ficarei para ajudar. Mesmo que o serviço religioso tenha se reduzido ao mínimo, eu não posso abandonar os poucos cristãos que ainda estão aqui". Finalmente, ele pede orações, porque "só a oração pode resolver situações difíceis como a da Líbia de hoje".
O país vive afundado numa espiral de violência contínua desde a revolta de 2011, que derrubou o líder Muammar Gaddafi. Um dos cenários dos enfrentamentos é justamente o aeroporto, que se localiza a poucos quilômetros do centro da capital. No último dia 13 de julho, a milícia de Zintan, que detém o controle do aeroporto desde a queda do regime, se enfrentou com uma série de grupos rebeldes, vinculados, conforme as primeiras informações disponíveis, com os movimentos jihadistas. Na ocasião, morreram pelo menos 6 pessoas e outras 25 ficaram feridas. Também neste domingo, informa a agência Reuters, mais de 20 pessoas morreram nas batalhas entre as facções armadas que tentam controlar o aeroporto. Os enfretamentos, além disso, provocaram um grande incêndio no maior depósito de combustível da cidade.

Fonte: Zenit.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

"Compaixão, partilha, eucaristia"



Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Neste domingo, o Evangelho nos apresenta o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes (Mt 14, 13-21). Jesus o realizou no Mar da Galileia, em um lugar isolado, onde tinha se retirado com seus discípulos depois de saber da morte de João Batista. Mas muitas pessoas os seguiram e os encontraram; e Jesus, vendo-os, teve compaixão e curou os enfermos até o entardecer. Então, os discípulos, preocupados com a hora tardia, aconselharam-no ignorar as multidões para que pudessem ir as aldeias buscar o que comer. Mas Jesus, tranquilamente, respondeu: "Dai-lhes vós mesmos de comer" (Mt 14, 16); e levando-lhe cinco pães e dois peixes, abençoou-os e começou a partí-los e dá-los aos discípulos, que os distribuíram às pessoas. Todos comeram e ficaram satisfeitos, e até mesmo sobrou!
Neste acontecimento podemos ver três mensagens. A primeira é a compaixão. Diante da multidão que vai atrás dele e – por assim dizer – “não o deixa em paz”, Jesus não reage com irritação, não diz: "Essas pessoas me incomodam". Não, não. Mas reage com um sentimento de compaixão, porque sabe que não o procuram por curiosidade, mas por necessidade. Mas vejamos: compaixão - o que sente Jesus - não é simplesmente sentir pena; é mais! Significa com-patire, ou seja, identificar-se com o sofrimento dos outros, a ponto de sofrê-los também. Assim é Jesus: sofre conosco, sofre junto conosco, sofre por nós. E o sinal dessa compaixão são as muitas curas realizadas por ele. Jesus nos ensina a colocar as necessidades dos pobres antes das nossas. As nossas necessidades, embora legítimas, não serão nunca urgentes como aquelas dos pobres, que não têm o necessário para viver. Nós falamos muitas vezes dos pobres. Mas, quando falamos dos pobres, sentimos que aquele homem, aquela mulher, aquelas crianças não têm o necessário para viver? Quem não tem nada para comer, não tem o que vestir, não tem a possibilidade de remédios... que também as crianças não têm a oportunidade de ir à escola? E por esta razão, as nossas necessidades, embora legítimas, nunca serão tão urgentes como aquelas dos pobres que não têm o necessário para viver.
A segunda mensagem é a partilha. A primeira é a compaixão, aquela que Jesus sentia, a segunda a partilha. É útil confrontar a reação dos discípulos diante das pessoas cansadas e famintas, com aquela de Jesus. São diferentes. Os discípulos pensaram que era melhor manda-los embora, para que pudessem procurar alimento. Jesus, em vez disso, disse: dai-lhes vós mesmos de comer. Duas reações diferentes, que refletem duas lógicas opostas: os discípulos pensam de acordo com o mundo, onde cada um deve pensar em si mesmo; pensam como se dissessem: “Se virem sozinhos”. Jesus pensa com a lógica de Deus, que é aquela da partilha. Quantas vezes olhamos para o outro lado com tal de não ver os irmãos necessitados! E esse olhar para outro lado é um modo educado de dizer, com luvas brancas, “Se virem sozinhos”. E isso não é de Jesus: isso é egoísmo. Se tivesse mandado embora as multidões, muitas pessoas teriam ficado sem comer. Pelo contrário, aqueles poucos pães e peixes, compartilhados e abençoados por Deus, foram suficientes para todos. E atenção! Não é uma magia, é um “sinal”: um sinal que convida a ter fé em Deus, Pai providente, que não nos deixa faltar o “nosso pão de cada dia”, se nós o sabemos compartilhar como irmãos.
Compaixão, partilha. E a terceira mensagem: o milagre dos pães anuncia a Eucaristia. Isto pode ser visto no gesto de Jesus que "recitou a bênção" (v. 19), antes de partir os pães e distribuí-los ao povo. É o mesmo gesto que fará Jesus na Última Ceia, quando vai instituir o memorial perpétuo do seu Sacrifício redentor. Na Eucaristia, Jesus não dá um pedaço de pão, mas o pão da vida eterna, dá a Si mesmo, oferecendo-se ao Pai por amor a nós. Mas nós temos que ir à Eucaristia com aqueles sentimentos de Jesus, ou seja, a compaixão e aquela vontade de compartilhar. Quem vai à Eucaristia sem ter compaixão dos necessitados e sem compartilhar, não se encontra bem com Jesus.
Compaixão, partilha, Eucaristia. Este é o caminho que Jesus nos mostra neste Evangelho. Um caminho que nos leva a encarar com fraternidade as necessidades deste mundo, mas que nos leva para além deste mundo, porque vem de Deus Pai e volta para Ele. A Virgem Maria, Mãe da divina Providência, nos acompanhe neste caminho.

domingo, 3 de agosto de 2014

6 de agosto: jornada de oração pela paz no Iraque

No próximo dia 6 de agosto, Festa da Transfiguração, a Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) promove uma jornada de oração pela paz no Iraque. O convite é feito pela AIS em conjunto com o patriarca caldeu Raphael Louis Sako, que escreveu a oração de invocação da paz. "Com os cristãos iraquianos, me uno aos que estenderão as mãos ao Senhor invocando a paz no Iraque. Unimos nossos corações e nossas vozes diante do Senhor".
Como explica o presidente executivo internacional da AIS, Johannes Heeremann, a iniciativa foi inspirada pelo apelo do papa Francisco no ângelus de domingo passado. "As palavras do Santo Padre nos fizeram convidar os fiéis de todas as religiões à oração, em particular as comunidades muçulmanas tão machucadas pela violência. No meio de tanto sofrimento, nós temos que nos unir aos nossos irmãos que sofrem e mostrar que não os abandonamos".
No mês passado, a Ajuda à Igreja que Sofre doou 100 mil euros à arquidiocese caldeia de Mossul para ajudar os refugiados e continua captando fundos para apoiar a Igreja iraquiana. Como em outras ocasiões, a fundação pontifícia combina o apoio econômico e as orações pela Igreja perseguida no mundo. Recentemente, a AIS lançou outras iniciativas similares em prol da Igreja e das populações em dificuldade na República Democrática do Congo, na Síria e na República Centro-Africana.
“A fraternidade e a solidariedade são o que a nossa atormentada nação precisa neste momento”, afirma o patriarca Sako. “Para milhares de pessoas inocentes, a crise que estamos atravessando significa uma grande dor, um profundo sofrimento e privações imponderáveis”.
O prelado iraquiano enfatiza a relevância do dia escolhido para a oração pela paz: a Festa da Transfiguração. "É o dia da transformação dos corações e das mentes no encontro com a luz de Deus que se emite sobre toda a humanidade. Que a luz do Tabor, através da nossa proximidade, possa encher de amor e de esperança os corações daqueles que sofrem. Que a mensagem do Tabor, através das nossas orações, possa inspirar os líderes deste país a sacrificar os interesses pessoais em virtude do bem comum".

Fonte: Zenit.

sábado, 2 de agosto de 2014

Pela primeira vez na história, não existem mais cristãos em Mosul

A segunda grande cidade do Iraque vive a maior perseguição aos cristãos de toda a sua história. O Iraque é a terra de nossos antigos Pais do Antigo Testamento: Abraão, Isaac e Jacob. Aquela terra que conheceu o cristianismo logo após a vinda de nosso Salvador Jesus Cristo, continua a experimentar um período de trevas, assassinato e perseguição dos cristãos pelo que é conhecido como o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL ou ISIS).
Este último é um Estado não reconhecido, um grupo muçulmano salafista jihadista ativo na Síria e no Iraque. A auto-proclamação do nascimento do Estado Islâmico ocorreu no dia 3 janeiro de 2014, liderado pelo comandante Abu Bakr al-Baghdadi. Esta organização juntou-se ao Al-Qaeda no Iraque, em 2004, e depois se separarou. O objetivo do ISIL é impor a sharia nos territórios controlados e realizar um grande califado islâmico sunita, unindo as regiões de maioria sunita da Síria e do Iraque, dentro de um único Estado.
Os membros do ISIL atacaram Mosul no dia 10 de julho deste ano, entrando armados em todas as casas dos cristãos, e exigindo-lhes três opções: conversão ao islamismo; pagar a jizya, ou seja, o imposto de capitação, conhecido como de "compensação", que desde o período islâmico clássico até o século XIX todas as pessoas não-muçulmanas pagava às autoridades islâmicas ou abandonavam a cidade.
Os cristãos de Mosul formam a maioria da população da cidade depois dos muçulmanos sunitas, que são a grande maioria. No Iraque há várias igrejas, entre as quais podemos citar: a Igreja Católica Caldéia, a Igreja da Síria (tanto a Católica quanto a Ortodoxa), a Igreja Assíria do Oriente, a Igreja greco-católica melquita, a Igreja Ortodoxa Grega e a Igreja Católica Maronita. Destaca-se que as três primeiras Igrejas mencionadas têm em Mosul uma presença capilar.
Todo cristão que rejeita as três possibilidades impostas pelo ISIL está destinado ao fio da espada. Já existem centenas cristãos que foram massacrados por causa de sua fé e seu amor por Cristo Jesus. Emigraram de Mosul mais de quinze mil pessoas em 20 dias e os últimos cristãos que permaneceram lá, depois do ultimatum (19 Julho) dos jihadistas, eram 25 pessoas, gravemente doentes ou deficientes que estavam no hospital. O seu fim não foi melhor do que os outros cristãos, porque foram igualmente massacrados.
Pela primeira vez na história cristã, a antiga terra do Iraque, é esvaziada completamente de cristãos como resultado do massacre realizado pelos jihadistas islâmicos apoiados pelas nações que garantem um fornecimento de armas, dinheiro e todo o apoio necessário. Os emigrantes de Mosul foram forçados a deixar as suas cidades sem levar nada com eles, nem roupas, nem comida, sem transporte e sem dinheiro. Muitos deles fugiram como vieram ao mundo, ou seja, totalmente nus que conta hoje entre as suas fileiras cerca de vinte mil homens armados.
A perseguição continua e os mártires da fé cristã aumentam. O Papa Francisco nos disse em um dos seus últimos Angelus: "O número de mártires cristãos dos últimos anos ultrapassou em muito o dos primeiros séculos do cristianismo". Na verdade, a situação atual dos cristãos no Iraque e na Síria é intolerável e precisa de muita oração e jejum. Além disso, é necessário que os responsáveis das nações que apóiam o terrorismo e o ISIL recuperem uma consciência e parem de apoiar essas milícias. É o único caminho para devolver ao Iraque e ao Oriente Médio um destino de convivência inter-religiosa e de diálogo.

Fonte: Zenit.