segunda-feira, 10 de março de 2014

A Igreja é divina e humana

Há homens e mulheres, irmãos na fé católica, que ficam perplexos quando um (a) filho(a) da Igreja (leigo(a), religioso(a), sacerdote ou bispo) comete algum erro.
É, pois, a esses cristãos atônitos que dedico, com apreço, o presente artigo a fim de deixar claro o seguinte: a Igreja, como Corpo místico de Cristo prolongado na história (cf. Cl 1,24; 1Cor 12,12-21), é divina, mas formada por filhos pecadores é também humana, segundo a parábola do joio e do trigo (cf. Mt 13,24-30) ao relatar que no campo do Senhor, junto ao trigo (os bons) cresce o joio (os maus).
Aqui já se coloca um impasse: por que Deus permite que os pecadores permaneçam na sua Igreja? – Responde São Tomás de Aquino (†1274) que é pelas seguintes razões: a) o pecado de uns, longe de desanimar, deve incentivar os fiéis a serem mais santos em resposta supridora ao pecado; b) o Senhor quer dar a cada um desses pecadores a oportunidade de se converterem, especialmente por meio do Sacramento da Confissão; c) mesmo com o mau exemplo dos errantes, a Igreja não deixa de exercer a missão que Nosso Senhor lhe confiou: o ouro da graça divina pode passar por mão sujas, mas não perde o seu pleno valor.
Sim, desde o início do Cristianismo, de um modo particular a partir de Santo Agostinho (†430), a Igreja, lembrando as parábolas do joio e do trigo, já citada, e da rede que recolhe bons e maus peixes (cf. Mt 13,47-50), demonstra que sempre houve problemas nas comunidades: incesto (cf. 1Cor 5,1); injúrias ao apóstolo Paulo (cf. 2Cor 2,5-11), renegação da doutrina (cf. Hb 6,4-8; 10,26-31), falhas morais diversas (cf. Gl 1,6; 3,1;5,4), esfriamento da fé (cf. Ap 2-3) etc.
Todavia, não obstante às falhas de seus filhos, em Mt 28,20, o Senhor Jesus promete estar com a Igreja até o fim dos tempos. Daí comentar Dom Estevão Bettencourt, OSB, o seguinte: “Jesus promete à sua Igreja uma assistência vigilante... Igreja caracterizada pela sucessão apostólica; Jesus não promete estar com os mais santos ou os mais cultos, mas, sim, com os Apóstolos e seus legítimos sucessores [os Bispos] até o fim dos tempos. Muitas pessoas procuram o Cristo na comunidade mais simpática ou mais emocionante (critérios subjetivos). O que importa é não perder a comunhão com essa linhagem [dos Apóstolos em seus sucessores], mesmo que nela se encontre figuras humanas pouco dignas (o joio não impede o trigo de frutificar)” (A Igreja divina e humana. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2004, p. 6).
Isso posto, vê-se que só se afasta do colo da Mãe Igreja aquele(a) que desconhece em profundidade a fé que diz professar ou que se deixa levar por sentimentalismos capazes de colocar o bispo X ou o padre Y no lugar de Deus. Isso, se feito conscientemente, é pecado. E pecado grave.
Em sentido contrário, quem entende que a Igreja é divina e humana concorda, neste ponto, com o filósofo Jacques Maritain ao escrever que “Os católicos não são o Catolicismo. As faltas, as lerdezas, as carências e as sonolências do católico não comprometem o Catolicismo... A melhor apologética [defesa] não consiste em justificar os católicos quando erram, mas, ao contrário, em assinalar esses erros e dizer que não afetam a substância do Catolicismo e só contribuem para melhor trazer à tona a força de uma religião sempre viva apesar deles... Não nos considereis a nós pecadores. Vede, antes, como a Igreja sana as nossas chagas e nos leva trôpegos para a vida eterna... A grande glória da Igreja é ser santa com membros pecadores” (Religion et culture. Paris, 1930, p. 60).
Possam essas reflexões levar-nos a confiar na mensagem transmitida pela Mãe Igreja por meio de seus ministros (às vezes pouco dignos) e rezar sempre pela nossa conversão e pela dos nossos irmãos. Afinal, somos chamados a ser santos como o Pai celeste é santo (cf. Lv17,1; Mt 5,48; 1Pd 1,5s).

Fonte: Zenit.

sábado, 8 de março de 2014

Papa Francisco: A vida de fé sem vida de caridade é hipócrita

"Eu me envergonho da carne do meu irmão, da minha irmã?", perguntou o Santo Padre na homilia desta manhã, na Casa Santa Marta. O papa destacou que a vida de fé está estreitamente unida com a vida de caridade para com os pobres. Sem essa vida de caridade em união com a vida de fé, o que se professa é pura hipocrisia.
Francisco explicou que o cristianismo não é uma regra sem alma, não é um manual de observações formais para pessoas que mostram a face aparentemente bela da hipocrisia para esconder um coração vazio de caridade. Ele também recordou que o cristianismo é a própria carne de Cristo, que se aproxima, sem vergonha, daqueles que sofrem. Para aprofundar neste ponto, o pontífice usou como referência o Evangelho de hoje, em que Jesus dialoga com os doutores da lei que criticam os discípulos porque eles não respeitam o jejum, em contraste com eles e com os fariseus, que jejuam e fazem questão de demonstrá-lo. O Santo Padre ressaltou que os doutores da lei tinham transformado a observação dos mandamentos em uma "formalidade", reduzindo a "vida religiosa" a "uma forma de ética" e esquecendo-se das raízes, ou seja, "uma história de salvação, de escolha e de aliança".
Assim, o papa Francisco afirmou: "Receber do Senhor o amor de um Pai, receber do Senhor a identidade de um povo e depois transformá-la em um mero sistema de ética é rejeitar esse dom de amor. Essas pessoas hipócritas são pessoas boas, fazem tudo o que tem que ser feito. Parecem boas! São 'especialistas em ética', mas 'especialistas em ética' sem bondade, porque perderam o senso de pertença a um povo! Nosso Senhor dá a salvação dentro de um povo, no pertencimento a um povo".
Francisco observou também que o profeta Isaías já tinha descrito com clareza qual era o jejum verdadeiro aos olhos de Deus: "dissolver os injustos grilhões", "tornar livres os oprimidos", mas também "compartilhar o pão com o faminto, acolher em casa os indigentes que não têm teto", "vestir quem está nu". E matizou: "Este é o jejum que nosso Senhor quer! O jejum que se preocupa com a vida do irmão, que não se envergonha, e isso é o próprio Isaías quem diz, que não se envergonha da carne do irmão. A nossa perfeição, a nossa santidade se realiza com o nosso povo, o povo em que nós somos escolhidos e introduzidos. O nosso maior ato de santidade está precisamente na carne do irmão e na carne de Jesus Cristo. O ato de santidade de hoje, nosso, aqui, no altar, não é um jejum hipócrita: é um não envergonhar-se da carne de Cristo que vem hoje aqui! É o mistério do Corpo e do Sangue de Cristo. É compartilhar o pão com o faminto, cuidar dos doentes, dos idosos, de quem não pode nos dar nada em troca: isto é não se envergonhar da carne!".
Isto quer dizer que o "jejum mais difícil", afirmou o papa, é "o jejum da bondade". É o jejum de que é capaz o Bom Samaritano, que se inclina para ajudar o homem ferido, mas não o jejum do sacerdote, que olha para o mesmo desafortunado e passa direto, talvez por medo de se contaminar. E esta é, portanto, "a pergunta que a Igreja nos faz hoje: eu me envergonho da carne do meu irmão, da minha irmã?".
Francisco indagou ainda: "Quando eu dou esmola, deixo a moeda cair sem tocar na mão do meu irmão? E se toco na mão dele por acaso, me limpo logo em seguida? Quando eu dou uma esmola, olho nos olhos do meu irmão, da minha irmã? Quando eu sei que uma pessoa está doente, vou visitá-la? Saúdo aquele doente com ternura? Existe um sinal que talvez nos ajude. É uma pergunta: eu sei acariciar os doentes, os idosos, as crianças? Ou perdi o sentido da carícia? Esses hipócritas não sabiam acariciar! Eles tinham se esquecido... Não ter vergonha da carne do nosso irmão: ela é a nossa carne! É conforme fizermos isso com o nosso irmão, com a nossa irmã, que seremos julgados".

Fonte: Zenit.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Não existe estilo cristão sem cruz ou sem Jesus




Humildade, doçura, generosidade: este é o estilo cristão, um caminho que passa pela cruz e que leva à alegria. Esta foi a ideia central da homilia do papa Francisco na manhã de hoje, na Casa Santa Marta.
No Evangelho proposto pela liturgia desta quinta-feira, Jesus diz aos discípulos: "Quem quiser me seguir, negue a si mesmo, tome a sua cruz todo dia e me siga". Francisco destacou que este é "o estilo cristão", porque Jesus mesmo percorreu este caminho antes de nós. E explicou: "Nós não podemos pensar a vida cristã fora deste caminho. Sempre teremos este caminho que Ele trilhou primeiro: o caminho da humildade, o caminho também da humilhação, de negar a si mesmo e depois ressurgir. Mas este é o caminho. O estilo cristão sem cruz não é cristão. E se a cruz é uma cruz sem Jesus, ela não é cristã. O estilo cristão carrega a cruz com Jesus e vai em frente. Não sem cruz, não sem Jesus".
O papa recordou ainda que Jesus "deu o exemplo" e, mesmo "sendo igual a Deus", "se humilhou e se fez servo por nós". Francisco acrescentou que "este estilo nos salvará, nos dará alegria e nos tornará fecundos, porque este caminho de negar a si mesmo é para dar vida, é contra o caminho do egoísmo, de estar apegado a todos os bens só para mim... Este caminho é aberto aos outros, porque esse caminho que Jesus trilhou, de anulação, esse caminho foi para dar vida. O estilo cristão é precisamente esse estilo de humildade, de doçura, de mansidão. Quem quer salvar a própria vida a perderá, porque se o grão de trigo não morre, não pode dar fruto".
Francisco destacou: E "tudo isto com alegria, porque a alegria é Ele mesmo quem nos dá. Seguir Jesus é alegria, mas seguir Jesus com o estilo de Jesus, não com o estilo do mundo". O papa observou que seguir o estilo cristão significa percorrer o caminho de nosso Senhor, "cada um do jeito que pode, para dar vida aos outros, não para dar vida a si mesmo. É o espírito da generosidade". O nosso egoísmo nos faz querer parecer importantes diante dos outros. Mas o livro da Imitação de Cristo "nos dá um conselho belíssimo: 'Ama o fato de não seres conhecido e de seres julgado como nada'. É a humildade cristã, que Jesus praticou primeiro".
Para terminar, o pontífice explicou que "esta é a nossa alegria e esta é a nossa fecundidade: estar com Jesus. Outras alegrias não são fecundas; só pensam em ganhar o mundo inteiro, mas, no final, perdem a vida. No início da quaresma, peçamos que nosso Senhor nos ensine um pouco desse estilo cristão de serviço, de alegria, de rebaixamento de nós mesmos e de fecundidade com Ele, como Ele quer".

Fonte: Zenit.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Elementos para viver a Quaresma: fé autêntica, conversão e abertura de coração aos irmãos

Queridos irmãos e irmãs, bom dia
Começa hoje, Quarta-Feira de Cinzas, o itinerário quaresmal de quarenta dias que nos conduzirá ao Tríduo pascal, memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor, coração do mistério da nossa salvação. A Quaresma nos prepara para este momento tão importante, por isto é um tempo “forte”, um ponto de reviravolta que pode favorecer em cada um de nós a mudança, a conversão. Todos nós temos necessidade de melhorar, de mudar para melhor. A Quaresma nos ajuda e assim saímos dos hábitos cansados e do preguiçoso costume ao mal que nos engana. No tempo quaresmal, a Igreja nos dirige dois importantes convites: adotar uma consciência mais viva da obra redentora de Cristo; viver com mais empenho o próprio Batismo.
A consciência das maravilhas que o Senhor fez para a nossa salvação dispõe a nossa mente e o nosso coração a uma atitude de gratidão para Deus, por quanto Ele nos deu, por tudo aquilo que realiza em favor do seu povo e de toda a humanidade. Daqui parte a nossa conversão: essa é a resposta grata ao mistério maravilhoso do amor de Deus. Quando nós vemos este amor que Deus tem por nós, sentimos a vontade de nos aproximarmos Dele: esta é a conversão.
Viver a fundo o Batismo – eis o segundo convite – significa também não se habituar às situações de degradação e de miséria que encontramos caminhando pelos caminhos das nossas cidades e dos nossos países. Há o risco de aceitar passivamente certos comportamentos e de não se surpreender diante das tristes realidades que nos cercam. Nós nos acostumamos com a violência, como se fosse uma notícia cotidiana deduzida; habituamo-nos aos irmãos e irmãs que dormem pelas ruas, que não têm um teto para abrigar-se. Habituamo-nos aos refugiados em busca de liberdade e dignidade, que não são acolhidos como se deveria. Habituamo-nos a viver em uma sociedade que pretende fazer pouco de Deus, na qual os pais não ensinam mais aos filhos rezar nem fazer o sinal da cruz. Eu pergunto a vocês: os vossos filhos, as vossas crianças sabem fazer o sinal da cruz? Pensem. Os vossos netos sabem fazer o sinal da cruz? Vocês ensinaram a eles? Pensem e respondam no vosso coração. Sabem rezar o Pai Nosso? Sabem rezar à Nossa Senhora com a Ave Maria? Pensem e respondam. Este costume a comportamentos não cristãos e de comodismo narcotiza o nosso coração!
A Quaresma vem a nós como tempo providencial para mudar a rota, para recuperar a capacidade de reagir diante da realidade do mal que sempre nos desafia. A Quaresma seja vivida como tempo de conversão, de renovação pessoal e comunitária mediante a aproximação a Deus e a adesão confiante ao Evangelho. Deste modo, permite-nos também olhar com olhos novos para os irmãos e as suas necessidades. Por isto a Quaresma é um momento favorável para se converter ao amor para com Deus e para com o próximo; um amor que saiba fazer propriamente a atitude de gratuidade e de misericórdia do Senhor, que “fez-se pobre para enriquecer-nos com a sua pobreza” (cfr 2 Cor 8, 9). Meditando sobre os mistérios centrais da fé, a paixão, a cruz e a ressurreição de Cristo, perceberemos que o dom sem medida da Redenção nos foi dado por iniciativa gratuita de Deus.
Dar graças a Deus pelo mistério do seu amor crucificado; fé autêntica, conversão e abertura de coração aos irmãos: estes são elementos essenciais para viver o tempo da Quaresma. Neste caminho, queremos invocar com particular confiança a proteção e a ajuda da Virgem Maria: seja Ela, primeira crente em Cristo, a nos acompanhar nos dias de oração intensa e de penitência, para chegar a celebrar, purificados e renovados no espírito, o grande mistério da Páscoa do seu Filho.

Fonte: Zenit.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Senhor, defendei os sacerdotes e religiosas da idolatria e da vaidade, da soberba e do dinheiro

Muitas vezes, o próprio coração impede de dizer sim à vocação: cheio de soberba, inveja, idolatria. Por isso, o Papa, na homilia desta segunda-feira, na capela da casa Santa Marta, pediu orações, para que o Senhor envie sacerdotes e religiosas livres da idolatria e da vaidade, do poder e do dinheiro.
Hoje, destacou o Papa, muitos jovens sentem em seus corações este chamado para se aproximar de Jesus, e ficam entusiasmados”, “não têm vergonha de se ajoelharem” diante d’Ele, para dar uma demonstração pública de sua fé em Jesus Cristo”. Ainda hoje existem muitos jovens que têm vocação, mas às vezes há algo “que os impede”: “o coração está cheio de outras coisas, não são muito corajosos para esvaziá-lo, voltam para traz, e a alegria se torna tristeza”.
É a mesma situação narrada no Evangelho de hoje: o homem rico que se lança de joelhos diante de Jesus para pedir-lhe o que deveria fazer para herdar a vida eterna. Ele era um homem que “tinha um grande desejo de ouvir as palavras de Jesus”: era “um homem bom, porque desde a sua juventude tinha observado os mandamentos, “mas isso não era suficiente para ele: queria mais. O Espírito Santo o impulsionava”.
Então, Jesus olha para ele e lhe faz uma proposta de amor: “Venda tudo e vem comigo pregar o Evangelho”. Parece fácil para alguns, mas para aquele jovem, quando escutou essa chamada, “fechou a cara e foi embora triste”, porque possuía muitos bens.
“O seu coração inquieto, por causa do Espírito Santo que lhe impulsionava a chegar perto de Jesus e a segui-lo, era um coração cheio, destacou Bergoglio, mas ele não teve a coragem de esvaziá-lo.” O coração dele estava ligado ao dinheiro e não tinha a liberdade de escolher. “O dinheiro escolheu por ele”.
Muitos jovens hoje vivem um dualismo como este narrado no Evangelho. “Devemos rezar, exortou Francisco, para que o coração destes jovens possa se esvaziar, se esvaziar de outros interesses, de outros amores, para que o coração se torne livre.
Francisco então sugeriu uma oração pelas vocações”: “Senhor, envie-nos religiosas, envie-nos sacerdotes, defenda-os da idolatria, da idolatria da vaidade, da idolatria do orgulho, da idolatria do poder, da idolatria do dinheiro.”
É uma oração para rezar muitas vezes, insistiu o Pontífice: “Ajudai, Senhor, esses jovens, para que eles sejam livres e não sejam escravos, para que tenham o coração só para Vós, e assim o chamado do Senhor possa chegar e possa dar frutos. Mas atenção, esta oração não é para fazer nascer vocações: existem vocações. O problema é ajudar para que cresçam, para que o Senhor possa entrar naqueles corações e dar esta alegria indizível e cheia de glória que tem cada pessoa que segue de perto a Jesus.”


(Fonte: Zenit. Trad.:MEM)

segunda-feira, 3 de março de 2014

Priorizar a catequese com adultos

A Segunda Semana Brasileira de Catequese foi dedicada à catequese com adultos, sendo o seu lema: COM ADULTOS, CATEQUESE ADULTA. Vários conferencistas discorreram sobre essa tema, apresentando pesquisas, sugestões e perspectivas para uma eficiente catequese com adultos. Entre eles quero lembrar Dom Juventino Kestering que, entre tantos argumentos na sua conferência, destacou: “Muitos católicos não receberam claramente o primeiro anúncio de Jesus Cristo, nem passaram pelo processo de crescimento e amadurecimento pessoal da fé, através de uma verdadeira experiência catequética. Esses católicos não sentem uma vinculação atual com a Igreja. São atraídos por outras religiões ou anônimos e sem pertença a uma comunidade” (Estudos da CNBB 84, p.265).
É um fato irrefutável em nossa Igreja: há sempre católicos que se afastam dela. Sem desprezar os vários motivos que os pesquisadores apontam, quero refletir sobre o conteúdo da catequese de algumas comunidades, sem generalizar.

CONVERSÃO E FÉ

A catequese, respeitando a pedagogia por idade, não pode ser um verniz que é aplicado apenas na superfície, há de penetrar na vida das pessoas, provocando uma conversão interior. O conteúdo há de ser algo que responda a pergunta: “vocês entenderam o que vos fiz?” (cf. Jo 13,12). O ministério catequético é sempre o de instrução acompanhado do testemunho, devendo ter clareza no conteúdo para provocar uma transformação espiritual.
Os elementos da catequese são ordenados não só para conhecer Jesus Cristo, pois os demônios também o conhecem (cf. Mc 5,7-13) e continuam sendo demônios, mas provocar uma adesão a Cristo, “num processo de conversão permanente, que dura toda a vida” (cf. Diretório Geral da Catequese, 56). Por isso, a fim de atender seus princípios, necessita de uma ordenação sistemática e orgânica para entrar na revelação que Deus faz de si mesmo, contida na Sagrada Escritura, guardada na memória da Igreja e transmitida a todos, de geração em geração. Aqui podemos perguntar: o que o catequista está transmitindo é o que foi revelado por Deus (catequese bíblica)? Há sintonia entre o catequista e o Magistério da Igreja (catequese eclesial)? O catequista vive o que transmite, frequentando os sacramentos, encarnando em si a Palavras de Deus, amando o próximo, tendo uma vida de testemunho? Para que a catequese provoque adesão permanente a Cristo é preciso que entenda a pergunta-ordem de Cristo: “Vocês entenderam? [...] Como eu vos fiz, também o façais” (cf.Jo 13,12.15).

A CATEQUESE É CRISTOLÓGICA

O Pai é revelado pelo Filho. Só se chega ao Pai através do Filho: “Quem me vê, vê o Pai... eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14,9-10). Então, para se chegar ao mistério revelado, que é a finalidade da catequese, ela tem que ser cristológica. Cristo é o objeto e o sujeito da catequese. “A finalidade da catequese é a de fazer com que alguém se ponha, não apenas em contato, mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo: somente ele pode levar ao amor do Pai no Espírito e fazer-nos participar na vida da Santíssima Trindade” (Catequese Hoje, n. 5).
A Catequese entra na vida de Jesus, caminha com Ele, come com Ele, bebe comEle, sofre com Ele, aprende na escola de Jesus. A catequese não é só instrução, transmissão de doutrina, mas uma experiência de vida em Cristo, por isso é entender a vida através da vida de Cristo, é ver a vida através da vida d’Ele. É muito difícil abandonar o Cristo depois de conhecê-lo por inteiro. No discurso do Pão da vida, aqueles que não conseguiram entrar no mistério de Cristo, debandaram-se; e Pedro, em nome dos que já haviam aderido totalmente a Ele, dá a resposta pela fé: “Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (cf. Jo 6,60-69).
Se a catequese não entrar na vida, no Reino de Deus que já está no meio de nós, e que foi pregado por Cristo, torna-se um verniz que evapora e desaparece. E poderíamos perguntar: será que muitos que deixaram a Igreja não o fizeram por falta de uma catequese fundada em Cristo?

CONCLUSÃO À TÍTULO DE REFLEXÃO

Certa ocasião, perguntei a uma jovem que ia receber o sacramento da Confirmação: você gostou da catequese? E ela respondeu: “gostei muito”. Continuei: de que você gostou mais? E ela: “das gincanas, das dinâmicas”. Insisti: o que essas gincanas e dinâmicas transmitiram-lhe? E a resposta: “não me lembro, mas eram muito divertidas”.
Uma catequese sem conteúdo são palavras jogadas ao vento. Não educam para a fé, facilitando o êxodo. É preciso sair de si mesmo, da individualidade do catequista, para entrar na comunidade de Cristo, seguindo-O até o Calvário.

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Leia também o artigo anterior: Catequese para Adultos: uma catequese em tempos de mudança
José Barbosa de Miranda é Diácono Permanente na Arquidiocese de Brasília. Bacharel em Teologia pela PUC-Goiânia. Pós-graduado em Catequese pelo Centro Universitário Salesiano – UNISAL – São Paulo. Professor na Faculdade de Teologia da Arquidiocese de Brasília. Colaborador na formação dos noviços do Seminário São Luiz Orione, de Brasília.
Para dúvidas e comentários converse com o autor desse artigo enviando um email para: mirandajosebarbosa@hotmail.com

domingo, 2 de março de 2014

O reino de Deus e sua justiça



Nos dias de Carnaval voltam às ruas fantasias de reis e rainhas, para que o “reinado” de “Momo” se estabeleça, e “tudo acabar na quarta-feira”. Volta então o quotidiano, com suas lutas, tristezas ou alegrias. Muitas pessoas precisarão de muitos fins de semana, com farras, bebibas ou baladas para se desafogarem, seja qual for o tempo do ano. E a vida vai adiante, como se fossem necessários espasmos de exuberância, barulho ou exagero. É o reino da sensibilidade e da superficialidade, ao qual arriscamos ficar acostumados. Nasce no coração de muitas pessoas a pergunta a respeito de uma maior continuidade de sentimentos, marcada pela serenidade. A resposta não está no barulho ou na correria, mas dentro do coração e mais alto, no ponto de chegada das escolhas a serem feitas. Quando estas se realizam em torno de valores consistentes, tudo muda. Divertir-se passa a ser partilha de vida, a alegria brota de dentro e contagia, as festas deixam de ter o gosto amargo da ressaca ou da vergonha e a felicidade verdadeira se instala.
Jesus se proclamou Rei e anunciou que seu reino não é desse mundo. Sua paixão era o Reino de Deus. Fala de Reino dos Céus, usa inúmeras parábolas para dele aproximar as pessoas, mostra-o presente dentro e perto de nós, suscita vigilância em seus discípulos para a sua chegada. Um dia, é nossa esperança e certeza, Ele virá glorioso para julgar os vivos e os mortos e o seu Reino não terá fim. Até lá, os cristãos têm a tarefa ao mesmo tempo exigente e gloriosa de anunciar este Reino. Sua vida há de ser de tal modo coerente que as pessoas se sintam atraídas a ponto de aderirem ao Senhor e ao seu Reino. Não é necessário competir ou guerrear com os reinos do mundo, mas implantar os valores do Evangelho, que acolhem e elevam todas as realidades humanas, dando-lhes sentido e rumo.
Da própria natureza (Mt 6,24-34) o Senhor tira comparações para explicar o Reino de Deus. Quando tanta gente tem necessidade de se enfeitar ou se maquiar, em busca de fantasias para o ano inteiro, o Senhor faz voltar os olhos para as flores do campo, que se vestem melhor do que Salomão ou todos os reis da terra. São simples, tirando da terra só e tão somente o que precisam para serem vivas e bonitas. Nelas o Pai do Céu inscreveu uma harmonia que nenhum artista consegue imitar. Olhando-as, nasce nas pssoas apaixonadas pelo Reino de Deus um bom gosto diferente. Em torno de si, a casa, a roupa ou o ambiente começam a ficar diferentes, para melhor, porque elas existem. Sem exageros, saem plantando uma ordem nova, sem imposições, recolhendo o que existe de bom, integrando pessoas e coisas. Sua presença não pesa, mas constroí relacionamento com os outros. Seu jeito de viver, antes de analisar ou criticar, recolhe o bem e a beleza.
Sabemos que muitas pessoas “curtem” a natureza, mas a contribuição dos cristãos é diferente. A poesia da vida nasce do relacionamento com Deus e a justiça de seu Reino. A natureza não é divinizada, mas acolhida e amada por pessoas que fizeram escolhas de vida, recebendo o chamado a seguir Jesus e os valores do Reino de Deus. Não vão em busca de forças extraordinárias, mas descobrem o extraordinário da vida no relacionamento com Deus.
Também o “reino” animal é carregado de lições que apontam para o “Reino de Deus”. Os pássaros dos céus, que não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns (Cf. Mt 6, 26), são sinais do amor com que Deus cuida dos seus. Olhar para eles e descobrir as lições que o Senhor nos oferece é sabedoria! Confiança, liberdade, entrega! Asas que se abrem e muitas pessoas até encontram jeito de “voar”, com instrumentos esportivos que possibilitam sentir o gostinho de tais alturas! Entretanto, maiores altitudes podem ser alcançadas mesmo com os pés no chão, por quem se entrega confiante nos braços do Pai, vivendo bem cada momento presente, ouvindo o apelo do Senhor: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá sua própria preocupação! Para cada dia bastam seus próprios problemas” (Mt 6, 34).
Indo além de plantas ou pássaros, Jesus remete seus discípulos de todos os tempos à escolha que decide tudo: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33). Não somos ingênuos, pensando que Deus estará à nossa disposição para oferecer roupa e alimento, mas sabemos que sua Providência Santíssima age e se realiza também através de nossas escolhas diárias. Buscar a justiça do Reino de Deus quer dizer coerência com a verdade e retidão no agir. Se assim nos decidimos, o espaço está aberto para que Deus realize sua obra. A culpa da falta de comida ou de roupa, casa, abrigo, apoio, não está em Deus, mas nas estruturas injustas que se instalaram entre nós e que não correspondem em nada com o plano por Ele estabelecido. O paraíso terrestre, descrito no livro do Gênesis, continua sendo a referência para quem quer conhecer o projeto original! De lá para cá, muito estrago foi feito e muitas tarefas se apresentam para quem quer optar pelo que Deus pensa.
Na próxima semana, a Igreja inicia a Quaresma e lança em todo o Brasil a Campanha da Fraternidade, que toca num tema atual e desafiador, o tráfico humano. Não corresponde ao plano de Deus as pessoas serem transformadas em mercadorias, ou prostituídas. Atenta contra o Reino de Deus crianças ou jovens e adultos serem negociados para transplante de órgãos. Causa vergonha, revolta, e comoção que grita por soluções o tráfico de pessoas para trabalho escravo! Tudo isso clama por Reino de Deus! Desejamos contribuir para que nasça uma nova consciência social e todas as pessoas de boa vontade se unam para vencer esta terrível chaga social. A Campanha da Fraternidade quer ser mesmo uma Campanha de opinião pública, para suscitar novas práticas de relacionamento entre as pessoas.
A justiça do Reino de Deus exige que as pessoas sejam mais tratadas do que as plantas ou os animais! Sem desvalorizar a natureza, é hora de dar um salto de qualidade no relacionamento social. Afinal, no último dia da criação, na belíssima visão do Livro do Gênesis, foram criados o homem e a mulher e só deles se disse “à sua imagem e semelhança” (Cf. Gn 1, 26-31). Não permaneçamos inativos ou imóveis diante de ações que vilipendiam a beleza da obra de Deus. Esperamos um tempo novo e desejamos construí-lo juntos!

Fonte: Zenit.