segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A Escravidão hoje atinge 29 milhões de trabalhadores em todo o mundo

Em 20 de novembro, o Brasil recorda a memória de Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra na luta pela libertação. Desde 1978, o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial batizou a data como o Dia Nacional da Consciência Negra em substituição ao 13 de Maio, que é considerado como o Dia das Raças.



Para colaborar com a reflexão nesta data, a Pastoral Afro-brasileira da CNBB divulgou uma mensagem, na qual recorda os desafios e a luta contra a escravidão moderna, e em prol da cidadania dos afrodescendentes.
A seguir, a íntegra do texto:
20 de novembro: Dia da Consciência Negra
Aos poucos os eventos gaúchos atraíram a atenção da mídia nacional e de grupos negros de outros Estados, que também passaram a adotar o 20 de novembro. Finalmente, em 1978, o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial adotou a data, batizando-a de Dia Nacional da Consciência Negra. Mais recentemente os poderes públicos abraçaram a ideia, dando origem ao feriado de amanhã, celebrado em muitas cidades do País.
Em uma dissertação de mestrado apresentada no programa de pós-graduação em história da PUC de Porto Alegre, o jornalista negro Deivison Moacir Cezar de Campos sugere que os rapazes do Palmares foram subversivos. Porque fizeram um contraponto ao discurso oficial do regime militar, que exaltava as igualdades proporcionadas pela democracia racial e via no debate sobre o tema um fator de distúrbio. “Eles buscavam o reconhecimento das diferenças étnicas e das condições desiguais de acesso à cidadania e a integração socioeconômica”, diz a tese. E mais: “Colocaram-se contra o oficialismo ao defenderem a substituição de 13 de Maio, o Dia das Raças, pelo 20 de Novembro, Dia do Negro; ao proporem uma revisão da historiografia; ao afirmarem um herói não reconhecido.”
Hoje, muitas conquistas das comunidades negras estão presentes em nossa sociedade. Existem desafios que vamos enfrentando com participação de grupos organizados ou não. A Pastoral Afro-brasileira, presente em todo o Brasil, celebra mas também está empenhada em enfrentar os desafios presentes no mundo. A Escravidão hoje atinge 29 milhões de trabalhadores em todo o mundo. Um relatório recém-divulgado pela fundação Walk Free aponta que 29 milhões de pessoas no mundo ainda trabalham sob o regime de escravidão.
Para o cientista político Leonardo Sakamoto, que é coordenador da ONG Repórter Brasil e membro da Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo, a escravidão ocorre quando a dignidade ou a liberdade são aviltadas. Condição degradante é aquela que rompe o limite da dignidade. São negadas a essas pessoas condições mínimas mais fundamentais, colocando em risco a saúde e a vida.
A Mauritânia ocupa o primeiro lugar do ranking de escravidão global, que analisou 162 países e leva em consideração o casamento infantil e os níveis de tráfico humano. Haiti, Paquistão e Índia vêm em seguida. No Brasil, 125 anos após a abolição da escravatura, milhares de pessoas ainda são submetidas a trabalhos em situação degradante. No entanto, há avanço na erradicação da prática. A primeira política de contenção do trabalho escravo é de 1995 e, de lá para cá, 45 mil pessoas foram libertadas de locais onde havia exploração desumana da mão de obra. Tramita no Congresso Nacional uma Proposta de Emenda Constitucional para endurecer a lei. É a PEC do Trabalho Escravo e prevê o confisco de imóveis em que o trabalho escravo for encontrado e sua destinação para reforma agrária ou para o uso habitacional urbano.
Lucrativa, a escravidão moderna movimenta mais de US$ 32 bilhões, segundo a Organização Internacional do Trabalho. Estimativas da OIT também apontam que há 5,5 milhões de crianças escravas no mundo.
Como muito bem falou o Papa João Paulo II, aos afro-americanos, em 1992, em Santo Domingo: "A estima e o cultivo dos vossos valores Afro-americanos, enriquecerão infalivelmente a Igreja."
Em outras palavras, a novidade que a Igreja quer e merece é a inclusão em sua Ação Evangelizadora, das riquezas culturais e espirituais que emanam do Patrimônio africano e afro-descendente.
O processo de Cidadania do povo negro é uma dimensão essencial da vida e da Missão da Nossa Igreja Católica Apostólica Romana. A Igreja Católica no Brasil, fiel à missão de Jesus Cristo, está presente nesses importantes acontecimentos por meio de seus representantes e de suas orações. Exorta a todo o Povo de Deus a colocar-se a serviço da vida e da esperança, "acolher, com abertura de espírito as justas reivindicações de movimentos - indígenas, da consciência negra, das mulheres e outros - (...) e empenhar-se na defesa das diferenças culturais, com especial atenção às populações afro-brasileiras e indígenas" (CNBB, Doc. 65, nº 59).

Pastoral Afro-brasileira da CNBB

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Papa à Comunidade Shalom: Não tenham vergonha do Evangelho de Cristo

O Papa Francisco pediu hoje à Comunidade Católica Shalom que não tivesse vergonha de anunciar Jesus Cristo e seu Evangelho com alegria, ternura, misericórdia e audácia. O pedido foi feito na manhã desta sexta-feira (14), quando o pontífice recebeu em audiência privada o fundador e moderador da Comunidade, Moysés Louro de Azevedo Filho.
“Ele disse: ‘Não tenham vergonha do Evangelho de Cristo, não tenham vergonha de anunciar Jesus Cristo e o seu Evangelho com alegria, com ternura, com misericórdia, com audácia’. Pediu para conhecermos em profundidade e difundirmos a Evangelii Gaudium. Também pediu para continuarmos rezando por ele”, afirma Moysés.
O mandato faz eco às palavras do Papa Emérito Bento XVI em 2012, quando se dirigiu à Comunidade Shalom reunida em Roma, após a aprovação definitiva de seus estatutos, encorajando seus membros a serem “alegres instrumentos do amor e da misericórdia de Deus”.
“Com o coração agradecido pela acolhida do Santo Padre, relembrei-lhe um pouco da nossa história, de quando muito jovem pude ofertar minha vida e minha juventude aos pés do Papa João Paulo II, em favor da evangelização dos jovens mais distantes de Cristo e da Igreja. Aproveitei a ocasião para dizer ao Papa Francisco: ‘Santo Padre, eu estou aqui para renovar minha oferta de vida diante do senhor, e não só a minha, mas a de toda a Comunidade, de todos estes jovens, famílias, sacerdotes, celibatários que hoje fazem parte da Obra Shalom’. Ele se alegrou, agradeceu e reafirmou a sua confiança na Comunidade."
O encontro com Francisco, que durou cerca de 30 minutos, é considerado “histórico” pelo fundador. Moysés presenteou o Papa com um álbum que traz um pouco da história da Comunidade e seu compromisso de oração com ele mostrando a campanha que fizemos nas redes sociais 'Eu rezo pelo Papa'. Diz Moysés: "Aproveitei a ocasião e mostrei, no tablet, a página da internet Eu rezo pelo Papa, iniciativa pela qual o Santo Padre, com alegria, agradeceu, e pediu para que continuássemos rezando por ele."  Esta ação tem mobilizado milhares de pessoas de vários grupos, paróquias, comunidades e até de outras religiões.
Durante o encontro, Moysés pôde partilhar ainda mais sobre a vida e a missão da Comunidade e reafirmou o serviço incondicional à Igreja. “Disse-lhe que ele poderia contar conosco incondicionalmente em seu pontificado, que contasse com a nossa comunhão de oração, de vida e de missão”, concluiu.
Por fim, o fundador agradeceu a Francisco pelo grande dom que ele é para a Igreja e pelo “kairós de misericórdia" ("tempo de misericórdia") que tem sido o seu pontificado. Segundo Azevedo, o Pontífice afirmou prontamente que a intuição  que João Paulo II teve acerca da Divina Misericórdia - inclusive instituindo o Domingo da Misericórdia no segundo domingo da Páscoa - é uma inspiração determinante dentro do seu pontificado, pois é disso que os homens precisam: experimentar a misericórdia de Deus.

Fonte: Zenit.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Bélgica aprova a eutanásia infantil.

Bélgica tornou-se na tarde de ontem no primeiro país do mundo que acrescenta à sua legislação a eutanásia de menores sem requisito de idade. O Congresso dos Deputados aprovou definitivamente um projeto polêmico, que contou com 86 votos a favor, 44 contra e 12 abstenções. Com a nova lei, os menores com doenças incuráveis poderão aceder a essa prática, sempre que cumpram com uns requisitos rigorosos. O principal é demonstrar a capacidade de discernimento.
A passagem pelo Congresso dos Deputados fez algumas mínimas alterações ao projeto aprovado pelo Senado, que na Bélgica é a câmera com iniciativa legislativa. O sofrimento da criança só poderá ser físico - a eutanásia para adultos contempla também o psíquico – e os médicos deverão comprovar que, em qualquer caso, o paciente morreria em curto prazo .
A Holanda era, até agora, o único país que incluía crianças na prática da eutanásia, com um requisito de idade fixado entre 12 e 18 anos, dependendo do caso. Bélgica deu um passo a mais ao optar por avaliar a maturidade mental da criança em vez de estabelecer uma idade de referência.
O texto final estabelece que será o médico encarregado do caso que avaliará se o menor é capaz de tomar a decisão, mas terá que consultar previamente um psiquiatra infantil. Na atualidade, Bélgica já prevê o direito à eutanásia a partir dos 15 anos para jovens emancipados.
Inúmeros profissionais médicos reagiram violentamente a uma lei que segundo eles não responde a nenhuma demanda da sociedade nem do setor sanitário, mas sim às cabalas eleitorais de uns políticos que nesta mesma primavera concorrem às eleições gerais.
Assim, a iniciativa aprovada hoje pelo Parlamento belga recebeu as críticas do primeiro Congresso Internacional de Cidadãos Paliativos Pediátricos celebrado nesta semana na Índia e que incluiu na sua declaração final uma “chamada urgente ao Governo belga para que reconsidere a sua decisão”.
Os especialistas reunidos no Congresso Internacional defenderam que todos os menores em estado terminal devem ter acesso aos meios adequados para controlar a dor e os sintomas, bem como aos cuidados paliativos de alta qualidade. "Acreditamos que a eutanásia não é parte da terapia paliativa pediátrica e não é uma alternativa", disse o comunicado.
Também uns 40 pediatras belgas publicaram uma carta aberta para advertir que consideram “precipitado” a tramitação desta lei e mostrar que não existe uma demanda social nem médica para dar este passo. Uma carta semelhante, à qual se somaram até 160 pediatras, como informa a mídia local, foi dirigida ontem aos grupos políticos na véspera do voto para pedir-lhes que o atrasem até a próxima legislatura.
Enquanto isso, os líderes das grandes religiões da Bélgica (cristãos, muçulmanos e judeus) têm mostrado repetidamente a sua rejeição à lei. Neste sentido, no 6 de novembro emitiram uma declaração conjunta opondo-se à legalização da eutanásia para menores. "A eutanásia das pessoas mais vulneráveis ​​é desumana e destrói as bases da nossa sociedade", denunciavam. "É uma negação da dignidade destas pessoas e as abandona ao critério, ou seja, à arbitrariedade de quem decide", acrescentaram.
Na nota, divulgada pela agência Cathobel, os chefes religiosos destacavam também que estão “contra o sofrimento físico e moral, em particular das crianças", mas explicavam que "propor que os menores possam eleger a sua própria morte é uma maneira de distorcer sua capacidade de julgar e, portanto, a sua liberdade". "Expressamos nossa profunda preocupação com o risco de banalização crescente de uma realidade tão grave”, concluíam .
Os líderes religiosos da Bélgica afirmavam também em outra mensagem conjunta que “a eutanásia das pessoas mais vulneráveis é desumana e destrói as bases da nossa sociedade"; e acrescentavam que "é uma negação da dignidade dessas pessoas e as abandona à arbitrariedade de quem decide".
O número de eutanásias praticadas na Bélgica atingiu um recorde em 2012, com um total de 1.432 casos, um 25% a mais do que no ano anterior, de acordo com dados da Comissão Federal de Controle e de Avaliação da Eutanásia.
O rei Felipe deverá assinar a lei para que entre em vigor. Até agora, o rei, pai de quatro filhos, não se pronunciou publicamente sobre o assunto .
Na Europa, a eutanásia ativa (com assistência médica) está descriminalizada na Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Suíça.

Fonte: Zenit.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Francisco faz o convite para que se viva a eucaristia de modo coerente

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Na última catequese, destaquei como a Eucaristia nos introduz na comunhão real com Jesus e o seu mistério. Agora podemos nos colocar algumas perguntas sobre a relação entre a Eucaristia que celebramos e a nossa vida, como Igreja e como cristãos individualmente. Como vivemos a Eucaristia? Quando vamos à Missa aos domingos, como a vivemos? É somente um momento de festa, é uma tradição consolidada, é uma ocasião para se encontrar ou para sentir-se bem, ou é algo a mais?
Há alguns sinais muito concretos para entender como vivemos tudo isso, como vivemos a Eucaristia; sinais que nos dizem se nós vivemos bem a Eucaristia ou não a vivemos tão bem. O primeiro indício é o nosso modo de olhar e considerar os outros. Na Eucaristia, Cristo realiza sempre novamente o dom de si que fez na Cruz. Toda a sua vida é um ato de total partilha de si por amor; por isso Ele amava estar com os discípulos e com as pessoas que tinha oportunidade de conhecer. Isto significava para Ele partilhar os desejos deles, os seus problemas, aquilo que agitava as suas almas e suas vidas. Agora nós, quando participamos da Santa Missa, encontramo-nos com homens e mulheres de todo tipo: jovens, idosos, crianças, pobres e ricos; originários do lugar ou de fora; acompanhados por familiares ou sozinhos… Mas a Eucaristia que celebro leva-me a senti-los todos, realmente, como irmãos e irmãs? Faz crescer em mim a capacidade de alegrar com quem se alegra, de chorar com quem chora? Impele-me a seguir rumo aos pobres, aos doentes, aos marginalizados? Ajuda-me a reconhecer neles a face de Jesus? Todos nós vamos à Missa porque amamos Jesus e queremos partilhar, na Eucaristia, a sua paixão e a sua ressurreição. Mas amamos, como quer Jesus, aqueles irmãos e irmãs mais necessitados? Por exemplo, em Roma, nestes dias vimos tantos problemas sociais ou pela chuva que fez tantos danos a bairros inteiros, ou pela falta de trabalho, consequência da crise econômica em todo o mundo. Pergunto-me, e cada um de nós se pergunte: eu que vou à Missa, como vivo isto? Preocupo-me de ajudar, de aproximar-me, de rezar por aqueles que têm este problema? Ou sou um pouco indiferente? Ou talvez me preocupo de fofocar: viu como está vestida aquela, ou como está vestido aquele? Às vezes se faz isso, depois da Missa, e não se deve fazer! Devemos nos preocupar com os nossos irmãos e irmãs que têm necessidade por causa de uma doença, de um problema. Hoje, fará bem a nós pensar nestes nossos irmãos e irmãs que têm este problema aqui em Roma: problemas pela tragédia provocada pela chuva e problemas sociais e de trabalho. Peçamos a Jesus, que recebemos na Eucaristia, que nos ajude a ajudá-los.
Um segundo indício, muito importante, é a graça de sentir-se perdoados e prontos a perdoar. Às vezes alguém pergunta: “Por que se deveria ir à igreja, visto que quem participa habitualmente da Santa Missa é pecador como os outros?”. Quantas vezes ouvimos isso! Na realidade, quem celebra a Eucaristia não o faz porque se acredita ou quer parecer melhor que os outros, mas propriamente porque se reconhece sempre necessitado de ser acolhido e regenerado pela misericórdia de Deus, feita carne em Jesus Cristo. Se algum de nós não se sente necessitado da misericórdia de Deus, não se sente pecador, é melhor que não vá à Missa! Nós vamos à Missa porque somos pecadores e queremos receber o perdão de Deus, participar da redenção de Jesus, do seu perdão. Aquele “Confesso” que dizemos no início não é “pro forma”, é um verdadeiro ato de penitência! Eu sou pecador e o confesso, assim começa a Missa! Não devemos nunca esquecer que a Última Ceia de Jesus aconteceu “na noite em que foi traído” (1 Cor 11, 23). Naquele pão e naquele vinho que oferecemos e em torno do qual nos reunimos se renova toda vez o dom do corpo e do sangue de Cristo para a remissão dos nossos pecados. Devemos ir à Missa humildemente, como pecadores e o Senhor nos reconcilia.
Um último indício precioso nos vem oferecido pela relação entre a celebração eucarística e a vida das nossas comunidades cristãs. É necessário sempre ter em mente que a Eucaristia não é algo que fazemos nós; não é uma comemoração nossa daquilo que Jesus disse e fez. Não. É propriamente uma ação de Cristo! É Cristo que age ali, no altar. É um dom de Cristo, que se torna presente e nos acolhe em torno de si, para nutrir-nos da sua Palavra e da sua vida. Isto significa que a missão e a identidade própria da Igreja surge dali, da Eucaristia, e ali sempre toma forma. Uma celebração pode ser também impecável do ponto de vista exterior, belíssima, mas se não nos conduz ao encontro com Jesus Cristo arrisca não levar alimento algum ao nosso coração e à nossa vida. Através da Eucaristia, em vez disso, Cristo quer entrar na nossa existência e permeá-la pela sua graça, de forma que em toda comunidade cristã haja coerência entre liturgia e vida.
O coração se enche de confiança e esperança pensando nas palavras de Jesus reportadas no Evangelho: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 54). Vivamos a Eucaristia com espírito de fé, de oração, de perdão, de penitência, de alegria comunitária, de preocupação pelos necessitados e pelas necessidades de tantos irmãos e irmãs, na certeza de que o Senhor cumprirá aquilo que nos prometeu: a vida eterna. Assim seja!

(Tradução Canção Nova Notícias / Jéssica Marçal)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A oração para renovar a ligação com o Céu

É o primeiro imperativo: a oração não se deve dar por suposto. É uma arte que sempre precisa reaprender. É uma habilidade que se recebe tendo o olhar aberto sobre a história, fazendo de cada evento um motivo de louvor e súplica ao Senhor.
É um estado permanente da vontade, "conectada" com o céu. A oração não pode se esgotar no tempo de um ritual ou de um encontro comunitário.
Como afirma o Santo Padre Bento XVI, "mesmo aqueles que são muito avançados na vida espiritual sempre sentem a necessidade de entrar na escola de Jesus, para aprender a orar com autenticidade” (Audiência Geral, 4 de maio de 2011).
Em profunda harmonia espiritual com o seu antecessor, que entregou para toda a humanidade um “programa” para o Terceiro milênio: “As nossas comunidades cristãs devem tornar-se verdadeiras "escolas" de oração... uma oração intensa, que não desvia do compromisso na história: abrindo o coração ao amor de Deus, abre-o ao amor dos irmãos e nos torna capazes de construir a história segundo o desígnio de Deus” (Beato João Paulo II em Novo Millenio Ineunte, 33).
A oração, portanto, requer "olhos abertos", consciências vigilantes, vontade livre de toda preguiça ou deserção. Não nos cansemos de dizê-lo: a vida cristã precisa de autenticidade, de nova interioridade de fé, de reencontro íntimo com Deus: só a oração atende essas necessidades.
A nova evangelização nasce, cresce e se desenvolve através do testemunho de homens que sabem cultivar o desejo de Deus na oração e na íntima comunhão com a pessoa do Espírito Santo, que faz da nossa oração um “estilo de vida”, uma vida nova, boa, plena, feliz.
Esta é a razão pela qual o Papa João Paulo II sempre afirmava que “[a oração] é o segredo de um cristianismo verdadeiramente vital, que não tem motivos para temer o futuro, porque continuamente retorna para as fontes e se regenera nelas” (Novo Millennium ineunte, 32).
No documento preparatório do Sínodo dos Bispos "A nova evangelização para a transmissão da fé cristã" se destaca a necessidade do "retorno à oração", de modo que as palavras humanas deixem a primazia à Palavra de Deus.
Uma nova formação à oração, que apresente os evangelizadores mais como "orantes” do que como “oradores”. “A transmissão da fé não acontece só com as palavras, mas exige um relacionamento com Deus através da oração, que é a mesma fé em ato. Nesta educação para a oração... O sujeito educador é o mesmo Deus e o verdadeiro educador à oração é o Espírito Santo” (Lineamenta para o Sínodo dos Bispos sobre a nova evangelização, 15)

O Presidente da Renovação Carismática (RC) explica que a nova evangelização precisa mais de orantes do que de oradores



Fonte: Zenit.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Há um ano: a histórica renúncia de Bento XVI




O dia 11 de fevereiro de 2013 prometia ser uma segunda-feira particularmente tranquila. No consistório, conforme previsto, o papa Bento XVI decretou a inscrição de Santa Catarina de Siena Montoya e Upegui e de Maria Guadalupe Garcia Zavala no Livro dos Santos. Era um dia a tal ponto tranquilo que a Sala de Imprensa da Santa Sé estava quase vazia.
O que ninguém esperava eram as seguintes palavras de Bento XVI: “Convoquei este consistório não só para as três causas de canonização, mas também para comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja”.
E veio o anúncio: “Depois de examinar reiteradamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que, devido à idade avançada, não tenho mais forças para exercer adequadamente o ministério petrino”.
E prosseguiu: “Por isso, muito consciente da seriedade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado por meio dos cardeais em 19 de abril de 2005, de forma que, a partir do dia 28 de fevereiro de 2013, às 20 horas, ficará vacante a sé de Roma, a sé de São Pedro, e deverá ser convocado, por meio de quem tem a devida competência, o conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice".
“O papa esperou este consistório com a participação de grande quantidade de cardeais presentes”, disse o porta-voz vaticano, pe. Federico Lombardi, “e leu o seu pronunciamento em latim”.
“O papa continuará na plenitude das suas funções até 28 de janeiro, às 20 horas. A partir desse momento, entraremos em sé vacante”, explicou o porta-voz, acrescentando: “Não existem dúvidas sobre a renúncia, que foi feita do modo válido previsto pelo direito canônico”.
Gestos precursores da renúncia
No dia 28 de abril de 2009, o papa Bento XVI viajou a L’Aquila, na Itália, para orar pelas vítimas do terremoto que tinha atingido a região. Na basílica de Nossa Senhora de Collemaggio, onde está a relíquia do papa Celestino V, Bento XVI depositou o pálio que lhe fora entregue no dia da sua entronização.
Celestino V (1209-1296) foi eleito papa após uma longa sé vacante, o que se deveu à divisão do colégio cardinalício entre os candidatos apoiados pelas famílias Colonna e Orsini. Após cinco meses como pontífice, ele renunciou voluntariamente ao pontificado para retornar à sua vida de ermitão. Reunido o conclave, seu sucessor, Bonifácio VIII, foi eleito em um dia.
Quando Bento XVI voltou a essa região, por ocasião do “perdão de Celestino V”, ele declarou em sua homilia: “Passaram-se oitocentos anos, mas Celestino V permanece presente na história em razão dos célebres acontecimentos de sua época e do seu pontificado e, especialmente, da sua santidade”.
O papa Bento XVI quis ressaltar, ainda, “vários ensinamentos” da vida do papa Celestino, que são “válidos também para a nossa época”. Precisamos ver nele um “buscador de Deus”, que, “no silêncio exterior, mas em especial no interior, conseguiu perceber a voz de Deus, capaz de orientar a sua vida”. Além disso, “São Pedro-Celestino, mesmo levando uma vida de eremita, não se 'fechou em si mesmo', mas manteve a paixão por levar a boa notícia do Evangelho aos seus irmãos. E o segredo da sua fecundidade pastoral estava precisamente no fato de permanecer com o Senhor, na oração”.
Depois da perplexidade normal que um ato histórico desta envergadura suscita, veio o conclave e, com ele, o papa Francisco. Depois de um ano, tudo agora parece mais claro.
Monsenhor Ratzinger: “Meu irmão não se arrepende de ter renunciado”
O irmão do papa emérito se pronuncia no aniversário da histórica renúncia
Vaticano, 10 de fevereiro de 2014 (Zenit.org)
Redação
Georg Ratzinger, hoje com noventa anos, se lembra com preocupação do dia em que o seu irmão menor, Joseph, foi eleito Sumo Pontífice. "Devo dizer, com toda a sinceridade, que, naquele momento, eu me senti bastante derrotado". O que o entristecia era pensar que o irmão não teria mais tempo para ele a partir de então. No dia 19 de abril de 2005, não conseguiu telefonar para Joseph Ratzinger. Passaram-se dias depois da eleição do Sucessor de Pedro até que mons. Georg conseguisse falar com o irmão. "Agora eu tenho, graças a Deus, um segundo telefone, com um número que só ele conhece. Quanto toca esse telefone, eu sei que o meu irmão, o papa, está me ligando".
É conhecida a relação estreita entre os irmãos Ratzinger. Detalhes inéditos da vocação de Joseph Ratzinger foram revelados no livro “Meu irmão, o papa” (Mein Bruder, der Papst), entrevista concedida por mons. Georg Ratzinger ao jornalista e escritor alemão Michael Hesemann. Mons. Georg começa pelos anos da infância e, entre outras coisas, conta como nasceu e amadureceu no seio da família a decisão do jovem Joseph de servir à Igreja no sacerdócio, até chegar aos anos do pontificado.
Ambos os irmãos continuaram se encontrando. Georg visitava o irmão várias vezes por ano em Roma. As festas natalinas, a páscoa e o mês de agosto em Castel Gandolfo eram as ocasiões em que ambos podiam passar algum tempo juntos. Mons. Ratzinger ficava no Vaticano de 28 de dezembro até 10 de janeiro. Neste ano, porém, ele prolongou a estada para festejar o seu 90º aniversário em companhia do papa emérito, no dia 15 de janeiro.
Mons. Georg Ratzinger passa o resto do ano em casa, em Ratisbona, cidade em que se localiza o Instituto Papa Bento XVI, encarregado de publicar as obras completas do emérito bispo de Roma. Foi para esse lugar que se dirigiu um jornalista do periódico espanhol La Razón, a fim de conversar com Georg Ratzinger. Tanto no Instituto quanto na diocese, ele recebeu a informação de que, por causa da idade avançada, o irmão de Bento XVI "não está mais em condições de conceder entrevistas".
Mesmo assim, o jornalista Michael Hesseman sugere uma conversa por telefone. Mons. Georg aceita.
"Meu irmão está em bom estado de saúde. Ele tenta manter a serenidade, mesmo sem ter todo o tempo que gostaria para tocar o piano ou conversar por telefone, já que ainda recebe muitas visitas e mantém audiências". O irmão de Bento XVI diz que o papa emérito continua estudando teologia, mas não confirma a possibilidade de que ele esteja escrevendo as suas memórias: "Não posso confirmar. Além disso, já existem livros que relatam amplamente a vida do meu irmão, que já contêm a essência do seu trabalho".
Perguntado sobre o primeiro aniversário da renúncia e sobre as reflexões feitas durante esses meses, Georg Ratzinger afirma: "Meu irmão não se arrepende da decisão que tomou há um ano. Para ele, estão bem claras as tarefas e funções que ele quer realizar. A renúncia foi uma decisão clara que continua sendo válida hoje".
Mons. Georg Ratzinger nasceu em Pleiskirchen, na Alemanha, em 15 de janeiro de 1924. É conhecido pela atividade como músico e como diretor de coral: com apenas onze anos, o pequeno Georg já tocava o órgão da igreja. Em 1935, ele entrou no Kleine Seminar, um internato para meninos que querem ser sacerdotes, na cidade de Traunstein. Ratzinger recebeu ali as primeiras aulas de música, que continuaria no Seminário de Munique e de Freising, onde entrou junto com o irmão Joseph em janeiro de 1946. Cinco anos depois, em 1951, ambos foram ordenados, também juntos, pelo cardeal Michael von Faulhaber.

Fonte: Zenit.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Especialistas consideram que o próprio sistema educacional brasileiro forma analfabetos



A notícia de que o Brasil tem 13,9 milhões de adultos analfabetos, segundo o Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos, divulgado pela Unesco, é social e politicamente instigadora. O número é muito alto e revela um sério comprometimento da cidadania. Embora não haja lei que obrigue o adulto a estar na escola para superar o grande mal do analfabetismo, é preciso acender uma chama de grande sensibilidade social e política, com força de articulação de instituições governamentais, educacionais, de igrejas e tantas outras entidades, no enfrentamento dessa chaga terrível na sociedade brasileira.
O fato de o Brasil estar entre os dez países do mundo que concentram o maior número de analfabetos deve ferir nossa consciência cidadã. Todos precisam intuir ações que se configurem numa mobilização geral, capitaneada pelas responsabilidades primeiras governamentais, para garantir aos analfabetos um passo adiante na sua condição cidadã. Não se pode descansar diante do atual quadro que perpetua prejuízos. As ações de combate ao analfabetismo têm suas complexidades e exigências de investimentos. Por isso, é preciso disponibilizar recursos profissionais, instalações e métodos para que cidadãos de várias condições e segmentos deem sua contribuição para que, em mutirão, se possa mudar esse cenário comprometedor da cidadania.
Importante sublinhar que existe um agravante no que se refere ao analfabetismo existente no Brasil. Especialistas consideram que o próprio sistema educacional brasileiro forma analfabetos, pessoas com dificuldades de alcançar conquistas e viver a cidadania com liberdade. O analfabetismo das letras incide, para além delas mesmas, na capacidade de compreensão e interpretação da própria realidade. O resultado é uma deficiência na participação social e política, a incapacidade para ajudar a corrigir os rumos da sociedade, monitorar os políticos e fazer nascer a lucidez corajosa para as grandes reformas institucionais. Assim, ignorar esse grave problema é condenar a sociedade a estar enterrada na corrupção, na desigualdade, na injustiça e na convivência pacífica com o mal.
A alfabetização é um passo indispensável para a arte de ler, consequentemente interpretar, discernir e escolher o que deve pautar a vida de cada cidadão. É preciso dar a todos a condição necessária para participar, de maneira cidadã, dos processos de interpretação, entendimento e escolhas que mudam os rumos da sociedade. A contramão disso, o analfabetismo, é um sistema escravocrata que perpetua hegemonias e dominações, privilegiando grupos políticos e empresariais, em detrimento do bem comum e da justiça intocável que deve presidir a sociedade. Portanto, é preciso um mutirão, com velocidade própria, considerando metodologias adequadas, um envolvimento de todos, impelindo particularmente o poder público, para desenhar novos cenários. As igrejas de diferentes confissões, com sua capilaridade, seus espaços, seus membros, podem se aliar às instituições de ensino e, em cooperação com outros segmentos, desenhar um projeto de ação, simples, incidente e com força de mudar este cenário.
Importante é também olhar o conjunto da sociedade e identificar as outras formas de analfabetismo, que ajudam a explicar a atual carência dos processos formais de educação básica eficiente. Ajuda neste exercício escutar o Papa Francisco, quando fala de três males que estão corroendo a contemporaneidade: as misérias moral, material e espiritual. A miséria material é, sem dúvida, consequência das misérias espiritual e moral. A sociedade moderna está padecendo de um completo analfabetismo moral. Tudo é negociado, ameaçado, disputado e dividido. Infelizmente, valem os interesses que atendem demandas do que o Papa Francisco aponta como “idolatria do dinheiro”, levando a qualquer efeito, desde que o próprio interesse seja atendido, muitas vezes até com aparências de religiosidades e de comprometimento político. O analfabetismo moral está conduzindo a humanidade a um nível intolerável de prejuízos, muitos irreversíveis. Ele só será corrigido pela superação da miséria espiritual.
Esse analfabetismo, consequência da miséria espiritual, é o conjunto que reúne ganhos salariais exorbitantes, o consumo desarvorado e doentio, o desejo de poder que negocia tudo e os medos que fazem perder a serenidade na busca pelas correções necessárias. Para superar esses males e, consequentemente, desenvolver a imprescindível sensibilidade social, é preciso caminhar junto com os pobres e sofredores, buscar o caminho da espiritualidade como prática no seguimento de Jesus Cristo. Assim, serão encontradas as dinâmicas para promover atitudes de ruptura e novas escolhas, capazes de efetivamente combater o analfabetismo educacional e, particularmente, o analfabetismo moral. Todo cidadão deve se comprometer no fortalecimento das bases de uma sociedade mais solidária, travando uma grande luta contra todos esses tipos de analfabetismo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte